Educação sexual: de quem é a responsabilidade, afinal?

Jonathan Zimmerman - O Estado de S.Paulo

Escolas não conseguem impedir as crianças de divulgar conteúdos eróticos e sensuais através de celulares. Mas a tecnologia sim

Os pais, não as escolas, deveriam ser nossos principais educadores nas questões sexuais

Os pais, não as escolas, deveriam ser nossos principais educadores nas questões sexuais Foto: Kennysamy/ Creativer Commons

"A juventude vem sendo submetida pela nossa civilização a estímulos sexuais, e a excitação que esses estímulos suscitam emana de cada poro". Foi o que afirmou o professor Clark Hetherington em 1914, condenando a proliferação de filmes impróprios e revistas com histórias escabrosas. Para os adolescentes não sucumbirem a esses "vícios", escreveu o professor, as escolas devem ensinar o "autocontrole" e "altos padrões morais".

Isto soa familiar? No século passado nos preocupamos de que novas formas de mídia estariam fomentando a imoralidade sexual nos jovens. E apelamos às nossas escolas para conter a onda maligna. Veja as recentes revelações sobre "divulgação de vídeos eróticos pelos celulares" na Cañon City High School no Colorado, onde cem alunos trocaram entre si fotos deles próprios nus. Como a história se tornou viral, os críticos inevitavelmente perguntaram porque a escola não se empenhara mais para ensinar seus alunos sobre o problema da divulgação de fotos eróticas pelo celular.

As escolas são um alvo fácil, mas errado. A ambivalência da sociedade no tocante à sexualidade dos jovens limita o que as escolas podem fazer; tampouco temos fortes evidências de que elas conseguiriam mudar o comportamento dos adolescentes, em qualquer hipótese. E não é tão seguro que a troca de mensagens sobre sexo por meio de celular entre os jovens é o flagelo perigoso que muitos adultos imaginam.

Sejamos claros: existem sérios riscos associados a esse problema, incluindo o bullying e a exposição a predadores sexuais adultos. E sabemos que as crianças que costumam trocar conteúdos eróticos e sensuais estão mais propensas a ter uma relação sexual do que aquelas que não.

Mas além disso, ninguém jamais mostrou que essas trocas de mensagens dessa índole incitam as crianças a adotar um comportamento mais perigoso. Num estudo realizado em 2012 em sete escolas secundárias no Texas, 28% dos alunos do segundo ano da escola secundária e da escola primária admitiram que tinham enviado foto deles nus por mensagem de texto ou e-mail. Mas esses adolescentes não estavam de modo nenhum mais propensos do que seus colegas a se livrarem a outros comportamentos sexuais perigosos como uma relação sexual sem proteção, uso de álcool ou droga antes de fazer sexo, ou manter relações com múltiplos parceiros.

E tampouco sofreram traumas ou bullying, como estudos não técnicos sugerem. Muitos adolescentes encaram essas mensagens e a divulgação de imagens eróticas como parte de uma "cantada" - como eram os beijos no carro no caso de gerações anteriores. Na época, naturalmente, o que ocorria no banco de trás ali ficava e não se espalhava pela internet.

O que não mudou é a nossa dependência da escola, que novamente é chamada a resolver uma perceptível crise sexual. No Texas o programa "Antes de enviar mensagem" adverte os estudantes de que divulgar imagens eróticas ou sensuais pelo celular pode implicar "constrangimento, humilhação, medo e traição". 

No programa de estudos adotado por escolas públicas do condado de Miami-Dade é afirmado categoricamente que "Mensagens de texto eróticas seguras não existem". Mas nossos filhos já sabem que isso pode ser constrangedor e humilhante em determinadas situações. E sabem que pode ser totalmente inócuo em outros casos, quando um casal apaixonado troca fotos íntimas pelo celular e as apaga imediatamente depois.

O que eles precisam é de alguém que os ajude a distinguir uma coisa da outra. E esse papel provavelmente nossas escolas não podem assumir. Um programa de estudos que avaliar honestamente os riscos envolvidos nessas trocas de mensagens por celular será criticado por pais e políticos que acham que os adolescentes simplesmente devem se abster de tais atividades. Pesquisas têm mostrado repetidamente que muitos pais defendem a educação sexual em nossas escolas, mas divergem drasticamente quanto ao conteúdo da matéria. De modo que o caminho mais seguro para as autoridades escolares é se concentrarem nas chamadas aulas de anatomia e evitar qualquer assunto controvertido. E mesmo uma educação sexual sincera nas escolas pode não fazer muita diferença nas vidas dos nossos adolescentes que sempre extraíram conhecimento sexual da mídia de massa, mais do que do que de seus professores.

Seguramente foi o caso nos anos 20, início da Hollywood moderna, quando os educadores se preocupavam de que os estudantes tinham lições de sexo com os atores de cinema. Com o aumento da pornografia e a sexualidade explícita das músicas de rock nos anos 60 e 70, as escolas novamente lutaram em vão para impor ordem num mundo que parecia ter perdido totalmente o controle. "Um filme de 12 minutos não se compara a dois anos de filmes para maiores de 17 anos todo fim de semana", disse o diretor da Associação Nacional das Escolas Secundárias. E admitiu em 1981, acrescentando que "as escolas são um pobre David sem ter nem mesmo um estilingue contra a mídia Golias".

Então como resolver o problema da divulgação de conteúdo sexual pelo celular? E se tentamos encontrar as crianças onde elas estão? As mais promissoras iniciativas no campo da educação sexual hoje são os serviços de mensagem de texto que permitem aos adolescentes enviarem perguntas anonimamente e receber respostas com muita informação. Na Carolina do Norte e no Texas esses serviços são operados por departamentos de saúde pública; outros são gerenciados por organizações como Planned Parenthood. E vêm rapidamente atraindo os adolescentes, especialmente aqueles que os pesquisadores acham que correm risco maior. Em Washington, estudo realizado por um programa de mensagem de texto que conecta as crianças a educadores em saúde formados concluiu que alunos de camadas socioeconômicas mais pobres estavam mais propensos a usar o serviço do que outros.

De modo que a melhor resposta às mensagens de texto de índole sexual provavelmente repousa em uma outra...mensagem de texto. Os pais, não as escolas, deveriam ser nossos principais educadores nas questões sexuais. Mas muitos deles cresceram em época bem anterior ao uso de celular, de maneira que deveriam ser sensatos e apresentar seus filhos a uma fonte mais atualizada. 

Em vez de depender do débil estilingue de David, da escola pública, vamos buscar o clube mais poderoso da mídia Golias: chama-se smartphone e ele nos trouxe a esta crise. Mas é também a melhor esperança para nos conduzir para um lugar melhor.

Jonathan Zimmerman é professor de História e Educação na Universidade de Nova York e professor de "Too Hot to Handle: A Global History of Sex Education"

Tradução de Terezinha Martino