Dez lições sobre a moda em Nova York

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Como aprender com os nova-iorquinos a transformar a moda em SP

Nova York é destino número um dos estilistas brasileiros na busca por inspiração em lojas, museus, street style e varejo

Nova York é destino número um dos estilistas brasileiros na busca por inspiração em lojas, museus, street style e varejo Foto: Reprodução

Os paulistanos amam Nova York. É o destino número um dos estilistas brasileiros na busca por inspiração em lojas, museus, street style e varejo, mas na hora de trabalhar, existem muitas diferenças entre nós e o povo lá do norte. Na big apple, tempo é dinheiro. Oportunidades surgem a cada minuto e o mercado criativo responde rapidamente ao consumidor com novidades. Inovação gera desejo em um círculo fashion que funciona. Editores, estilistas, imprensa, empresários e consumidores colaboram continuamente para mover a indústria, que é a number 1 da cidade. 

Passando uma temporada em Nova York (fugindo da Copa do Mundo), pude observar alguns comportamentos chave que deveriam ser levados em conta por nós, que trabalhamos e movimentamos o mercado de moda em São Paulo. Separei em dez lições: 

1. Time is money: Aqui o tempo das pessoas é respeitado. As reuniões acontecem no horário agendado em uma cidade onde o transito é tão caótico como o de São Paulo e o metrô (também) quebra bastante. Em uma hora, questões são resolvidas e decisões são tomadas. Em São Paulo, normalmente as reuniões demoram (mais de) uma hora para começar. Normalmente, o profissional júnior espera pelo profissional sênior, que se sente no direito de não respeitar o horário. Muitas ideias são trocadas e poucas decisões são tomadas. Foco e respeito ao tempo dos profissionais pode tirar um bom projeto do papel com agilidade. 

2. Não reclame: Os estilistas, jornalistas, produtores, stylists, etc. de São Paulo estão sempre reclamando - dos orçamentos baixos, do mal gosto, dos salários - ao invés de arregaçarem as mangas e lançarem novas propostas de trabalho. É muito mais fácil reclamar do que realmente fazer alguma coisa. Quando o mercado nos EUA entrou em crise, todo mundo trabalhou mais, se conectou mais e criou novos modelos de negócios que transformaram a moda. A América abraçou a conectividade e o novo momento do consumidor ao invés de reclamar da crise. 

3. Cultura é moda: O que faz o consumidor se encantar e se conectar com as marcas é vê-la em todos os lugares que frequenta. As marcas se conectam com o público acompanhando comportamentos urbanos, patrocinando festas, exposições, shows e esportes. Elas vão atrás dos clientes. Muito mais que vender roupas, moda é lifestyle e os consumidores querem pertencer a um grupo, a cidade em que vivem. As marcas têm esse poder de promover a cultura urbana e, no Brasil, precisa usá-lo de uma maneira  melhor. 

4. Humildade é cool: O estilo prepotente muitas vezes apresentado pelos profissionais de moda com um comportamento, assim meio 'Anna Wintour' , só cabe mesmo à própria. Saber escutar, mudar, trocar e se reinventar hoje faz parte do processo de moda. Não existe mais marca-ditadora que escolhe o que o consumidor quer usar. Hoje o marketing da moda vem de baixo para cima, então postura 'sabe-tudo' não cola mais. 

5. Respeite os jovens: Os jovens estão sendo celebrados pela indústria da moda. Nos Estados Unidos e na Europa, concursos como o CFDA Awards, H&M awards e LVMH awards elegem novos talentos com parcerias em universidades, dando patrocínios, oportunidades e consultoria de negócios. Os jovens entendem de moda, amam moda e as empresas precisam deles para se renovar. Em São Paulo, os estilistas jovens ganham muito mal (e reclamam) e as empresas não criam programas com as universidades para descobrir e se apropriar dos jovens talentos. Valorize a juventude. 

6. Pense em projetos integrados: Varejo hoje conecta com Instagram, Facebook, desfile, design, marketing, mercado, consumo. Existe uma linha transparente que faz tudo sincronizar como uma orquestra. Os pontos em São Paulo estão desconectados. As coleções de passarela não chegam às lojas. Os consumidores usam muitas roupas importadas e a cultura da cidade não é celebrada. Os pontos ficam desconexos e não há identificação do paulistano com o próprio estilo. O paulistano prefere ser parisiense ou londrino. Conecte-se. 

7. Fuja das normas: Moda é uma indústria criativa. Para agitar o varejo, temos que pensar fora da caixinha. Eventos divertidos, ações comerciais espontâneas, coleções especiais. Riscos devem ser tomados para criação de marca. 

8. Networking: Networking em Nova York é a moeda mais sagrada. Os profissionais do meio não vão em eventos somente para tirar fotos. As conexões entre as pessoas geram novos negócios o tempo todo. Novas ideias e projetos conectam os profissionais de diferentes segmentos com a moda. Agências de networking já existem. Bons exemplos são as noites de museu que a UNIQLO patrocina no MOMA ou as exposições da VOGUE no Metropolitan. Não basta sair bonito na foto, tem que participar. 

9. Acessibilidade: As roupas precisam ter um preço que os clientes possam pagar. Em Nova York com US$100 você faz a festa em diferentes marcas. Com o mesmo valor em São Paulo, fica difícil ser feliz. Até marcas de luxo, como Marc Jacobs, disponibilizam produtos baratos - em meio aos caros - que deixam todo mundo feliz. 

10: Work Hard: Não tem segredo. Tem que trabalhar mais, ir além, ser criativo e principalmente, pensar na identidade do paulistano. Nós queremos sair na rua em São Paulo e ter desejo de comprar. E isso hoje está muito remoto. Quem muda esse jogo são os profissionais de moda. Então o momento agora é o de parar de reclamar da crise, arregaçar as mangas e criar o novo. O mundo inteiro espera isso de nós. Nós esperamos isso de nós. Mas estamos presos a uma mentalidade atrasada, que nós mesmos alimentamos todos os dias, com medo ser diferente. Em Nova York, ser diferente é o que conta.