Editores de moda falam sobre o legado fashion de David Bowie

Marília Marasciulo, Giovana Romani e Anna Rombino - O Estado de S.Paulo

Daniela Falcão, diretora de redação da Vogue, Adriana Bechara, diretora de moda da Glamour, e Regina Guerreiro relembram as fases de androginia, glam rock e alfaiataria oversized do cantor, conhecido como o camaleão do rock

Camaleão, de cabelos curtos e camisa de babados, em apresentação no programa alemão "Wetten, daß...?", em 1997.

Camaleão, de cabelos curtos e camisa de babados, em apresentação no programa alemão "Wetten, daß...?", em 1997. Foto: Reprodução

Impossível classificar o estilo de David Bowie. O artista britânico, que morreu no domingo, 10, após de 18 meses de batalha contra um câncer, quebrou barreiras com seu visual sem gênero, ora com ternos oversized, ora glam rock. De um jovem sério e com terno e gravata ao personagem Ziggy Stardust, com roupas extravagantes e maquiagem colorida, ele influenciou a moda por décadas e fez da liberdade de se vestir sua bandeira. A cada novo álbum, surgia com um novo estilo tão vanguardista quanto o anterior. 

Além dos hits que influenciaram gerações, o cantor britânico deixou seu legado na arte e na moda com figurinos e maquiagens questionadores, que abordavam a questão do gênero de maneira direta e provocadora. Veja as opiniões dos principais editores de moda do País sobre o legado de Bowie para o universo fashion.

Daniela Falcão, diretora de redação da revista Vogue e uma das mais influentes vozes da moda brasileira atual: “A influência de Bowie na moda tem um viés mais concreto e um mais etéreo. Concretamente, ele foi o grande pai da androginia, propondo quase meio século antes de todo mundo o gender neutral que hoje é moeda corrente nas passarelas – basta ver os recentes desfiles da London Collections Men, carregados de inspirações “femininas” que resultam num guarda-roupa que pode ser usado por homens e mulheres. Dizer que ele foi visionário é pouco, parece mesmo que foi um homem que “caiu na Terra”,  título do filme protagonizado por Bowie em 1976. Ele sempre esteve à frente de seu tempo, e por isso as revistas de moda continuam carregadas de referências tanto de sua estética andrógina (sempre que se fala em alfaiataria oversized há um dedo de Bowie na foto) quanto da estética glam rock, sua segunda contribuição concreta à moda. Brilhos, lamês, make exagerado – quantas vezes Ziggy Stardust não apareceu em capas de revista e em editoriais? A contribuição mais etérea é a ideia de que podemos – e devemos – estar sempre nos reinventando, que ninguém é obrigado a ter apenas um estilo, que ser camaleão é o melhor caminho para continuar relevante, atual. Assisti no sábado anterior à sua morte ao clipe de Lazarus, uma de suas últimas composições, parte do disco lançado no dia de seu 69º aniversário, no último dia 8. Achei incômoda e fascinante ao mesmo tempo, carregada de referências visuais que me fizeram voltar ao clipe de novo de novo e de novo. Pensei como era incrível que um sujeito de 69 anos continuasse incomodando e inspirando em igual dose. Pra mim isso é Bowie!”

Regina Guerreiro, editora de moda pioneira no Brasil, fez história nas revistas Vogue e Elle atualmente é consultora de moda: “Transgressor, atrevido, visionário, tudo isso ele sempre foi. E tanto sacudiu o rock como sacudiu a moda, com seus looks revolucionários, com seus makes extravagantes, com seus brilhos ilimitados.  Os caretas da época, é obvio, achavam Bowie super louco. Mas...será que não são os loucos, os inconformistas, exatamente aqueles que mudam o cenário do mundo? Feminino e masculino, masculino e feminino, Bowie nunca teve medo de ser ou parecer tudo ao mesmo tempo.  Viveu plenamente, viveu gloriosamente. Deve até ter morrido cantando, porque no fundo do menino/homem rebelde,  escondia-se "seu eu" perdidamente romântico. Estava com Iman em Veneza, quando então ela se apaixonou por um anel. Quando Bowie voltou mais tarde para comprar  (ele queria fazer uma surpresa), tarde demais, o anel tinha sido vendido. Mas ele foi à luta. Descobriu quem tinha sido o comprador e conseguiu recuperar - provavelmente com milhares de dólares - o tal anel. E deu para ela, na noite em que aconteceu o pedido de casamento. Onde? Quando? Em Paris, em pleno Rio Sena, quando Bowie (mais romântico, impossível...) tinha alugado um bateau-mouche inteirinho só para eles.”

