Entregas imediatas de peças de alta costura podem desvalorizar o produto

Vanessa Friedman/The New York Times - O Estado de S.Paulo

Farfetch anunciou um prazo de 90 minutos para produtos Gucci chegarem até você. Precisamos repensar a necessidade e o consumo

Inverno 2017 da Gucci.

Inverno 2017 da Gucci. Foto: Valerio Mezzanotti/The New York Times

O quão rápido é rápido o suficiente quando se trata de roupas e sentimento de gratificação? O quanto você realmente precisa daquele vestido, bolsa ou sandália plataforma? Comecei a me fazer essas perguntas desde que a Farfetch anunciou recentemente que passaria a entregar produtos da Gucci em um prazo de 90 minutos em dez das principais cidades do mundo. O cliente pode ‘fazer uma encomenda e, quase antes de desligar o telefone, alguém estará batendo na porta com uma linda bolsa’, afirmou o fundador José Neves com grande alarde quando liguei para conversar sobre o assunto.

Eu não ouço canções da dupla Simon & Garfunkel na cabeça com frequência (a não ser que esteja em um metrô parisiense com mais um artista de rua cantando “The Boxer”), mas agora não consigo tirar a primeira frase de ‘The 59th Street Bridge Song’ de minha mente: ‘Vá devagar, você está indo muito rápido’.

A Farfetch, o Net-a-Porter, o Matchesfashion e outros sites de produtos de varejo de alta costura já vêm oferecendo serviços para o mesmo dia em capitais do mundo e destinos de férias há algum tempo (e o Matchesfashion tem um serviço de entrega em 90 minutos em Londres), mas o negócio da Gucci leva essa ideia a outro patamar. E apesar de ser, por enquanto, mais uma oferta de nicho do que uma regra, é fácil imaginar o mesmo serviço se expandindo para outras marcas e em outras plataformas, à medida que a ‘Grande Corrida pelo Domínio do Varejo ( e Sobrevivência)’ se aqueça, on e offline.

‘Atendimento mais rápido’ é o mantra do momento, uma resposta de empresas ao que tem sido chamado de cultura da impaciência.

Mas não posso deixar de me perguntar se, pelo menos quando se trata de alta costura – as roupas que definem um momento em particular e frequentemente são adaptadas para moldar os estilos do cotidiano –, essa prática não estaria resolvendo um problema que não existe. E talvez criando um novo.

Entendo que vivemos em um mundo em que, como Neves explicou, ninguém espera por táxis, mantimentos ou mesas nos restaurantes, onde a informação é imediata e as fotos se tornam virais. Entendo que os ‘millennials’ – as pessoas da geração Y – sejam (teoricamente) o povo do ‘eu quero o que eu quero e quando eu quero’. A convicção geral diz que, se os varejistas perderem esse momento do querer, deixarão de vender.

Reconheço que desafiar essa possibilidade parece um clássico comportamento dos luditas. Mas, seguindo esse caminho, perdemos uma dose de perspectiva. “Por que devemos ser humilhados pela Amazon?”, perguntou Neves quando conversamos. Mas outra questão pode ser: por que assumimos que a Amazon controla esse campo em particular? Pode ter chegado a hora de dizer que esse jogo de dominação terminou.

Uma bolsa não é uma mamadeira para um bebê. Não é algo essencial. E não é necessariamente uma boa ideia criar uma situação em que essas coisas são equiparadas. Pode não ser sustentável, em todos os sentidos da palavra.

Em 22 de abril, foi comemorado o Dia da Terra e, na preparação do lembrete anual do que as mudanças climáticas têm causado, a indústria da moda foi ativa como sempre: a Kering se uniu à Plug and Play e à Fashion for Good, e o Conselho de Designers de Moda da América se juntou à Lexus, os dois grupos interessados em apoiar novos negócios com foco na inovação da responsabilidade na cadeia de fornecimento. Mas apesar de a indústria frequentemente equiparar a sustentabilidade a materiais e meios de fabricação e ter a tendência de atribuir os problemas dos resíduos à moda barata e descartável, deveria pensar sobre o consumo de alto nível também.

Ao tratar a moda como mercadoria – a que leva tempo para ser criada e entendida pelos consumidores –  as empresas arriscam mudar a maneira como as pessoas a pensam e a valorizam de um modo essencial. É verdade que ninguém está forçando os consumidores a optar pela entrega mais rápida (você pode ter seu casaco em dois dias, se preferir, ou mesmo em uma semana), mas o fato de essa opção existir faz com que a decisão pareça, de alguma maneira, menos problemática.

Além disso, só porque os consumidores dizem que querem alguma coisa – e segundo Neves, o tempo de entrega é o critério mais importante para compras online em qualquer pesquisa que a Farfetch já fez –, não significa que isso será o fator principal a determinar seu comportamento.

Vamos considerar o recente, e de certa forma frustrado, movimento para mudar o calendário dos desfiles de moda para o modelo ‘see now, buy now’. A razão que sustentava a mudança era quase a mesma por trás da entrega super-rápida: todo mundo tem um período de atenção truncado por causa do Instagram e, se você não entregar os produtos para os consumidores assim que eles o desejarem, vai perder essa janela de oportunidade.

No entanto, depois de apenas uma temporada, duas das quatro marcas principais que experimentaram a ideia – Tom Ford e Thakoon – desistiram (Ralph Lauren e Burberry continuam). A razão que deram foi que o mercado ainda não estava pronto, mas se elas tivessem visto uma demanda imensa e prolongada, o mercado possivelmente teria se acomodado à novidade.

Na verdade, quando se trata de moda de investimento, em oposição ao que nós antes chamávamos de ‘fast fashion’ (‘moda rápida’, que talvez agora tenha que ser renomeada para ‘moda de volume rápido de negócios’ ou algo assim) existe um valor na espera que não deveria ser descartado.

Igualando a moda de investimento com, digamos, mercadorias, a indústria mina a afirmação de que seus produtos são especiais, feitos com esforço e criatividade – todos os critérios que constituem e que justificam, de várias maneiras, seu preço. A indústria vai associá-los à ideia de disponibilidade (que é a definição do que normalmente é chamado de fast fashion, um setor em que às vezes é mais barato comprar uma camiseta nova do que lavar a que já se tem). Se investimento sugere valor ao longo do tempo, reduzir o tempo, diminui o valor. Ou seja: há uma desvantagem em se apressar para cumprir as necessidades de hoje; a ação sugere que elas podem não ser as mesmas de amanhã.

Isso já está acontecendo: o mercado de revenda de alta moda está florescendo, com lojas de consignação de peças de designers como a Vestiaire, a RealReal e a ThredUP, que está experimentando imenso crescimento. Segundo o relatório de 2017 da ThredUP (feito junto com a GlobalData), o mercado de revenda de moda vale 18 bilhões de dólares e espera-se que alcance 33 bilhões de dólares até 2021, e a mulher média americana não usa 60% das peças que tem no armário.

Até certo ponto é difícil não se perguntar se toda essa gratificação imediata não sugere várias questões estranhas. Claro, podemos consumir opiniões sem ter a mesma necessidade de consumir roupas. A maneira de se vestir é um sinal de comunicação pessoal e as peças deveriam ser aquisições de longo termo. Se não for assim, a pessoa corre o risco de sofrer um golpe em sua identidade.

O tempo pode ser um luxo, mas não devemos acreditar que gastá-lo com a expectativa é um desperdício.