Economia circular e transparência movem projetos de moda sustentável

Sergio Amaral * - Especial para O Estado de S. Paulo

‘Precisamos abraçar novas abordagens para essa indústria’, diz Leslie Johnston, diretora da C&A Foundation

Energia limpa, economia de água, ciclos de vida infinitos e conexão humana: alguns dos pilares do Fashion for Good, um dos projetos de moda sustentável da C&A Foundation

Energia limpa, economia de água, ciclos de vida infinitos e conexão humana: alguns dos pilares do Fashion for Good, um dos projetos de moda sustentável da C&A Foundation Foto: Fred Ernst/Dilvulação Instituto C&A

Expert em moda sustentável, a diretora executiva da C&A Foundation, uma fundação criada pela C&A (e batizada no Brasil de Instituto C&A) cuja missão é transformar a indústria da moda, Leslie Johnston tem um sonho. Ou melhor: alguns - grandes.

Entre eles estão o de ter um sistema em que a transparência da cadeia produtiva torne-se norma, assim como condições de trabalho mais justas e dignas para os envolvidos e um esquema circular de produção, em que a preocupação com o reaproveitamento ou descarte de um produto seja levada em consideração desde o início de sua criação e desenvolvimento.

Os três assuntos - transparência, condições de trabalho e economia circular - são tópicos recorrentes entre interessados e estudiosos do assunto moda sustentável, um dos tópicos mais quentes do momento nessa indústria.

Em Copenhagen, para um dos mais importantes congressos dedicados ao assunto, o Copenhagen Fashion Summit, Leslie falou disso e do seu trabalho junto à C&A Foundation de tentar tornar a moda uma força benéfica rumo a meios de produção e consumo mais sustentáveis e dignos. “Precisamos desafiar essa maneira velha de fazer as coisas e abraçar novas abordagens para essa indústria”, afirma.

Leslie Johnston, a diretora da C&A Foundation, instituição financiada pela C&A cuja missão é transformar a indústria da moda

Leslie Johnston, a diretora da C&A Foundation, instituição financiada pela C&A cuja missão é transformar a indústria da moda Foto: Divulgação Instituto C&A

São vários os assuntos e termos que são tendência quando o assunto é sustentabilidade - transparência, condições de trabalho, economia circular... Qual desses assuntos te empolga mais?

O conceito todo de economia circular é realmente empolgante se o tratarmos direito. Os desafios quando você pensa em ser circular vão além da reciclagem, que é uma parte dessa circularidade. Esse pensamento deve vir desde o começo do desenvolvimento de um produto, e essa parece ser a maior carência da indústria no momento: ainda não se sabe ao certo como começar. Existe uma grande necessidade de inovação, que é um dos motivos pelos quais começamos o Fashion for Good no ano passado.

O que exatamente é o Fashion for Good?

O foco dele é nutrir essas diferentes iniciativas que estavam pipocando isoladamente, conectá-las aos mercados e entre si num modo que chamamos de pré-competitivo. Tradicionalmente a inovação é um fator de vantagem competitiva. Quando você reúne várias marcas na mesma mesa para apresentar um tipo de inovação [que pode benefiá-las igualmente], isso é uma coisa bastante nova. Temos entre os apoiadores do Fashion for Good o grupo de luxo Kering [dono de Gucci e Saint Laurent, entre outras grifes], Adidas, C&A, Zalando, Target e Galleries Lafayette. É uma ótima mistura.

Foi difícil convencê-las a aderir ao projeto, já que foi a C&A Foundation que o criou?

Inicialmente, sim, e muitas marcas não conseguiam ir além do “isso é um negócio da C&A”. Quando lançamos o projeto em março do ano passado, já tínhamos assegurado nosso primeiro parceiro, a Kering, que é uma gigante. Uma vez que ela apoiou o Fashion for Good, outras marcas começaram a olhar com interesse para ele, o que nos ajudou bastante.

Outro tema bastante em voga é “transparência”.

Esse é outro assunto fundamental para a C&A Foundation. Se você não trabalha com transparência, você não assume sua responsabilidade e não pode cobrar as mudanças de comportamento que buscamos. Isso se aplica às marcas, aos fornecedores e aos trabalhadores. Trabalhadores precisam de informação para que eles possam defender o que é melhor para eles. Isso também se aplica aos consumidores e aos governos.

Como essa transparência pode beneficiar o mercado e o meio-ambiente?

