É o fim da Warped Tour; mas pelo menos ainda temos a Vans

Medea Giordano - The New York Times

A última edição do festival referência da música emo e pop punk ocorre neste mês

Pessoa se joga no público da Warped Tour usando um tênis da Vans

Pessoa se joga no público da Warped Tour usando um tênis da Vans Foto: Adam Amengual/The New York Times

A Vans Warped Tour - festival de música que cruza os Estados Unidos todos os anos desde 1995 e é conhecido como um "acampamento de verão punk rock" - está se despedindo de vez. 

Durante 24 anos, a Warped Tour criou um espaço para os fãs de metal, punk e pop rock para conhecerem seus ídolos e dançarem juntos sob um sol escaldante: a cada verão no hemisfério norte, cerca de 70 bandas e artistas tocavam em aproximadamente 40 locações, recebendo centenas de milhares de pessoas tatuadas, usando camisetas de bandas e tênis quadriculados da Vans. Muitos artistas ajudaram a definir o que foi a Warped Tour, como Blink-182, Reel Big Fish e Simple Plan. 

Mas, recentemente, a popularidade do evento vem caindo, tanto entre os artistas quanto entre o público. E alguns outros festivais não param de crescer - o Coachella levou mais de 200 mil pessoas para o deserto californiano em abril - e a Warped Tour não tem mais o apelo cultural que tinha. "Os fãs dedicados ainda vem, mas os que poderiam gostar no futuro não estão mais ligados", declara Kevin Lyman, fundador e produtor do festival. 

Ele explica que ainda existe a possibilidade para outra Warped Tour no futuro - incluindo uma celebração de 25 anos no ano que vem - mas 2018 será o encerramento de um ciclo. "Fiz tudo o que pude nesse formato", diz. "Estou cansado. É hora de alguém continuar ou começar algo novo." 

Banda Simple Plan no palco da Vans Warped Tour em San Diego, Califórnia 

Banda Simple Plan no palco da Vans Warped Tour em San Diego, Califórnia  Foto: Adam Amengual/The New York Times

O encerramento do evento não marca só o fim de uma era na música, mas também de uma colaboração e ligação íntima com moda. A Vans patrocina a Warped Tour desde sua segunda edição, e credita ao evento a sua imagem contracultural. 

"Antes da Warped Tour, não tínhamos um apelo nacional para mostrarmos quem somos", explica Doug Palladini, presidente global da marca. "A Vans é uma empresa que abraça a individualidade, e o festival também." 

Os representantes da marca disseram que o evento - que a Vans detém 75% - não está acabando por causa de diminuição nas vendas de ingressos e que essa aposentadoria não deve ser vista como uma desistência da cultura de skate ou musical. A House of Vans, uma pista de skate interna e espaço de eventos com locação fixa no Brooklyn, em Chicago e Londres (e pop-ups espalhadas ao redor do mundo, inclusive no Brasil), irá continuar a receber músicos famosos e locais, sem cobrar a entrada. 

Mas a história entre a marca e o festival chegou ao fim. "Faremos disso uma parte da história da Vans e lembraremos que ele é uma parte muito, muito importante de quem somos", explica Palladini. "Mas é hora de colocar um ponto final e agradecer a todas as bandas e fãs que fizeram da Warped Tour o que ela é." 

Uma grande família

Oliver Paliy, de 5 anos, com sua mãe, Libby Stockstill, na Vans Warped Tour em San Diego

Oliver Paliy, de 5 anos, com sua mãe, Libby Stockstill, na Vans Warped Tour em San Diego Foto: Adam Amengual/The New York Times

A Vans é sinônimo da cultura de skate do sul da califórnia nos anos 1990, onde nasceu a Warped Tour, graças aos seus tênis com sola de borracha (eles têm uma boa aderência). Mas a popularidade do evento ajudou a marca a se estabelecer no cenário do rock, com uma imagem extremamente apelativa, principalmente quando estamos falando de consumidores entre 16 e 34 anos. 

Em 2004, quando a Vans comprou a VF Corp. - dona da JanSport, Timberland e North Face - estava fazendo 325 milhões de dólares ao ano em vendas. Em 2018, segundo Palladini, o valor está estimado em 3 bilhões. 

A primeira loja da Vans, que na época era conhecida como a Van Doren Rubber Co., abriu em março de 1966 em Anaheim, Califórnia, era um empreendimento bem mais humilde. Ela foi fundada por Paul e Jim Van Dores, que faziam sapatos sob medida. Eventualmente, as solas em formato de waffle atraíram os skatistas e, em 1976, Tony Alva e Stacy Peralta - skatistas profissionais que foram imortalizados por Victor Rasuk e John Robinson em 2005 no filme "Os Reis de Dogtown" - desenharam o Era, um tênis de cano baixo que se tornou um clássico. 

Tiveram alguns outros momentos em que os calçados da Vans estiveram nos holofotes da contracultura, incluindo nos pés de Sean Penn no filme "Picardias Estudantis". Mas a identidade punk da empresa não foi definida até que Lyman conheceu Steve Van Doren. 

Ex-produtor do Lollapalooza, Lyman criou a primeira edição da Warped Tour em 1995 em bandas como Sublime e No Doubt no lineup. Mas ele precisava de apoio financeiro para continuar o projeto e procurava patrocinadores. 

Steve, filho do co-fundador da Vans Paul Van Doren, estava com uma missão diferente. Ele procurava alguém para ajudá-lo a montar um campeonato de skate amador que iria atravessar os Estados Unidos e o mundo. Foi quando conheceu Lyman, que disse que a Vans conseguiria atrair mais gente aos eventos se eles tivessem música ao vivo.

No "Vans: Off the Wall", o livro sobre a marca, Van Doren explica que o acordo foi fechado entre os dois em 15 minutos de conversa. Assim nascia a Vans Warped Tour. 

As pessoas do festival 

Sarah Woodward, de 16, descansa entre os shows na sua primeira Vans Warped Tour

Sarah Woodward, de 16, descansa entre os shows na sua primeira Vans Warped Tour Foto: Adam Amengual/The New York Times

Hoje, os festivais de música oferecem shows dos maiores artistas do mundo por valores bem altos. Um passe de três dias para o Coachella, por exemplo, vai de 500 dólares até 1000, um ingresso VIP. Em comparação, a Warped Tour custa cerca de 45 dólares e não existe hierarquia de lugares. Até mesmo as bandas grandes não ganham nenhum tipo de tratamento especial, explica Van Doren. É tudo sobre acessibilidade: não se pode pagar para conhecer um artista, e os fãs podem visitar as bandas em suas tendas ou encontrá-las na multidão durante outra apresentação. 

"Quando você monetiza um aperto de mão, isso muda a relação", diz Lyman. 

Assim como a Warped Tour mantém os seus ingressos a preços baixos por causa da lealdade dos fãs - e até mesmo deixa os pais entrarem de graça - a Vans não tem planos de aumentar o valor de suas peças por causa de seu apelo popular (no Brasil, um tênis da marca custa à partir de R$ 229,99). O mote da empresa gira em torno da inclusão. "E uma parte da inclusão são preços acessíveis." 

Para Steve Van Doren, que agora é o vice-presidente de eventos e promoções, é importante que a marca não esqueça suas raízes. "Os skatistas nos adotaram no meio dos anos 1970, e acredito que ainda estamos aqui, quatro décadas depois, porque eles nos deram esta importância", diz. "Eles nos deram propósito."