Entre o luxo e o fast fashion

Helena Tarozzo - O Estado de S.Paulo

O vice-presidente comercial da C&A faz um balanço das parcerias da marca com estilistas famosos

Alfaiataria, recortes e grafismos marcam o estilo de Giuliana Romanno

Alfaiataria, recortes e grafismos marcam o estilo de Giuliana Romanno Foto: Divulgação

Nos últimos anos tem acontecido uma mudança nos polos da moda. A dicotomia alta-moda versus baixa-moda vem se tornando menos radical - um reflexo, sem dúvida, da globalização e democratização da moda via internet, principalmente por causa do acesso a blogs e redes sociais. No Brasil, grandes redes de varejo como C&A, Riachuelo e Lojas Marisa apostam em parecerias com grandes estilistas e celebridades para agregar atrativos aos seus produtos e aproximá-los do mercado de luxo. Tratam-se de estratégias que, desde 2011, tem ter dado certo. Tanto para as marcas, como para o consumidor.

Nesta semana, por exemplo, a C&A recebe nas araras de suas mais de 250 lojas a sua 34ª coleção cápsula, dessa vez, em parceria com a estilista Giuliana Romanno. É um modelo de negócios que bate recordes e vende 50% a mais do que as coleções normais da rede, "Nós unimos a criação do estilista à nossa expertise de produção e vendemos a um décimo do preço que o produto custaria se estivesse na loja do designer", explica o vice-presidente comercial da C&A, Paulo Correa.

Esta é a quarta coleção lançada pela rede só em 2014. Neste ano já fizeram parceria com a MOB, com o estilista minimal da Calvin Klein, Francisco Costa, e com a Lilly Sarti. Para o segundo semestre, a rede planeja mais outras quatro coleções grifadas, entre as quais deve constar mais um nome internacional. Em entrevista exclusiva ao Estado, Correa faz um balanço desse movimento.

As bijuterias receberam pegada rocker

As bijuterias receberam pegada rocker Foto: Divulgação

Por que esse modelo de pequenas coleções com estilistas deu tão certo? 

O povo brasileiro tem algumas características muito bacanas. Todos amam moda e está no nosso DNA essa preocupação em se vestir. Quando você traz uma moda mais de luxo, mas a um preço justo, isso chega a uma outra dimensão. Acho que talvez a gente só não consuma as super marcas do mundo o tempo todo por que falta de capacidade financeira. Nas coleções, nós unimos o design do estilista à nossa expertise de produção. Então, a hora que viabilizamos isso e dizemos que você pode ter uma calça ou um casaco Stella McCartney, só que a um décimo do preço, todo mundo quer. As Collections tem um fluxo de saída 50% maior que a nossa coleção normal. Isso acontece porque elas geram um frisson de desejo, principalmente por meio das redes sociais, e também porque economicamente é bom para o cliente.

Qual a importância dessas coleções para uma rede como a C&A?

É importante em algumas dimensões. A primeira é porque acho que cumprimos nossa missão de realmente democratizar a moda e o design para a população. A segunda é que a visibilidade desses estilistas passa a ser maior por conta das nossas coleções. Temos mais de 250 lojas em todo o Brasil e, da noite para o dia, as marcas dos estilistas passam a ter um acesso de mais de um milhão de pessoas - que entram nas nossas lojas todos os dias. As marcas ganham muita visibilidade à medida que trabalhamos juntos. E isso é um negócio ótimo também.

E todas foram bem sucedidas até agora?

Essa é uma discussão interessante, se você olha em uma dimensão de "venda menos custo", a gente sempre tem lucro. Isso faz parte do nosso trabalho, assim como o direcionamento para o produto ser um negócio interessante para a nossa cliente. Mas o melhor são os vários outros resultados agregados, que não conseguimos medir. Ao trabalhar com um estilista AAA, a nossa equipe de estilo está sempre interagindo com a deles. É um benefício não mensurado, que só o convívio entre essas equipes traz. E outra coisa é o reconhecimento de um fluxo de novos clientes. São pessoas que não frequentavam nossas lojas, mas com as Collections voltam também para comprar a coleção normal da C&A.

 Vocês fazem coleções com estilistas bem diferentes, alguns mais luxuosos e outros menos. Por que essa diferença?

A gente tem um mecanismo que chamamos de “conselho fashion”, com mais de 1500 clientes cadastradas, onde perguntamos a opinião delas para tudo: desde uma campanha nova, um banner ou um estilista que elas gostariam para uma nova Collection. Estamos o tempo inteiro dialogando com elas e ao mesmo tempo ligados ao que acontece no cenário da moda. E a partir desse apanhado, conversamos com vários estilistas e marcas diferentes para entender suas agendas e seus propósitos e, com isso, construímos o nosso calendário de coleções. Nossa ideia não é fazer um movimento de elite e só trazer designers de luxo, e sim democratizar também outras marcas que nossas clientes têm afinidade. Moda é aquilo que a população gosta, quer e consome, não só marcas de grife.

O público de vocês é muito variado pela localização e quantidade de lojas. A recepção das Collections é a mesma nas capitais e no interior dos estados?

Existem lugares que realmente pensamos se um estilista, que tem mais a cara de São Paulo, por exemplo, irá fazer sucesso. Mas então chegamos nessa cidade, que é às vezes é bem distante daqui, e tem fila e confusão no dia em que a coleção vai chegar. E nos perguntamos como isso acontece, já que muitos desses estilistas chegam nessas localidades só pelas lojas de multimarcas. É isso que estamos sempre pesquisando e entendendo. A internet e o acesso à informação são coisas realmente impressionantes. Por conta deles temos muito alcance. Outra coisa é que à medida em que fazemos trabalhos desse tipo, toda vez que escrevemos “Collection” no nome, as pessoas nem conhecem o trabalho do estilista, mas vão lá ver o que é.  Elas sabem que aquilo significa um design diferente e uma qualidade superior.

Essas coleções são feitas para o Brasil, mesmo as internacionais. Como elas são vistas pela C&A internacional?

A C&A é uma empresa internacional, mas tem operação local, então cada C&A no mundo tem o seu posicionamento, suas estratégias, tudo bem independente. E por isso temos esse caminho de Collections aqui. Mas, por exemplo, Stella McCartney a gente fez aqui, no México e depois na China. E com essas coleções nós viramos referência na C&A mundial. Com o nível da qualidade e os valores de design agregados, muitas vezes surpreendemos até os próprios estilistas.

Quais os próximos passos?

Esse segundo semestre vai ser bem intenso. Estamos fechando cerca de quatro contratos que ainda não podem ser revelados. Mas até dezembro será praticamente uma por mês. Entre elas, uma internacional. 

Paulo Correa, vice-presidente comercial da C&A

Paulo Correa, vice-presidente comercial da C&A Foto: Divulgação