Desafios da mulher moderna

- O Estado de S.Paulo

As escolhas das mulheres variam de acordo com os tempos à medida em que seu horizonte de escolhas se amplia e novas experiências são consideradas

É inegável que portas para as grandes oportunidades de emprego foram, enfim, abertas para as mulheres. No entanto, décadas após tal conquista das mulheres, constatou-se que elas não chegavam a cargos importantes de liderança na proporção esperada, a corresponder às suas qualificações. "Se o machismo dos dirigentes explica ainda, em parte, tal situação, outro fator contribui para o abismo das lideranças: o abandono do mercado de trabalho por mulheres que pertencem ao extrato de maior nível de instrução", explica a psicanalista Malvine Zalcberg.

Referência internacional em comportamento feminino, a profissional também é autora dos livros 'Amor paixão feminina' e 'A relação Mãe e Filha', e fala ao Estado sobre os desafios da mulher moderna.

Malvine Zalcberg é psicanalista e referência internacional em comportamento feminino

Malvine Zalcberg é psicanalista e referência internacional em comportamento feminino Foto: Divulgação

Qual é o perfil da mulher moderna?

A tendência de muitas mulheres modernas tem sido a de conciliar um grande e variado número de atividades em áreas de seu interesse, dado o amplo espectro  de realizações lhe sendo atualmente facultadas. Não que seja tarefa fácil equilibrar exigências da profissão e da família, além das de interesse pessoal.

Não sei como ela consegue (I don't know how she does it, 2011), filme dirigido por Douglas McGrath, ilustra como uma mulher moderna, Kate Reddy, quer ser multifuncional e perfeita: trabalha fora de casa como analista financeira, educa dois filhos, Emily e Ben, cuida do marido Richard e de si mesma para se manter elegante e arrumada. Ela passa noites insones tentando, através de intermináveis listas mentais, dar conta de seus afazeres para o dia seguinte, sempre se culpando por não ter cumprido algo da lista do dia anterior: "levar Emily para a escola; dedicar-se ao trabalho; dar mais atenção ao marido; eventos beneficentes, luzes de Natal, aniversários". Kate até que consegue equilibrar estes dois lados de sua existência - as tarefas domésticas como mãe de família e as responsabilidades profissionais, decorrentes de seu trabalho -, embora tenha de desenvolver habilidades para enfrentar a acirrada competição  dentro da empresa e malabarismos para lidar com os conflitos domésticos.

Muitas mulheres "pós-modernas" fazem escolhas para conciliar vários aspectos de suas existências ou resolvem dedicar-se seja mais (ou preferencialmente) à carreira, à maternidade ou ao casamento. Não há definitivamente uma solução para todas as mulheres. Elas são "únicas" e as soluções para as suas vidas também o são.

As conquistas das mulheres ao longo dos anos também geraram muitas frustrações, não só por terem de conviver e compartilhar (até competir) num universo predominantemente machista, mas também porque a mulher, naturalmente, se sente culpada por tentar equalizar o tempo entre trabalho e família. Essas características são menos impactantes (ou até nulas) nos homens. Como explicar isso?

Nossa cultura ocidental ainda é ambivalente sobre o papel da mulher; por um lado, continua preconizando a figura da mulher dedicada aos filhos, em casa e, por outro, eleva o trabalho ao status de uma religião; uma cultura que as próprias mulheres, em grande parte, contribuíram para formar.  

É comum as mulheres, mesmo preparando-se para assumir uma carreira, irem, ao longo de seus anos de formação, reservando espaço em sua vida para "outras realizações" além da profissional; podem, em função delas, tomar decisões que vão refreando planos de carreira, para que não sejam tomadas por "inteiro". É um dos principais motivos pelos quais não ocupam, proporcionalmente ao seu preparo, posições-chave em empresas públicas ou privadas. Um fenômeno comumente identificado como "teto de vidro". 

Pode até parecer ambição profissional de menos. Mas pode ser ambição geral demais. A mulher é ambiciosa também na vida pessoal e não só na profissional. Ela tenta fazer muito, e bem. 

A mulher não tem definitivamente a mesma relação com o binômio família/ carreira que o homem tem. Para ele, o pressuposto é que pode ter uma vida profissional de sucesso e uma vida pessoal completa. Embora sofra cada vez maior pressão da mulher para que se dedique mais à família (por que só ela?), não o vemos "abandonando" (ou diminuindo horas da) carreira com esse intuito. O homem equaciona mais facilmente os aspectos de família e trabalho em sua vida: "É o que dá para conciliar; é pena, mas é isto". 

A mulher não toma como acertada e definida a equação trabalho/ família como o homem faz. Mesmo engajada numa atividade profissional, ela leva muito mais em conta (e se preocupa com) o tempo que reservará à família (ao marido e filhos), zelando pelo seu papel particular na mesma. 

Quais são as novas formas que as mulheres estão buscando para equilibrar família e profissão? 

