Em Londres, a moda masculina ganha fôlego

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Grandes marcas e estilistas emergentes apresentaram suas coleções de outono inverno 2016 na capital inglesa e levantaram o debate sobre exposição e discrição nos tempos atuais

Craig Green: reflexão sobre proteção e guerra 

Craig Green: reflexão sobre proteção e guerra  Foto: Divulgação

Em seu quarto ano, a semana de moda masculina de Londres prova ser um evento relevante. Com 65 desfiles realizados em quatro dias, grifes internacionais de peso, como Moschino e Burberry, se misturam a jovens estilistas criativos para apresentar as coleções que estarão nas lojas de mais de quarenta países no próximo outono.

Diferentemente das semanas de moda de Paris e Milão, em que as marcas trabalham de maneira independente para apresentar suas coleções, em Londres a visão de negócio é conjunta e bem definida. Em 2014, o segmento faturou 440 milhões de dólares e cresceu 4,5% em relação ao ano anterior - mais do que o crescimento de 3,7% do mercado feminino, segundo dados da consultoria Euromonitor. 

Por trás dessa máquina fashion está o British Fashion Council, instituição sem fins lucrativos, que promove a moda inglesa pelo mundo com eventos e ações dentro e fora do Reino Unido, com o intuito de fazer de Londres a principal capital criativa do mundo. 

J.W. Anderson

J.W. Anderson Foto: Divulgação

A marca Topman abriu a temporada com um desfile inspirado nos anos 70, com alfaiataria em veludo molhado e modelagens largas nas calças dos ternos, uma tendência forte nas passarelas, porém ainda tímida nas ruas. Mas o destaque do primeiro foi para a coleção de Craig Green. Seu desfile convidou a plateia para uma reflexão sobre proteção. Casacos com máscaras em tons militares foram exibidos em contraste com peças leves e fluidas, provocando uma meditação sobre o nosso dia-a-dia, em um momento em que as capitais europeias estão em estado de alerta.

No sábado, 9, a nova-iorquina Coach apresentou uma coleção atual e correta, com peças totalmente usáveis, com boas jaquetas de couro e casacos invernais. Em contrapartida, a inglesa Sibling apresentou um show divertido e atlético, com influência do universo do boxe, em looks de tons primários, com clara influência da arte pop dos anos 80. Uma explosão de cores que agradou a plateia que busca em Londres um espelho jovem das subculturas urbanas. 

Entre os novos estilistas da cidade, um nome sem dúvida é apontado como a maior aposta para o futuro: J.W.Anderson. Com controversos anúncios do seu desfile no aplicativo Grindr (especializado em encontros sexuais entre homens) - em que a coleção foi apresentada em live-stream -, o delicado desfile do designer demonstrou um novo olhar para a moda masculina, que vai muito além da androginia em um tempo em que sexualidade não é mais uma questão primordial na hora de se vestir. Hoje, Anderson ocupa o espaço que já pertenceu à Alexander McQueen no coração dos ingleses como o representante da vanguarda local.

O show da Burberry, por sua vez, apontou o poder das global brands em seu contínuo esforço de encantar audiências e disseminar tendências. Excesso de celebridades, vídeos no Snapchats e fotos no Instagram. Uma superprodução, que, sem dúvida, é o maior desfile de moda em Londres na atualidade. 

Já o estilista Tom Ford, que estava escalado para fazer o primeiro desfile masculino da sua marca homônima, cancelou o evento com pouca antecedência, trocando um evento grandioso por reuniões particulares para apresentar a coleção a compradores e jornalistas. 

Definitivamente o papel dos desfiles está mudando e evoluindo a cada temporada. Com divulgação instantânea e vendas online, o show agora é para todos. A contradição entre a superexposição de J.W. Anderson no Grindr e o momento reservado de Tom Ford é um retrato exato do comportamento da sociedade em 2016. Afinal, o verdadeiro valor das coisas está em compartilhar a vida nas redes sociais ou manter o sigilo e a discrição no nosso trabalho e nas relações pessoais?