Fause Haten abre SPFW com desfile teatral 

- O Estado de S.Paulo

“O mundo da moda que se estabeleceu aí não me interessa”, diz ele, que apresentou performance com manequins no Parque da Independência

Manequins no desfile de Fause Haten, no Parque da Independência, na abertura da São Paulo Fashion Week

Manequins no desfile de Fause Haten, no Parque da Independência, na abertura da São Paulo Fashion Week Foto: Fernanda Calfat

Não havia modelos, passarela nem fila A. O desfile que abriu a 41ª edição da São Paulo Fashion Week na noite de ontem ocorreu no Parque da Independência, em frente ao Museu do Ipiranga, e foi aberto ao público, que se sentou em degraus. A apresentação de Fause Haten uniu teatro, dança, música e, claro, moda. Membro da leva de criadores brasileiros que fez sucesso entre o fim dos anos 90 e o início dos 2000, e que venderam suas marcas para grandes conglomerados, já há algum tempo Haten não se define mais como estilista. Prefere ser chamado de artista.

Faz sentido. Seu desfile faz parte de um projeto do Sesc Ipiranga, a exposição #ForadaModa, e as roupas mostradas foram feitas aos olhos do público durante as últimas duas semanas. Nada de inspirações ou tema fechado como é praxe entre os criadores de moda. Seu ponto de partida foram bonecas, batizadas de Marlene, em uma alusão à atriz e cantora alemã Marlene Dietrich. A segunda referência foi a canção La Vie en Rose, de Edith Piaf, também cantada por Dietrich. “Decidi fazer a coleção toda nesse tom, pois precisamos ver a vida um pouco cor de rosa”, diz Haten. “Precisamos de escapismo e poesia. Sempre fico pensando qual a minha função no mercado. Hoje, depois do período da moda corporativa, estamos voltando à era da moda de autor.” 

Por isso mesmo fez uma performance única. Articuladas, as manequins eram conduzidas em cena por bailarinos. Algumas estavam acopladas aos pés deles, outras tinham rodinhas. Todas usavam perucas e foram penteadas e maquiadas pelo expert Ricardo dos Anjos. Usavam looks que iam do rosé ao pink e tinham inspirações diversas. Vestidos de silhueta lânguida, com franjas e bordados de cristais surgiram na companhia de jaquetas metalizadas, peças de estampa floral e itens garimpados e brechós.  

O estilista Fause Haten manipula uma das bonecas. Elas foram inspiradas em Marlene Dietrich

O estilista Fause Haten manipula uma das bonecas. Elas foram inspiradas em Marlene Dietrich Foto: Fernanda Calfat/ divulgação

Após fechar sua loja no bairro de Pinheiros, no ano passado, o estilista atualmente atende suas clientes com hora marcada, num espaço de 1000 m2 no Belenzinho, onde antes funcionava sua fábrica. Diz que viveu uma fase de luto após encerrar as atividades ao grande público, mas que hoje se sente mais feliz. “Aprendi a controlar meu ego e agora atuo em menor escala, como uma costureira de bairro”, define.

A mudança faz parte de sua nova forma de enxergar a indústria. Para ele, a moda como é hoje está com os dias contados. “Esse mundo da moda que se estabeleceu aí não me interessa. Para mim está falido e tende a acabar”, afirma. “O que me interessa hoje é a molecada que eu vejo negando a moda. Uma juventude que tem movimento político, uma música e usa a moda como forma de expressão.”

Política. Na plateia do desfile, Paulo Borges, criador e organizador do SPFW, mostrava-se otimista com a temporada de desfiles que começa hoje na Bienal.  “A moda vai se mostrar muito forte. Em um momento tão especial do Brasil, em que as pessoas estão intolerantes e intransigentes, a semana vem com números importantes, recorde de patrocinadores e sete estreias”, diz. “A cada seis meses, a gente se reconvence do valor que tem o Brasil, de que somos criativos e empreendedores, fortalecendo a nós e ao próprio País.”