As mulheres que trabalham comparam sua responsabilidade como mães àquelas que se dedicam exclusivamente à família, mães dedicadas. Quando uma mãe com pressa para chegar ao trabalho, deixa o filho na porta da escola e vê como a "outra" mãe permanece ali para acompanhar e conversar com outras mães, pode ficar preocupada de que tal atitude possa vir a prejudicar o filho, que ela não estaria dando a ele o melhor (dela). Pode, aliás, sofrer pelo olhar de reprovação daquelas mães dedicadas, lembrando-lhe que não está sendo mãe adequada. Como se precisasse disso para reforçar suas próprias dúvidas de não estar à altura como mãe! 

Uma forma de tentar equilibrar família/ profissão é, de acordo com a  jornalista americana Lauren Sandler, a mulher ter um só filho, uma tese sustentada em seu livro Primeiro e único (One and only, 2013). Representaria, segundo a autora, uma forma de reconciliar maternidade e modernidade. 

Não há dúvida que as mulheres estão procurando resolver estas questões que são essencialmente femininas, já que profissão, maternidade e casamento são caminhos de realização da identificação feminina por excelência.

As mulheres hoje têm maior possibilidade de escolha e maior poder de decisão. Elas já optam por não ter filhos para dedicarem-se à carreira, ou deixam uma carreira promissora para dedicarem-se à família; congelam os óvulos para poderem ter ambos, tudo a seu tempo. Mas essa gama de possibilidades não pode fazer com que se sintam ainda mais frustradas?

Maiores possibilidades ofertadas às mulheres fazem parte da evolução da história das mulheres e devem ser encaradas exatamente como conquistas.

A grande questão é a mulher se dar conta dos motivos que as levam a realizar determinadas escolhas. Já estamos na segunda ou terceira geração de mulheres que puderam exercer escolhas, e o que constatamos? 

As opções de mãe à filha oscilam. Testemunhamos mulheres influenciadas pelas escolhas que suas mães fizeram entre dar ênfase à carreira ou à família e pelos efeitos que tais escolhas causaram nas próprias mães e nas filhas. 

Vemos mulheres jovens, na faixa de 25 a 40 anos, casadas e com filhos, abandonando carreiras porque acham que a mãe estava sempre ausente, engajada em seu trabalho, e elas se haverem ressentido profundamente desse fato. Elas querem fazer melhor. E mostrar às mães como se é mãe dedicada; no que elas, sem dúvida, se tornam. Mas, para tanto, precisam, invariável e constantemente, ser aprovadas, reconhecidas e elogiadas nesta função. 

Marta é exímia organizadora das múltiplas atividades dos filhos, às quais dedica grande parte de sua vida. No entanto, como é profissionalmente preparada para exercer uma carreira fora do lar - e não a exerce - no fundo, se ressente da liberdade com a qual o marido se dedica à sua. Não faltam recriminações de sua parte do quão pouco ele se devota à sua família, privilegiando a carreira. Tais críticas, pronunciadas em alto tom de irritabilidade e em termos agressivos, provocam o distanciamento progressivo do marido, que considera injustas e ofensivas essas apreciações de sua pouca participação na vida dos filhos. Um ciclo interminável de cenas desagradáveis se sucede entre o casal, a tensão entre eles não podendo deixar de ter efeito nas três crianças pequenas que as testemunham. Provavelmente, a filha deste casal será a mais afetada dos filhos pela decisão da mãe em preferir se dedicar à família à carreira porque tal decisão tem origem num conflito de sua mãe com sua avó. Para escapar dos efeitos desse conflito pelo qual foi atingida, é possível que tome uma posição diferente da mãe e se encaminhe para adotar a escolha da avó: favorecer a carreira. Principalmente porque deve ter percebido que a  opção da mãe não a fizera feliz. É bem possível que chegada à adolescência quando um distanciamento da figura materna se faz possível, pergunte à mãe: " Você que tinha uma profissão, por que não a exerceu e foi menos infeliz?"

Quais são os desafios que a mulher moderna deverá enfrentar daqui para frente?

A mulher deverá procurar fazer escolhas que lhe convém. O essencial é que tenha em mente que não há uma forma de ser mulher, mas uma forma que convém a cada mulher ser.  Para Freud: "mulher não nasce uma; se torna".

A cada uma de se inventar e reinventar, segundo sua história e o momento de vida que atravessa. É preciso guardar em mente que esta construção deve constantemente ser retomada e repensada para cada ser cujo destino é o de se tornar mulher.

Malvine Zalcberg, psicanalista, é autora de dois livros 'Amor paixão feminina' e 'A relação Mãe e Filha- 12ed.', que destrincham o universo das mulheres, foi professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) por 26 anos e atualmente se dedica ao exercício da prática clínica e de participações em congressos e seminários de psicanálise no Brasil e Europa. Malvine é colunista convidada da revista 'Marie Claire' francesa e tem os seguintes livros publicados no exterior: "Cosa pretende una figlia dalla propria madre? " (Itália), "Ce que l'amour fait d'elle" (França), "Qu'est-ce qu'une fille attend de sa mère ?" (França)

Susan Walsh/ AP
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