'Se estão atacando o diferente do seu lado, um dia pode chegar a sua vez', diz Ronaldo Fraga

Maria Rita Alonso e Sergio Amaral - Especial para O Estado de S. Paulo

Em entrevista ao Estado, estilista fala sobre o momento político do Brasil e a mensagem de tolerância de seu desfile, que colocou judeus e árabes comendo e bebendo juntos na passarela

O estilista Ronaldo Fraga, que fez o mais emocionante destfile desta terça na São Paulo Fashion Week

O estilista Ronaldo Fraga, que fez o mais emocionante destfile desta terça na São Paulo Fashion Week Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

Inspirado em uma viagem de 40 dias a Israel, o estilista Ronaldo Fraga fez um manifesto à tolerância em seu desfile de terça-feira (23), na São Paulo Fashion Week. No centro da passarela, um banquete de pratos típicos árabes e judaicos sobre uma enorme mesa dava indícios do que estava por vir.

Surgiram então dois homens caminhando sincronizadamente, um deles envolto num lenço palestino com um Hamsá bordado, e o outro usando um casaco com uma estrela de Davi. Ao final do trajeto, em frente aos fotógrafos, eles se encontraram, deram as mãos... e se beijaram.

Numa época em que muito se fala de ódio, Ronaldo colocou o amor literalmente em cena. Quer imagem melhor do que judeus e palestinos desfilando e depois sentando juntos à mesa para a semana que antecede uma das mais polarizadas eleições que o Brasil já viu? “A coleção fala de tolerância como um valor mínimo para o ser humano a essa altura do campeonato”, diz o estilista, que desta vez apostou no jeans, o tecido mais democrático da moda, trazendo bordados de peixes, laranjeiras e efeitos de tapeçaria como elementos decorativos. “O que busquei aqui foi colocar a conversa na mesa de jantar, porque acredito que é isso que precisamos fazer”. A seguir, trechos da entrevista que ele deu ao Estado, momentos antes do desfile.

Looks da coleção de Ronaldo Fraga desfilada na 46ª edição da São Paulo Fashion Week

Looks da coleção de Ronaldo Fraga desfilada na 46ª edição da São Paulo Fashion Week Foto: Nelson Almeida/AFP

Sua nova coleção propõe uma comparação entre o conflito dos judeus e palestinos em Israel e a polarização política que vivemos no Brasil. Como chegou a esse paralelo?

Passei 40 dias em Israel no ano passado. Foi tempo suficiente para conhecer o país inteiro, que tem o território do tamanho de Sergipe. Ali está o epicentro da história da humanidade. Primeiro pensei em Jerusalém para criar um fio condutor desta coleção. Mas quando cheguei a Tel-Aviv fiquei totalmente encantado. A cidade é arborizada, cheia de laranjeiras carregadas, com galerias de arte a cada duas ruas. É lotada de gente e extremamente humanizada. Fica a apenas 100 quilômetros de Jerusalém, mas em uma cidade você sente que está 2000 anos atrás e na outra você se enxerga no futuro. De repente, entrei em um café e vi uma faixa com um texto em hebraico. Perguntei o que significava e me explicaram que ali, ao sentarem juntos um árabe e um judeu, a mesa recebia 50% de desconto. Comecei a olhar ao redor e percebi uma vida totalmente à parte da briga política e religiosa. Estavam ali casais heteros e gays, de árabes e judeus, vivendo de forma totalmente diferente do que a gente imagina. Antes de viajar, me disseram “cuidado com essa sua cara de árabe em Israel”, e eu nunca me senti tão seguro em um lugar. Claro que eles têm um estado militarizado, mas há ali algo que corremos o risco de perder no Brasil, que é a liberdade individual, as relações individuais - foi a partir dessa história que resolvi traçar o paralelo nesta coleção. 

No começo do desfile, casais separados pela mesa onde foi servido um banquete se encontravam e se beijavam em frente aos fotógrafos

No começo do desfile, casais separados pela mesa onde foi servido um banquete se encontravam e se beijavam em frente aos fotógrafos Foto: Sebastião Moreira/EFE

Que tipo de lição essa reflexão pode nos trazer neste momento de extremismo político?

Acho que é importante voltar o olhar para lugares onde esses direitos de liberdade individual foram conquistados, onde essa história foi conquistada. E é uma conquista do civil, que vive à parte do movimento político. 

 

Acha que poderia ser uma saída para nós?

Sim. Acho que estamos em guerra, e o mundo está em guerra mesmo, mas quando você olha para a guerra do outro, você não olha para a sua própria. Para mim, quem está em guerra é o Brasil. É o Rio de Janeiro, por exemplo. Olha a situação dessa cidade! Isso pode se espalhar. O País está indo por um caminho de milícia.

 

É uma coleção para falar da paz?

Mais ou menos. É uma coleção para falar de tolerância como um valor mínimo para o ser humano, a essa altura do campeonato. Um valor mínimo e urgente.

 

Você vê uma saída de unificação? Para juntar os “árabes e judeus” do Brasil, metaforicamente falando, pós-eleições?

Acho que nós só começamos essa guerra. Ganhe um ou outro, a máscara caiu, as portas do armário da intolerância estão abertas. O monstro está à solta e ele não vai ser enfiado de volta no armário no dia 29 de outubro, de um jeito nenhum. Estamos vendo um Brasil racista e homofóbico ganhar força. O que busquei com esse desfile foi colocar a conversa na mesa de jantar, porque acredito que é isso que precisamos fazer.

 

Qual é o papel político da moda?

Nosso papel enquanto homens do nosso tempo, e também enquanto estilista, é pensar na micro e na macro política e é também entender as diferenças. Dei o exemplo desse café na colecão, que é uma micropolítica, porque acho que temos que estimular esse tipo de atitude. E ficar muito atentos.  Se estão atacando o diferente do seu lado, um dia pode chegar a sua vez.

Um dos looks da coleção do designer mineiro que foi quase toda trabalhada em jeans, o tecido mais democrático da moda

Um dos looks da coleção do designer mineiro que foi quase toda trabalhada em jeans, o tecido mais democrático da moda Foto: Nelson Almeida/AFP

Jogando com elementos das culturas judaica e palestinas, Ronaldo estabeleceu um paralelo com a polarização e a intolerância vividas hoje no País

Jogando com elementos das culturas judaica e palestinas, Ronaldo estabeleceu um paralelo com a polarização e a intolerância vividas hoje no País Foto: Paulo Whitaker/Reuters