'Dinâmica familiar tem relação com o bullying'

Luiza Cervenka - O Estado de S.Paulo

Especialista em bullying abre o jogo sobre o cenário atual

'O que almejamos é reduzir significativamente os índices de bullying entre os estudantes, por meio de ações promotoras da cultura de paz nas escolas'

'O que almejamos é reduzir significativamente os índices de bullying entre os estudantes, por meio de ações promotoras da cultura de paz nas escolas' Foto: Lee Morley/ Creative Commons

A antropóloga Cléo Fante, especialista em buylling, é pesquisadora e autora de "Fenômeno Bullying", livro que trata do tema. Apesar da sua agenda lotada, sempre consegue um tempinho para atender a todos, mesmo que por e-mail. Nessa entrevista, ela fala sobre as pesquisas mais recentes e as campanhas antibullying.

O conceito de bullying mudou?

Cléo Fante - O conceito de bullying continua o mesmo, o problema é a dificuldade na interpretação do conceito, bem como na precipitação e divulgação de casos. Tudo isso tem gerado graves equívocos e generalizações, dando a entender que tudo o que ocorre entre pares ou não, é bullying. 

A intensidade do bullying aumentou nos últimos anos? 

CF - O que mudou foram as formas de ataque, do mundo real para o virtual, intensificando ainda mais o sofrimento dos que são expostos à velocidade e facilidade de propagação de mentiras, calúnias, humilhações, difamações, resultando danos imensuráveis.

Crianças que sofrem em casa ou não tem apoio dos pais são possíveis participantes do bullying tanto como vítimas, como quanto autoras?

CF - Estudos evidenciam que a dinâmica familiar tem estreita relação com o bullying. Crianças que sofrem maus-tratos em casa tendem a reproduzir tais comportamentos em outros ambientes. Por outro lado, também podem vir a ser revitimadas, devido à baixa autoestima, dificuldades de defesa e insegurança que apresentam. No entanto, a falta de limites, a permissividade, o descaso ou abandono também podem potencializar certos comportamentos. Não somente os modelos educativos familiares devem ser considerados (embora sejam os que mais influenciam), mas também aqueles que são oferecidos pela mídia, amigos ou colegas, escolas, sociedade, etc.

Até que ponto as campanhas antibullying estão surtindo efeito para minimizar esse tipo de atitude agressiva?

CF - As campanhas antibullying auxiliam no processo de sensibilização e conscientização. É necessário que as campanhas ganhem robustez e se transformem em programas, pautados em ações permanentes, que gerarão resultados permanentes e eficazes.

Qual você acha ser o melhor projeto/campanha antibullying?

CF - Dentre as inúmeras ações promovidas em nosso País, a Campanha 'Chega de Bullying. Não fique Calado', desenvolvido pela Cartoon Network e parceiros é uma boa iniciativa. Em relação aos programas, o 'Educar para a Paz', por nós desenvolvido, tem alcançado seus objetivos na redução do fenômeno. No entanto, ainda carecemos de políticas públicas e programas oficiais no trabalho preventivo.

Será que algum dia estaremos livres do bullying?

CF - O ideal seria, mas isso é utopia. O que almejamos é reduzir significativamente os índices de bullying entre os estudantes, por meio de ações promotoras da cultura de paz nas escolas. É desconstruir uma cultura de violência, de desrespeito, de intolerância e preconceito, sendo isso possível ao longo do tempo, desde que haja investimentos em educação, nas famílias, na juventude.

Quais as sequelas mais profundas para as vítimas e autoras de bullying?

CF - Tudo dependerá da gravidade da ação recebida, podendo resultar mágoa, raiva, constrangimento, que se dissiparão rapidamente ou outras consequências mais sérias, podendo acompanhar a vida da vítima além do período acadêmico. Os efeitos podem ser notados na queda da autoestima, da concentração, do aproveitamento escolar, da socialização, ansiedade, medo, irritabilidade, apatia. Dependendo da gravidade e tempo de exposição, podem apresentar sintomas depressivos e ideias suicidas, bem como o cometimento de suicídio. Os autores podem apresentar problemas de adaptação e de interação social, comportamentos inadequados e/ou violentos, envolvimento em delinquência e criminalidade, distanciamento dos objetivos escolares, queda no rendimento e abandono escolar, problemas emocionais, dentre outros.

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