Como é e o que oferece o atelier do Harlem que é hit entre fashionistas

Valeriya Safronova - The New York Times

Conheça a peculiar butique capitaneada pelo alfaiate Dapper Dan em parceria com a Gucci

Daniel Day, o Dapper Dan, o alfaiate do Harlem que ficou conhecido nos anos 90 por criar roupas usando logos de Gucci e Louis Vuitton e que agora comanda uma luxuosa butique em parceria com marca italiana

Daniel Day, o Dapper Dan, o alfaiate do Harlem que ficou conhecido nos anos 90 por criar roupas usando logos de Gucci e Louis Vuitton e que agora comanda uma luxuosa butique em parceria com marca italiana Foto: Andre D. Wagner/The New York Times

Do lado de fora, a casa geminada de pedras marrons no Central Harlem parece um edifício qualquer no quarteirão. Mas ao passar pela porta do térreo, através das cortinas de veludo vermelho você se encontrará entre jaguares, dragões de cauda longa e grandes nomes do hip-hop dos anos 1980 e 1990, incluindo LL Cool J, Salt-N- Pepa, Rakim e Eric B, os Fat Boys e Jay-Z.

Bem-vindo ao atelier do alfaiate Daniel Day, mais conhecido como Dapper Dan, e da grife de luxo Gucci, aberto em janeiro após anos de admiração e imitação mútuas e que atende apenas com horário marcado.

“Fui um sócio oculto durante muitos anos”, diz Daniel, que administrava uma butique na rua 125, em geral aberta 24 horas, uma das paradas preferidas de rappers, boxeadores e gângsteres, incluindo KRS-One, Mike Tyson e Alberto Martinez, também conhecido como Alpo, durante uma década a partir de 1982.

Um dos ambientes da butique de Dapper Dan com a Gucci: estilo e sofisticação

Um dos ambientes da butique de Dapper Dan com a Gucci: estilo e sofisticação Foto: Renell Medrano/Divulgação Gucci

Dan usou livremente (e sem pedir permissão) as logomarcas de Louis Vuitton, Fendi e Gucci para criar itens de vestuário e objetos personalizados, incluindo interiores de carros e calções de boxe. Enfrentou vários processos de marcas de luxo que alegaram ter seus direitos autorais violados e, em 1992, após uma batida em sua loja liderada por Fendi, decidiu não reabrir a butique.

No ano passado, em um desfile de moda na Itália, Alessandro Michele, diretor de criação da Gucci, mostrou uma jaqueta que se parecia com uma feita por Dapper em 1989. A Gucci a chamou de “homenagem” depois que vários críticos ridicularizaram o design como uma cópia. Então, em setembro, os dois anunciaram sua parceria.

As peças da parceria de Dapper Dan com a Gucci já foram usadas por Salma Hayek, que vestiu um top rosa e saia com “Dapper Dan” escrito nas costas, na festa do Oscar da Vanity Fair, e pelo DJ Khaled, que exibiu um agasalho bege em fotos e vídeos dele e de Diddy no Instagram.

“Criamos esse universo de cultura que surgiu do Harlem e que é paralelo a esse mundo que estava emergindo na Europa”, fala Daniel. “E então aparece esse homem incrível, Alessandro Michele, e por causa dele, por causa de sua valorização da cultura e da contribuição de todos para a cultura, foi possível que esses universos paralelos se encontrassem”. E acrescenta: “A Gucci o levou para o século 23”.

Outro ambiente do espaço que recebe fashionistas, músicos e atrizes apenas com horário marcado

Outro ambiente do espaço que recebe fashionistas, músicos e atrizes apenas com horário marcado Foto: Renell Medrano/Divulgação Gucci

A marca florentina encontrou e decorou o espaço de três andares na avenida Lenox consultando Dapper. O piso térreo tem o showroom principal e área de provas; o segundo andar é reservado para clientes VIP como Jay-Z e Beyoncé; e o porão é para produção. “O que eu tinha antes era como o terceiro andar. Agora estou no teto”, comenta Dapper, comparando a loja que ele dirigiu décadas atrás a esta. “O que temos aqui é o produto acabado do que eu estava tentando fazer lá.”

