Confissões de uma mãe solteira

Miriam Porter - O Estado de S.Paulo

"A parte mais difícil para mim é não ter o outro dos pais com quem conversar e discutir os problemas, dilemas e situações malucas de meu filho, com os quais tenho de lidar sozinha"

"A diferença para mim não é as longas noites sem dormir; é não ter o outro dos pais para compartilhar esta experiência que provoca a interminável solidão assim que ele adormece"

"A diferença para mim não é as longas noites sem dormir; é não ter o outro dos pais para compartilhar esta experiência que provoca a interminável solidão assim que ele adormece" Foto: Cortesia da autora

Quando Katie Holmes anunciou seu divórcio em 2012, eu mais uma vez me senti ligada a ela. Não o tipo de ligação que se tem com verdadeiros amigos sobre uma taça de vinho ou numa noitada de filmes com as amigas, mas no sentido de que ela morava em Hollywood e não tinha nenhuma ideia de quem eu era, mas eu acompanhei sua gravidez porque costumava vê-la na televisão.

Nós "nos ligamos" quando ficamos grávidas na mesma época há mais de nove anos. Como os marcos de sua gravidez eram notícia para os tabloides, eu sabia em que estágio meu bebê estava e nossos filhos nasceram com dias de distância. Ela teve uma menina, eu um menino.

Entretanto, pouco depois de meu filho nascer, meu relacionamento terminou e o dela não. De modo que eu só tornei a pensar em Katie quando seu relacionamento também terminou. Finalmente! Agora nós podemos ser mães solteiras juntas!

Ela não sabia quem eu era, é claro. Mas agora eu sei que não sou a única mãe que encontra conforto em celebridades, atletas ou políticos famosos que enfrentam situações similares que estabelecem paralelos entre nossas vidas.

As páginas de revistas de variedades vivem descrevendo celebridades "comprando produtos de primeira necessidade como nós" e "levando o lixo para fora como nós". Portanto, se encontramos conforto em pessoas famosas levando o lixo para fora porque nós também o fazemos, por que não deveríamos nos ligar sobre ser uma mãe solteira com alguém que jamais encontramos? Afinal, esta é a parte mais desafiadora de minha vida. 

Claro, Katie tem uma vida de privilégios e eu tenho de batalhar para pagar o aluguel e comprar os gêneros de primeira necessidade. Mas o vínculo a que me refiro não é de natureza financeira. É irrelevante que ela tenha milhões de dólares e meu cartão de crédito esteja estourado, ou que sua filha vista suéteres de marca tecidos com fios de ouro e diamantes e meu filho vista uma calça jeans de segunda mão remendada. É antes a parte emocional de ser uma mãe solteira que nos arrepia inesperadamente nas horas mortas da noite. Esse é o meu maior desafio. Eu realmente encontro conforto em saber que não sou a única no mundo a lidar sozinha com um filho.

Levei alguns anos para perceber que a parte mais dura de ser uma mãe solteira não é de fato a exaustão, ou a falta de vida social, ou as intermináveis preparações de refeição (ele ainda insiste em comer três vezes por dia). Não é tampouco as constantes disputas e fardos financeiros que enfrento.

A parte mais difícil para mim é não ter o outro dos pais com quem conversar e discutir os problemas, dilemas e situações malucas de meu filho, com os quais tenho de lidar sozinha.

Esvaziei uma taça de vinho antes de ler para meu filho It`s Not The Stork (Não é a cegonha) - um livro sobre os pássaros e abelhas e nosso corpo. Eu o li o mais depressa que pude e imediatamente lhe ofereci um grande pedaço de bolo de chocolate para ele não me fazer nenhuma pergunta. Mas ele fez, é claro, e eu respondi, é claro, suando.

E houve a vez em que ele chegou da escola e perguntou, "Alguém na minha classe disse que Hitler queimava crianças com fogo, é verdade?". Oh meu Deus. Será que eu vou querer que ele saiba que nossos ancestrais foram assassinados em razão de sua fé?

Ou a vez que ele falou sobre a morte por semanas quando seu colega morreu de câncer aos 4 anos de idade. "Eu vou ter câncer?" ele me perguntou preocupado. O próprio pensamento me fez chorar. Eu o abracei com força naquela noite e torci para minhas respostas lhe darem conforto e tranquilidade.

Como falar com um garoto de quatro anos sobre câncer, um de seis sobre o Holocausto, e um de oito sobre reprodução e sexo? Eu queria gritar do alto de uma montanha, "Alguém me diga como fazer isto!" Mas estava cansada demais.

É duro ficar calma no meio do caos. Eu ainda não aprendi. Mas tento. Tenho a sorte de ter grandes amigas com as quais obtenho maravilhosos conselhos sobre criação de filhos, mas, em última instância, sou eu que tenho que decidir o que, quando e como conto a meu filho sobre o mundo. E isso é uma coisa solitária.

Então, sim, é duro ser uma mãe solteira. Mas tem o outro lado da moeda. Eu o ensinei a andar na bicicleta de duas rodas no saguão do meu prédio. Eu o ensinei a ler nas estatísticas no verso de cartões de hóquei. Estava lá para sua interminável frustração quando não conseguia fazer nenhuma das duas coisas. E para o sangue que saiu de seu nariz quando ele achou que sabia como funcionavam os freios da bicicleta.

E não é decididamente preciso ser uma mãe solteira para compreender como é lidar no meio da noite com vômito, febres, dentição, gripe, o que for. A diferença para mim não é as longas noites sem dormir; é não ter o outro dos pais para compartilhar esta experiência que provoca a interminável solidão assim que ele adormece.

Mas tem um outro lado da solidão da mãe solteira. Nós somos um time. Somos melhores amigas. Eu amo meu garoto com todo o coração e a alma, como qualquer mãe, e ser sua mãe é uma honra.

Muitas noites nós espantamos nossas preocupações dançando. Corremos rindo para as ondas do oceano. Andamos de lambreta pela cidade para procurar sorvete no verão e construir bonecos de neve no inverno. Nossa paixão por animais nos une de uma maneira que não consigo explicar. Eu segui os seus passos e nós nos tornamos veganos juntos há quatro anos quando ele decidiu que nunca mais comeria algo que viesse de um animal. Essa jornada nos levou a um caminho de bondade e compaixão e sou muito grata por ele ser meu filho.

Pessoas vivem me dizendo que um dia ele não vai mais querer passar tempo comigo e que os anos da adolescência são mais que desafiadores. Mas em nosso lar é um dia de cada vez. Eu pretendo estar aqui para tudo que aparecer em seu caminho. Na verdade, para tudo que vier em nosso caminho.

Quando meu filho era mais novo, uma pessoa me desejou um feliz aniversário no seu aniversário e eu olhei para ela inquisitivamente. "E aí ela explicou, ´Você o deu à luz! E é sua celebração também!`"

Pois é isso, sou uma mãe solteira. Foram nove anos em abril. Então feliz aniversário para mim. E para Katie, também.

Tradução de Celso Paciornik