Transparência é sobre ter informações que permitam a todos da cadeia produtiva ser responsáveis por suas ações, empoderando trabalhadores, por exemplo, ou para que governos façam seu trabalho se certificando de que essas fábricas trabalhem de acordo com padrões de conformidade. Estou empolgada com o potencial da transparência combinado a tecnologias, como o blockchain, por exemplo. É a primeira vez na História em que estamos aptos a ter transparência desse grau numa indústria tão dispersa geograficamente.

Uma ativação do projeto Fashion for Good, cujo foco é conectar entre si e ao mercado iniciativas de moda sustentável que pipocavam isoladamente

Uma ativação do projeto Fashion for Good, cujo foco é conectar entre si e ao mercado iniciativas de moda sustentável que pipocavam isoladamente Foto: Divulgação Instituto C&A

As pessoas habitualmente tem medo de revelar números e abrir informação… As empresas estão prontas para isso?

É assustador, mas se você observar alguns índices de transparência, as coisas estão melhorando. Há três anos, eram apenas seis marcas participando de projetos como o Fashion Revolution, agora são 150 e tenho escutado na indústria que as marcas estão abraçando a ideia. Desta forma, você consegue ver onde todo mundo está e entender em que ponto você se encontra e onde tem que melhorar. Então é assustador, sim, é assustador ser avaliado. Mas só assim posso ir até meu CEO e dizer: “Ei, olha aqui, a gente está meio baixo nessa lista, precisamos melhorar”.

Vocês conseguem fazer pressão dentro da C&A sendo uma fundação paga por ela, por exemplo?

Como organização é interessante porque somos independentes e complementares. Em projetos, como o Fashion Revolution e seu índice de transparência, é muito claro para nós que a C&A não tem nenhum tratamento especial, que existe uma distância saudável entre nós da C&A Foundation e a C&A. No fim, nossa relação é mais complementar do que no campo da tensão.

Qual a grandeza dos investimentos que a C&A Foundation recebe da C&A anualmente?

No ano passado foram 65 milhões de euros, o que é significativo para o tamanho da C&A Foundation. No momento, nosso carro-chefe é o Fashion for Good, mas estamos tentando descobrir o que mais, estrategicamente, deveríamos fazer além dele. Deveríamos estar olhando para advocacia e tentar fazer com que governos criem incentivos? Ou deveríamos investir em liderança para tentar reunir CEOs e criar uma comissão? Estamos estudando essas coisas todas e vamos concluir nossa estratégia em breve.

Deste montante de 65 milhões, qual o valor repassado para o Instituto C&A no Brasil?

Algo em torno de 10% do investimento total, ou 6 milhões de euros [cerca de R$ 26 milhões]. O Brasil é único porque o Instituto vem trabalhando há cerca de 27 anos já. Ele surgiu antes de nós da C&A Foundation. É no Brasil que temos o maior número de integrantes também. Boa parte desse budget no país vai para questões de condições de trabalho.

Você tem metas dentro da C&A Foundation?

Temos, sim. Somos uma fundação corporativa e estamos fundamentados numa família bastante empreendedora, então conversamos sobre nossos progressos em termos de negócios, o que agrada aos nosso acionistas. O maior desafio é que tudo isso é certamente bom no médio prazo, mas queremos mudar o sistema e isso é uma coisa mais difícil de mensurar.

O que espera conseguir com a C&A Foundation em dez anos?

Acho que minha meta dos sonhos número um é tornar a transparência a norma para o modelo operante na indústria. Número dois: não tenho certeza que isso seja possível em dez anos, mas queria que nosso trabalho pudesse impactar milhões de trabalhadores e agricultores, que tenham condições de trabalho decentes e dignas. Em terceiro lugar, adoraria que indústria, marcas, revendedores e fornecedores percebessem que precisamos de modelos de negócio circular. Precisamos desafiar essa maneira velha de fazer as coisas, e abraçar novas abordagens para essa indústria.

Vocês também estabelecem diálogo com pessoas de outras indústrias além da moda?

A gente faz, mas não tão sistematicamente quanto deveríamos. Quando começamos a olhar para transparência  e moda conversamos com este grupo da indústria de café. De vez em quando falamos com essas outras indústrias para entender o que eles vem fazendo em termos de condições de trabalho, mas precisamos fazer mais. E, conforme nos aprofundamos na circularidade, definitivamente precisamos olhar para a indústria da iluminação, e o que a Philips fez, por exemplo, assim como a indústria da construção, que em geral tem muitos modelos circulares.

* O repórter viajou a Copenhagen a convite do Instituto C&A