Eu e minha jaqueta jeans

Guy Trebay - O Estado de S.Paulo

Crítico de moda do New York Times, fala sobre a peça mais importante de seu guarda-roupa - a jaqueta jeans que o acompanha desde os tempos de juventude hippie

A fatídica jaqueta jeans de Guy Trebay, crítico de moda do New York Times

A fatídica jaqueta jeans de Guy Trebay, crítico de moda do New York Times Foto: The New York Times/ Tony Cenicola

No verão em que completei 16 anos, meu melhor amigo decidiu cruzar o país pedindo carona para viver em uma barraca e tomar ácido. Achei que era uma boa ideia e fui com ele. Estava imerso no sonho hippie. Dois anos rodeado por esse universo me fizeram andar com um bando de caras extremamente criativos, viciados em anfetamina, que viviam na Factory de Andy Warhol (a segundo, no sexto andar do Decker Building, na Uinion Square). Eles estavam sempre tentando descobrir uma maneira de se tornarem artistas - a essa altura do campeonato, escrever era a última coisa que eu imaginaria fazer. 

Pouco daquela época ainda permanece até hoje, a não ser na memória. Na verdade, carreguei de lugar em lugar durante anos, em uma caizinha de metal, a trança de cordão que apanhei por impulso um dia. Então um dia a perdi em um incêndio em casa. Mas há algo além das muitas histórias que ficou comigo. Talvez a única coisa. É a jaqueta jeans que minha mãe me deu quando fiz 14 anos, identificando corretamente o início da minha fase adolescente rebelde. 

Apesar de atualmente usar a jaqueta menos do que quando era meu uniforme hippie, ou depois, quando era ideal para que eu me misturasse aos frequentadores do Mudd Club (casa noturna underground de Nova York, famosa nos anos 80), ela continua pendurada no meu guarda-roupa. Está guardada logo atrás das peças de grife. E, se me perguntarem, seria a primeira coisa que salvaria se houvesse outro incêndio em casa - que espero que nunca aconteça. Para falar a verdade, não ligaria se fosse enterrado com ela. 

Foi a Levi's que fez a jaqueta, claro, assim como tem feito boa parte do vestuário ocidental desde a Corrida do Ouro. Em uma foto que encontrei nos arquivos da empresa, há um cavaleiro em pé, ao lado de seu cavalo, com uma das mãos apoiada no quadril e outra repousando sobre a cela. Trata-se de Hugh E. Neal, creditado por ser um dos últimos corredores de ''Pony Express", o correio expresso norte-americano, iniciado em 1860 para levar correspondências com rapidez a territórios remotos dos Estados Unidos.

Na imagem, de 1949, Neal usava uma jaqueta Levi's. Você raramente vê um homem tão à vontade em suas roupas como ele naquela cena. E é exatamente este o motivo pelo qual amo a foto. As profundas pregas costuradas na frente da jaqueta de Neal foram criadas para que camadas mais grossas de tecido pudessem ser adicionadas durante o inverno rigotoso. Mas, por causa de alguns detalhes, como ser menos acinturada e ter mais bolsos, a jaqueta dele é um pouco diferente da que minha mãe me deu e das muitas que temos visto em fotos de streetstyle há pelo menos um ano. 

Embora eu desconfie de qualquer coisa relacionada a tendências, a modinhas das jaquetas jeans em todas as suas configurações (incluindo o modelo tipo smoking, como visto na passarela da Dior Homme) é algo com o que eu ficaria feliz de conviver por um bom tempo. Há algo especial sobre o fato da moda ter abraçado a peça, que já foi exclusivamente utilizada por trabalhadores: como ela cai bem sob um casaco de cashmere, como a modelagem valoriza o corpo do homem e consegue deixar qualquer um com a aparência de um Superman, nas palavras de Jonathan Cheun, diretor criativo da Levi's; e como evoca referências e estereótipo, desde a imagem de dinossauros do rock, como Keith Richards, até bandas atuais de música pop, como Odesza. 

"Jaquetas jeans são resistentes como pregos", afirma Andrew Chen, dono da marca Self Edge e estilista da marca de jeans especiais 3Sixteen. Em geral, elas são bem acabadas, feitas de um material honesto, útil e discreto. Além disso, são tão bem projetadas que duram anos. Bom, a minha pelo menos tem todas essas qualidades. Décadas de uso constante parecem apenas tê-la melhorado - o que, honestamente, é mais do que eu posso dizer sobre mim mesmo.