Flávia Lafer, stylist, realiza editoriais para as principais revistas de moda do País e assina campanhas com tops como Gisele Bündchen e Isabeli Fontana: "Não é fácil colocar em poucas palavras a gigantesca influência do Bowie na moda. Essa influência foi na verdade uma rua de mão dupla. Rua, não. Uma highway de mão dupla. Ele talvez tenha sido o primeiro dos megastars da história do pop a dar à moda a importância que depois ela veio a ter através de estrelas como Madonna e Rihanna. Ao contrário de ídolos anteriores, a exemplo de Elvis Presley, Bowie não tinha um look só. Ele era camaleônico e, paradoxalmente, essa diversidade o definia. Neste sentido, mutante, antenado, ele encarnou a própria ideia de moda. E entre as várias estéticas que criou talvez a mais memorável tenha sido a do glam-rock. Mas a sua maior importância foi a de ter coragem para questionar e querer mudar os costumes do século 20. A liberdade de Bowie abriu várias portas na moda. A sua  linguagem definitivamente não era só a da música. Ele influenciou estilistas, stylists, cabeleireiros, maquiadores, fotógrafos..."

Gloria Kalil, editora do site Chic e uma das maiores referências no País em consultoria de moda e etiqueta. "A influência do David Bowie foi enorme. Nem sei dizer quantas coleções foram feitas ao longo desses últimos 50 anos inspiradas nele. Essa silhueta masculina, com o terno justo e a grava fina da Dior Homme, que revolucionou a moda masculina, é interamente Bowie. Todos os revivals dos anos 1970 de alguma forma passam por ele também. Especialmente essa conversa atualíssima de transgressão de gênero é feita à imagem dele. É inacreditável o quanto ele era ousado e pioneiro em seu tempo. Ninguém ia tão fundo quanto Bowie. Até usavam peças unissex, mas essa coisa do andrógino, em que, de olhar, você não sabe se é um rapaz um uma moça, era algo dele e muito transgressivo. Bowie sempre foi um ser de outro planeta, inclusive na moda".

Renata Piza, jornalista de moda, foi redatora chefe da revista Elle e tem um dos melhores textos de moda atual: "Bowie é a própria definição de camaleão. Ele se transmutava e sabia usar a moda e o make a seu favor. Foi pioneiro na questão genderless, tendo sempre uma estética e postura andrógina. Ziggy Stardust, a persona criada por ele, inspirou editoriais de moda mundo afora. De Tilda Swinton à Jessica Lange, em "American Horror Story", o visual dele foi reproduzido à exaustão. Joalherias fizeram joias com letras de suas músicas e ele foi também um dos primeiros a difundir os estilistas japoneses."

Adriana Bechara, diretora de moda da revista Glamour: “A parceria de David Bowie com o estilista japonês Kansai Yamamoto foi muito marcante, o macacão que criava uma ilusão de ótica é referência até hoje. No final de 2014, por exemplo, fizemos um editorial na Glamour sobre macacões para usar à noite, e não teve como não se inspirar nele. Além disso, ele foi precursor da androginia, mas sem ser caricato. Usava roupas extravagantes, com brilho, às vezes até um pouco afeminadas, mas permanecia um homem interessante. Com seu alter ego Ziggy Stardust, ele lançou a tendência glam rock, que permanece em alta. David Bowie até hoje influencia a moda.”