Do erótico ao clerical: a moda masculina estranha da Semana de Milão

GUY TREBAY - O Estado de S.Paulo

Roupas de inspiração erótica, modelos com máscaras de atiradores, pijamas florais para uso diruno, saias de pregas, sobretudos com ar clérigo... Fragmentos desconexos e muita ousadia marcam as coleções das grifes na temporada italiana

Modelos no desfile da Prada, durante a Semana de Moda Masculina de Milão, que ocorreu entre 16 e 19 de janeiro.

Modelos no desfile da Prada, durante a Semana de Moda Masculina de Milão, que ocorreu entre 16 e 19 de janeiro. Foto: Valerio Mezzanotti/The New York Times

Quando modelos começam a citar Baudrillard, o diretor criativo da Gucci fala sobre Walter Benjamin e Miuccia Prada cria estampas de Freud em um torneio de luta, você sabe que o mundo está de cabeça para baixo. "Ele fala sobre o crescimento rizomático", disse o modelo francês Felix Gesnouin, provavelmente se referindo aos famosos e influentes textos dos filósofos Deleuze e Guattari sobre multiplicidades.

 

Isso foi no backstage do desfile da marca Canali, durante a Semana de Moda de Milão, onde uma longa fila de homens brancos com a pele lisa esperavam por ajustes de última hora em seus looks. Tocando a lapela de uma jaqueta de pele de pônei lustrosa, usada por um dos modelos, a proprietária da grife, Elisabetta Canali, afirmou: "As cores podem ser muito assustadoras." Olhando em volta, parecia não haver cor alguma.

 

Houve muito para confundir o espectador nos seis dias entre a feira Pitti Uomo em Florença e a calmaria da temporada de Milão, na qual os estilistas apresentaram as coleções de outono 2016, entre os dias 16 e 19 de janeiro. Foi um período durante o qual um estilista (Thom Browne, na Moncler) apresentou trench coats, cardigãs,  casacos esportivos e casacos dudune em camuflagem alpina em modelos com os rostos cobertos por máscaras, como as usadas por atiradores; enquanto outro (Italo Zucchelli, na Calvin Klein) reverenciou sua fascinação por alquimia para explicar um coleção altamente erótica, feita principalmente com papel alumínio prata e dourado. 

Houve ainda a iniciativa de Kean Etro, da Etro, que evocou a fragilidade da natureza distribuindo catálogos coloridos para a produção dos quais deve ter sido necessário derrubar florestas inteiras; e a afirmação de Alessandro Michele, da Gucci, que citou o anarquista russo Mikhail Bakunin como uma forma de elucidar como ele criou seus mais recentes pijamas florais para o uso diurno dos homens. "Uma montagem de fragmentos", foi como Michele explicou a atual coleção e o processo de criação. Tantos desfiles são.

 

Na Dsquared2, os estilistas Dean e Dan Caten produziram uma coleção que caracterizaram como "mangapunk", uma mistura dura e improvável de estampas de quadrinhos japoneses e antigos quimonos, kilts e sapatos de solado grossos, saias de pregas, short-saia e aventais que flutuavam atrás de quem os vestiam.

As referências de Miuccia Prada eram clericais, judiciais, náuticas e menos heréticas que no passado. Ambientado em uma série de plataformas feitas de madeira para evocar o teatro de praças públicas e iluminado com uma escuridão de igrejas, o desfile tinha um tom que ficou entre o erotismo sentimental marítimo do filme "Querelle", de Rainer Werner Fassbinder, e uma produção de escola primária de "Les Miserábles". A última impressão teve algo a ver com os modelos. Qualquer dia desses, Prada vai chocar o mundo ao trocar os adolescentes por homens em seus desfiles.

 

Na passarela da marca, as calças jeans enceradas índigo tinham pernas amplas. Os sobretudos pareciam robustos o suficiente para se sobressaírem entre os elementos ou a falta de um modelo. Havia capas de marinheiro e batas com estampas botânicas geminadas. Havia sobretudos com ar clérigo como aqueles que a elite do Vaticano encomenda à alfaiataria papal Ditta Annibale Gammarelli.

 

Giorgio Armani foi só ele mesmo, sem nunca fazer referências a outros estilistas. Se o desfile de sua grife é um dos poucos dos quais se espera inovação, é porque ele fez uma inovação importante - o terno macio - 35 anos atrás e portanto considera que seu lugar na história da moda está seguro. Se muito do que ele fez desde então parece ser variação do mesmo tema, é porque ele é o gramático da moda, apaixonado pela gramática que ajudou a criar.

 

O desfile de Armani tinha o título "Pensamentos Disconexos" e melancolicamente trazia referências a uma jornada de vida longa, cujos temas permanecem consistentes não importa o que esteja acontecendo no mundo. Isso significa dizer que as formas de Armani vão ser sempre macias ou estruturadas e volumétricas, e que ele vai sempre se expressar através dos detalhes: uma fita sutil aplicada na padronagem retangular do sportswear da Emporio Armani; uma paleta sombria de azul marinho evocando o Mediterrâneo noturno para o coração da coleção da Armani; o uso de pele sem remorsos; e os punhos de calça de moletom em modelos formais. Isso pareceu estranho, até alguém lembrar que o smoking também é uma forma casual de se vestir. Antes de ele existir, a maioria dos casacos de noite tinham cauda. 

Há um momento no documentário "Marc Jacobs & Louis Vuitton", de 2007, no qual o estilista explica como, depois do grande sucesso ao desenhar uma "it bag", o chefe da LMVH, Bernard Arnault, instruiu-o a exibir a mesma bolsa em todas as temporadas. Jacobs teve a infeliz tarefa de explicar ao chefão que não é assim que a moda funciona. A cena me veio à mente quando modelos no desfile da Gucci caminharam pela passarela usando os sapatos que o estilista Alessandro Michele apresentou em sua estreia na grife: eles foram tão bem sucedidos que as lojas não conseguiram manter o estoque. Michele não tem medo de uma reprise.

 

Em sua visão de uma Gucci renovada, elementos que pareciam radicais por ignorarem barreiras de gênero viraram normais assim que os olhos tiveram tempo para se ajustar a eles. A modelo transgênero Hari Nef, favorita de Michele, explicou da melhor maneira ao afirmar que a preocupação da moda com a fluidez dos gêneros não deve ser compreendida como um sinal de uma nova política radical. "Os estilistas estão apresentando a masculinidade como uma opção para as mulheres e vice versa", disse Hari. "Isso não é ontologia, é estética."