Desde os primeiros dias de seus negócios, Dapper Dan manteve uma forma particular de saudar os clientes. “As lojas de luxo do passado não tratavam as pessoas de cor com a dignidade que acho que elas merecem”, afirma ele. “Aqui eu estaria sentado e, quando os visse, saltaria para mostrar o quanto estava entusiasmado e correria para a porta. Daria a eles meu sorriso característico. Abriria a porta para saudá-los, perguntando como têm passado.”

Dapper diz que às vezes comenta, como se fosse uma indiscrição, que visitantes recebeu no dia anterior - um lance que faz os clientes quererem comprar algo mais chamativo, mais estiloso ou mais caro. “Dependendo de suas finanças, eles podem querer passar da conta”, diz. “Mas não podem ter o mesmo. Isso está fora de questão.”

O alfaiate Dapper Dan, em seu novo ateliê montado em parceria com a Gucci, no Harlem

O alfaiate Dapper Dan, em seu novo ateliê montado em parceria com a Gucci, no Harlem Foto: Renell Medrano/Divulgação Gucci

É aí que alguns dos detalhes entram em jogo. Primeiro, existem muitas opções de tecido. A Gucci produz todos eles, e alguns são exclusivos para Dapper Dan. “Uma mulher pode se vestir e ficar maravilhosa, mas quando ela coloca o batom, alguma coisa acontece”, disse ele. “O batom é como a introdução para aquele sorriso que vem vindo. Isso é o que são os tecidos. Uma introdução a algo que está acontecendo”.

Para ele, o design mais popular é o logotipo com o duplo-G. E dentro disso, uma determinada cor é a tendência. “Muitas pessoas vão primeiro para o pink”, afirma Daniel. “Esta é a era da ousadia. O Harlem está realmente ousado agora. O pink voltou. Mas muitos rappers não sabiam que a pessoa mais popular no Harlem, nosso campeão Sugar Ray Robinson, tinha um Cadillac rosa, jacarés rosas e uma roupa rosa.”

Se Dapper tem um tecido favorito? “Todos eles, dependendo de para onde vou e do que preciso representar quando chegar lá”, desconversa. “Fui a um clube de hip-hop uma vez usando terno e gravata. Todo mundo estava de camiseta. Me senti totalmente desconectado. Eu disse que isso nunca acontecerá de novo. Preciso ser adaptável”.

Depois de escolher um tecido, os clientes podem adicionar apliques para dar um toque personalizado às suas roupas. Ele descobriu que adicionar toques personalizados às suas roupas mantinha os falsificadores à distância. “Quanto mais enfeites forem associados ao artigo, é menos provável que eles o sigam da maneira que eu fiz”, explica o alfaiate. “Os copiadores, os contrabandistas, não podem vir atrás desses detalhes, dos apliques, dos botões de enfeites, dos ornamentos”.

Ele frequentemente pede aos convidados para trazerem um item que já possuem - um que eles acreditam que sirva bem. Dapper e sua equipe usam essas proporções como diretriz para saber como essa pessoa quer que a roupa funcione no corpo. “Quando se trata de fazer uma roupa cair bem, se deve ter suas medidas exatas, mas isso não lhe revela como elas gostariam que suas roupas lhes caíssem”, fala. Ele explicou que algumas pessoas querem um ajuste mais apertado, enquanto outras preferem um visual mais solto. “Não existe o feio “, afirma Dapper. “Não há pessoas feias e não há moda feia. As pessoas no poder determinam a moda. Eu só tenho que mantê-los coerentes com a forma como eles querem parecer.”

Day tem altos elogios para seu novo parceiro. E é rápido em apontar que seu trabalho no passado foi feito por respeito a etiquetas como a Gucci. “Se a Gucci fosse uma música naquela época, seria um jazz”, conta. “Ela tinha mais ritmo para oferecer do que as outras marcas. A Gucci tinha o tecido vermelho e verde. Tinha os Gs. Tinha mais cores. Tinha o material. Tinha mais elementos para eu brincar. Nenhuma das outras marcas ofereceu uma paleta tão grande”.

Quanto aos planos futuros, ele pensa grande. “No ano que vem, espero mostrar-lhe um interior de avião”, sonha. “Ouvi dizer que eles estão indo para o espaço, então talvez seja um interior de foguete”, conclui.

Tradução de Claudia Bozzo