De quantas camadas é feito seu frio?

Michelli Provensi - O Estado de S.Paulo

Se teremos frio de verdade, só saberemos mais para frente. Mas todo mundo já quer botar o tricô para fora do armário.

Foto: Reprodução

"Tá frio? Não sei, não sinto!". Não importa quão grande seja o leque de tendências, passar frio nunca esteve na moda – ou quase. No último inverno do Hemisfério Norte,  fashionistas insistiram em exibir nas primeiras filas de desfiles os tons rosados de suas peles queimadas pelo frio. As inglesas não curtem muito colocar meia calça quando a ocasião pede um look sofisticado. Pelo menos é o que me lembro dos tempos em que percorria a  noite londrina.

E por aqui, de quantos fios de meia se faz um inverno? Se na Inglaterra as mulheres exageram nas pernas de fora, nas bandas de cá, parece que quanto mais, melhor. Há a ideia de que inverno é chic. Afinal, tem que ter classe para se vestir no frio e vestir casaco de pele, cachecol, luvas... Mas será que nosso inverno pede tanto?

E olha que nem estou falando das baixas temperaturas do sul, de Gramado, Canela e São Joaquim. Mas também não do calor sempre presente na Bahia ou no Rio. Vamos focar em São Paulo. O frio paulistano é pregador de peças. Como se vestir na terra da garoa em que não garoa? A Cantareira vai influenciar na temperatura? Se teremos frio, veja bem, frio de verdade, só saberemos mais para frente. Mas todo mundo já quer botar o tricô para fora do armário. E o resto do guarda-roupa de inverno também.

A peça que cai bem nesse chove não molha é pashmina. Talvez por que venha da Índia, esse é um acessório abençoado. Capaz de nos salvar de qualquer ar condicionado de shopping ou mudança brusca de temperatura - de esconder alergia ou outras marcas no pescoço. Na capital paulista, acerta sempre quem carrega um lenço desse na bolsa, que funciona como uma espécie de estabilizador do frio.

Temos mais de 200 vírus causadores de resfriados, mas, se eu for exposta a algum deles, estar absurdamente agasalhada não vai  me impedir de pegar um deles. Entre os excessos do frio, está o desfile de estampas selvagens, principalmente de cobra e leopardo, em alta na temporada fashion. O print tem sua graça, mas nosso inverno não carece de luvas com pele por dentro. Aliás,  pele de bicho morto não é chique faz tempo.

Acaba de ser aprovada na Nova Zelândia uma lei que reconhece os animais como seres sentimentais, proibindo qualquer tipo de teste com eles. Estou na torcida para essa moda se alastrar como o frio na serra gaúcha. Sofisticação e elegância estão bem longe de ostentação e crueldade. Stella McCartney, a estilista que conseguiu se afastar do peso de ser filha de quem é – um Beatle, no caso –, prova isso ao criar coleções bonitas e que aquecem sem nenhuma matéria prima animal.

O frio traz uma simbologia e a sensação térmica depende do imaginário de cada um. Mas a cor do céu permite que o clima seja explorado em camadas. De roupas. Esfriou? Não precisa necessariamente colocar gorro, cachecol e luva. Aproveite para lançar mão das sobreposições, que têm muito mais apelo de moda. Vale salvar referências de desfiles e pesquisar tecidos para, ao longo de um dia de inverno, fazer um "strip-tease" e tirar as camadas de casaco conforme a temperatura.

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Da mesma forma que o inverno sugere glamour para alguns, ele desencadeia um apavoramento em outros. Por isso parece trazer às ruas de São Paulo uma gama de looks superaquecidos. Permita-se usar um quimono de tricô, um casaco acolchoado, golas altas, blusas por debaixo dos vestidos, capas, ponchos e pelerines. Mas não exagere. Permita-se também sentir o frio e entender o quanto de acolhimento ele sugere.