Em Florença, tudo se resume a calças amplas

Guy Trebay/The New York Times - O Estado de S.Paulo

Peça foi destaque da feira Pitti Uomo, uma das mais importantes do segmento de moda masculina

Peças Brunello Cucinelli na Pitti Uomo.

Peças Brunello Cucinelli na Pitti Uomo. Foto: Clara Vannucci/The New York Times

No verão de 1934, a famosa estilista italiana Elsa Schiaparelli se colocou totalmente contra o uso de calças pelas mulheres. “Naturalmente não queremos calças”, disse ela à revista ‘Time’ em uma entrevista publicada em 13 de agosto. “Os homens já são horríveis o bastante vestindo calças para as mulheres também começarem a usá-las”.

Ela estava certa. Calças são feias. Qualquer pessoa que tenha visitado lugares onde uma faixa enrolada na parte de baixo da anatomia masculina é o traje preferido pode dizer isso. Kilts, dhotis, lungi, sarongues, túnicas e mesmo togas têm vantagens óbvias em relação a essa vestimenta de duas pernas que abandona a estética em favor da funcionalidade em todos os aspectos.

Mas apesar do grande empenho de designers como Virgil Abloh e Dolce & Gabbana para os homens usarem saias, estamos fixados nas calças, traje que, se prestarmos mais atenção, foi o foco de interesse entre os quase 40.000 participantes da feira de moda masculina Pitti Uomo, que se realiza duas vezes ao ano em Florença, na Itália. 

Jantar de Stefano Ricci no Palazzo Pitti, durante a Pitti Uomo, em Florença.

Jantar de Stefano Ricci no Palazzo Pitti, durante a Pitti Uomo, em Florença. Foto: Clara Vannucci/The New York Times

Os jeans skinny sumiram. Todos já sabemos. As cáquis estão de volta. O estilo boyfriend, calças com cavalo rebaixado, adotado no início por pessoas como Nick Wooster - ícone de estilo da moda masculina, figura conhecida no Instagram e patrocinador de figuras com grande influência na mídia social - se tornou tão normal que mesmo estilistas como Brunello Cucinelli estão convencendo consumidores endinheirados a procurar se sentir mais à vontade em calças bastante amplas e com cós abaixo da cintura.

Claramente as pessoas mais velhas não são o público da Pitti Uomo, onde a oferta para os millenials é muito maior do que para as que têm idade avançada. Jovens elegantes com muito dinheiro hoje encontrarão mais peças que se adaptam a eles na Cucinelli do que em temporadas anteriores. Uma razão clara disso é que, embora as proporções das jaquetas e malhas tenham mudado pouco, as novas calças em veludo cotelê verde da marca vêm com barra dobrada, ou com punhos nas barras, cintura baixa e quase todas com o cavalo rebaixado.

Looks de Tim Coppens inverno 2017.

Looks de Tim Coppens inverno 2017. Foto: Clara Vannucci/The New York Times

“As calças têm que mudar”, disse Cucinelli, em seu estande, decorado como o interior de um iate, instalado em um local privilegiado no pavilhão principal. “Você não pode usar as calças do ano passado”. Há pouco tempo tudo de interessante na roupa masculina estava acima da cintura. Hoje é a parte inferior do corpo que recebe atenção.

“Hoje você olha um terno e vê em um segundo que é um modelo antigo”, disse Giovanni Bianchi, diretor de estilo da LBM, manufatura familiar de Mantova desde 1911 que confecciona blazers sem forro, com corte magnífico. Bianchi se refere à precisão do corte exigida para obter o formato e o tamanho da calça corretos. “Há três pessoas neste ramo que conhecem bem isto”, falando dos pontos importantes na confecção de calças. “E centenas que não se importam”.

Quem ainda fala a linguagem perdida das calças é Edoardo Fassino, diretor criativo da PT Pantaloni de Torino, uma das 1.220 expositoras. Virando ao avesso uma calça de lã inglesa, ele a dissecou com a precisão do anatomista em ‘The Gross Clinic’ de Thomas Eakins, de 1875.

Se Edoardo Fassino é o exemplo do especialista que trabalha em um mercado de nicho, Tommy Hilfiger é aquele que tem a visão do conjunto. Ao escolher Florença para expor, Hilfiger mais uma vez apostou na retomada da imagem da sua marca, com uma coleção que, numa entrevista, qualificou como ‘edição dos arquivos’ - roupas esportivas combinadas com trajes preppy.

Tommy Hilfiger em festa Palazzo Corsini.

Tommy Hilfiger em festa Palazzo Corsini. Foto: Clara Vannucci/The New York Times

Independente das variadas recombinações que ele mostrou em uma coleção inteligente e estilisticamente rígida, disse Hilfiger sobre o trabalho de Demna Gvasalia na Vetements - as silhuetas e proporções no geral sugeriram descontração.

As calças estavam com a cintura mais alta e pernas mais largas do que eram desde os precoces consumidores que formam sua base de clientes e adotam o estilo preppy, que depois difundiram usando-o em tamanhos extragrandes. Tóquio está liderando a tendência e provavelmente é aos japoneses que devemos agradecer pela referência oriental da feira.

Como estilista oficialmente convidado, o belga Tim Coppens realizou seu desfile numa pista de corrida no perímetro de Florença e a passarela estava repleta de modelos andróginos usando conjuntos com peças sobrepostas.

Se não foi totalmente original, o desfile foi em grande estilo. Talvez a melhor combinação foi a jaqueta estilo uniforme de matelassê verde-oliva sobre uma camiseta e um gorro azul royal, com uma túnica branca que parecia um vestido.

Claro que havia calças. Mas tão desnecessárias para o efeito dos conjuntos ou do desfile no geral - em que a imprecisão em termos de gênero era o fio condutor que fez lembrar este repórter que Coppens começava sua transição para a moda feminina.

Existe a tentação de criticar o fato de o estilista arrastar as pessoas para a periferia de Florença e prendê-las por trás de portões sob um frio intenso antes de poderem entrar num espaço com toda a singularidade de uma sala de aula de uma escola secundária. Tradução de Terezinha Martino