Espaço do papai na internet

Hannah Seligson - O Estado de S.Paulo

Além dos conselhos e do conforto, os fóruns somente para papais oferecem também um "espaço seguro" para desabafar.

Amplas evidências online têm mostrado que os pais querem seu espaço na internet, seja público ou privado, para falar do papel maior que estão desempenhando na família

Amplas evidências online têm mostrado que os pais querem seu espaço na internet, seja público ou privado, para falar do papel maior que estão desempenhando na família Foto: Ministerio TIC Colombia/ Creative Commons

Há alguns anos, quando Avi Moskowitz procurou orientação para comprar cadeirão, carrinho de bebê e cadeirinha para o automóvel para o seu primeiro filho, não recorreu à Consumer Reports nem deixou que sua esposa fizesse a pesquisa. Ele postou uma mensagem no Daddit, do site Reddit na rede social, criado em 2011 para atender à crescente demanda de papais que procuravam um cantinho exclusivo na internet.

"No Daddit você tem o lado mais nerd da internet, onde as pessoas fazem pesquisas técnicas sobre o motivo pelo qual um produto é melhor do que outro, mas eu acho que também mostra que os pais estão assumindo novos papéis e responsabilidades na criação dos filhos", disse Moskowitz, 27, que trabalha numa companhia de tecnologia de segurança em Nova Jersey. Agora, ele exerce também a função de moderador voluntário para o Daddit, que tem mais de 34 mil assinantes - quase o dobro do Mommit, o site do Reddit reservado às mamães.

Amplas evidências online têm mostrado que os pais querem seu espaço na internet, seja público ou privado, para falar do papel maior que estão desempenhando na família (e às vezes para brincar a respeito). Os "Daddy bloggers" já conquistaram um grande número de seguidores. Mas agora há também um número cada vez maior de comunidades de Internet, redes, fóruns e listas de emails que falam das alegrias, das experiências e até mesmo sobre aspectos da política pública do que representa ser pai.

"Ninguém ensina a ser pai", disse Bre Pettis, 42, um empreendedor de Nova York que recorreu a uma lista de emails de centenas de pais, da área da tecnologia e da mídia, chamada Nuevo Dads, quando viveu uma experiência angustiante com sua filha prematura na unidade de terapia intensiva neonatal.

"Muitas pessoas compartilhavam histórias sobre sua experiência na unidade de terapia intensiva e com isto eu me senti menos sozinho", comentou Pettis numa entrevista por telefone. Sua filha fará 4 anos em julho.

Além dos conselhos e do conforto, os fóruns somente para papais oferecem também um "espaço seguro" para desabafar. Josh Levs, um jornalista da CNN e pai de três filhos, postou: "Quando você tem o pesadelo de ter mais um filho, talvez seja a hora de fazer uma vasectomia", em seu blog fechado de pais no grupo do Facebook. Levs, 43, disse que conversa mais com os pais no grupo online do que com seus amigos. 

Segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos, em 2014, em cerca de 48% das famílias com pais casados, ambos trabalhavam. Agora, "há uma geração mais nova de pais que criam novas demandas por aquilo que querem online", disse Simon Isaacs, fundador, com Michael Rothman, ambos de 34 anos, do Fatherly, um mash-up de BuzzFeed e Vice for dads.

Seu conteúdo vai de Q-and-A com Ziauddin Yousafzai, intitulado "What's Like to Raise a Nobel Peace Prize Winner? Ask Malala Yousafzai's Dad", a um vídeo de dois minutos de terapia sobre o que fazer se sua parceira acha que você trabalha demais.

Mas Isaacs, pai de Kaia, dois meses, disse que a pergunta principal que os pais fazem é relativamente comum: "O que devo fazer com meu filho hoje?" Para responder, o Fatherly elaborou uma série chamada 940 Sábados - o número de sábados que vão do nascimento da criança até o seu 18 aniversário (conceito emprestado do dr. Harley Rotbart) - com conselhos sobre como construir castelos de areia e aprender a esquiar.

O grupo de papais migrou para o Twitter, onde, em 2014, havia 112 milhões de tuítes relacionados aos pais, em comparação a 212 milhões de mães. (Aliás, cerca de 2,5 milhões de usuários ativos do Twitter mencionam o pai em sua biografia no Twitter , disse a companhia.)

"Poder relacionar-se com outros pais é como encontrar um cobertor que nos agasalhe", disse Andrew Adashek, 38, diretor de parcerias na televisão do Twitter e pai de dois filhos. Ele usa o serviço como um "Dr. Spock moderno" (não surpreende que hoje exista um site do Dr. Spock, além de contas no Twitter e no Facebook). Ele procurou o conselho de outros pais sobre que instrumento deveria comprar para o filho de 4 anos, Dylan ("qualquer um que gente grande consiga suportar!", tuitou um pai), e que liga de basquete infantil ele deveria frequentar.

Atletas e estrelas de cinema famosas também usam a mídia social para compartilhar suas experiências sobre injustiças banais e mais graves da paternidade. Em novembro, LeBron James tuitou aos seus dois milhões de seguidores que passava as primeiras horas da manhã com a filha recém-nascida.

Em março, Ashton Kutcher, que se tornou pai no ano passado, ficou furioso com a situação que encontrou nos banheiros públicos. "Você NUNCA acha lugar para trocar fraldas nos banheiros públicos masculinos. O primeiro banheiro público para homens aonde eu for, que tenha este espaço, receberá uma menção na minha página do Facebook", ele postou para seus milhões de seguidores na rede social, levando à criação do popular hashtag #pottyparity. 

"Vejo pais que deixaram de ser apenas blogueiros para se tornarem ativistas", disse Doylin Richards, 40, autor de Daddy Doin' Work: Empowering Mothers to Evolve Fatherhood.

No Twitter, Richards, que mora em Los Angeles e tem 12.900 seguidores (e dois filhos), começou recentemente o #FatherhoodFriday para encorajar os pais a compartilharem fotos e experiências.

"É um conceito muito simples, mas a ideia é mostrar que, hoje, o papel do pai na família é reconhecido", afirmou.

E quando Levs, o autor do livro "All In: How Our Work-First Culture Fails Dads, Families and Businesses - and How We Can Fix It Together", apresentou queixa à Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego contra a Time Warner, a controladora do seu empregador, a CNN, a respeito de sua política sobre licença paternidade, falando do caso no Tumblr. (Como consequência, a Time Warner mudou sua política, oferecendo aos pais biológicos seis meses de licença remunerada em vez de dois.)

Mas nem todos saem por aí brigando pela igualdade.

"Cerca de 90% dos posts no Daddit são de pais que mostram fotos de seus lindos filhinhos", disse Moskowitz, que agora tem dois, "Nós tentamos proibir as fotos aqui, mas não funcionou. Acho que na realidade o que os pais querem é exibir seus filhos".

Tradução de Anna Capovilla