"Em tempos assépticos, cabe falar de coisas antes consideradas cafonas e previsíveis"

Giovana Romani - O Estado de S.Paulo

Famoso por suas criações artesanais que evocam as regionalidades do Brasil, o estilista mineiro Ronaldo Fraga fala sobre o fim da moda como é hoje e a escolha do amor como tema de sua coleção atual

Em sua última coleção, o estilista mineiro Ronaldo Fraga optou for falar de amor

Em sua última coleção, o estilista mineiro Ronaldo Fraga optou for falar de amor Foto: Divulgação

Moda é arte? Nem sempre. Mas, quando se trata de Ronaldo Fraga, sim. Famoso por suas criações artesanais cheias de brasilidade, o estilista mineiro sabe contar histórias por meio de roupas. Em sua apresentação na última edição da São Paulo Fashion Week, em outubro, ele escolheu falar de um tema tão caro quanto simples, o amor. E emocionou em um momento da moda - e do mundo - em que é difícil transgredir e subverter. Afinal, tudo pode, nada choca. "Em tempos assépticos, cabe falar de coisas antes consideradas cafonas e previsíveis", diz. 

As modelos desfilaram ao som de Terezinha, de Chico Buarque, de fados portugueses e de outras canções tocantes. Um casal se despiu na passarela, que estava enfeitada com camas. Saias finas de tule vestiam homens e mulheres em um clima de romance. Como sempre no trabalho de Fraga, os tecidos e bordados vieram de pequenas comunidades especialistas no trabalho artesanal. Motivo pelo qual a marca se tornou referência em moda brasileira no mundo - hoje, exporta para Japão, Holanda, Espanha, Chile e México. Em 2014, ele foi selecionado pelo Design Museum de Londres como um dos sete estilistas mais inovadores do mundo, ao lado de nomes como Miuccia Prada e Raf Simons. A seguir, o designer fala sobre o preconceito sofrido pela moda regional - "isso traz o peso da colonização" - , e a necessidade urgente e constante da moda reinventar as formas de se comunicar com o consumidor. 

Como você enxerga o atual momento da moda no mundo?

Ela está desesperada querendo se reinventar. Tudo já existe. Precisamos criar um novo jeito de contar a velha história. E isso só acontece por meio do intangível. Por isso, cabe nos dias de hoje, nesses tempos assépticos, falar de coisas que antes consideradas cafonas e previsíveis pelas pessoas.

Por isso que você resolveu falar de amor na sua coleção atual, desfilada no último SPFW?

Chamei a coleção de "E por falar em amor" exatamente porque ela abrange várias questões atuais. Nunca foi tão urgente discutir outras formas de amor, que não as convencionais, um assunto que estava resolvido nos anos 1980 e, agora, parece estar sofrendo um retrocesso. 

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O desfile foi emocionante, algo raro na moda hoje.

A roupa ali era o que menos importava. Roupa você vê na loja. Teve gente que me disse que nem conseguiu ver a coleção porque só prestou atenção na música. Outros focaram no vídeo que passava na tela no fundo da passarela. A imagem do casal trocando de roupa no desfile viralizou exatamente porque quebra aquele ritmo que todos esperam da moda, 'do pelo amor de Deus me compre'. 

Você já havia dito há alguns anos que a moda acabou e, recentemente, a pesquisadora Li Edelkoort declarou o mesmo. Continua com a opinião?

Essa é uma forma de dizer que a moda como é hoje precisa ser reinventada. Ela saiu do holofote do desejo, que muda de tempos em tempos. Nos anos 1930 estava na literatura. Nos 1940 e 1950, no cinema. Nos 1960, na música e no teatro, nos 1970, só na música, e a moda entrou em cena nos anos 1980. Teve um bom tempo de reinado. Agora o foco está na gastronomia. Por isso, o desfile tem a função de criar desejos. Precisa sinalizar a vontade do que a gente quer e não sabe. Como disse Diana Vreeland, precisamos mostrar o que as pessoas ainda vão desejar. O que elas desejam o fast fashion já entrega. 

Ao priorizar o trabalho autoral e artesanal você consegue manter a marca estável em termos comerciais?

Escolhi manter uma estrutura pequena de ateliê exatamente porque isso me permite fazer outras coisas, como viajar o País em busca de cooperativas, ir para a fábrica pessoalmente, realizar pesquisas, cuidar da qualidade e da identidade do produto. Isso traz para a marca clientes de ambos os sexos, diferentes faixas etárias e variado poder economico. Esse também é o novo luxo, investir no que é genuíno e não necessariamente caro.

Você é referência em moda com identidade brasileira e já sofreu preconceito por focar no regional. Hoje isso mudou?

Na década de 1990, quem gostava da minha moda e quem não gostava era pelo mesmo motivo: pelo fato de ser regional. Isso traz o peso da colonizacão, o preconceito com o que é nosso, que está mudando. Tenho paixão pelo Brasil e minha carreira é resultado de uma busca instintiva, não foi nada planejada. Procurei fazer aquilo em que eu acredito. Em tempos conformistas, é um risco. Mas o risco faz parte da forma como penso meu universo criativo.