Celso Kamura: Entre a moda e a política

Gabriela Marçal - O Estado de S.Paulo

Em entrevista exclusiva, o maquiador Celso Kamura fala de sua relação com a presidente Dilma e revela curiosidades sobre os bastidores da moda

O corte de cabelo com Kamura, em seus três salões, custa R$ 450

O corte de cabelo com Kamura, em seus três salões, custa R$ 450 Foto: Hélvio Romero/Estadão

Celso Kamura é o cabeleireiro oficial da presidente Dilma Rousseff desde o seu primeiro mandato. Além disso, é um dos profissionais mais badalados no mundo da moda, amigo íntimo do estilista Alexandre Herchcovitch, figura requisitada nos bastidores da São Paulo Fashion Week e autor de trabalhos marcantes para revistas e passarelas ao lado das grandes modelos brasileiras, incluindo a top Gisele Bündchen. Dilma e Gisele representam os universos distintos, pelos quais Kamura circula e se destaca. 

Em 1994, quando Gisele ficou em segundo lugar no concurso de modelos da agência Elite, ele cuidou da beleza da adolescente de 14 anos para o primeiro editorial da carreira dela. Vinte e um anos depois, ela é chamada de über model e ele, entre muitos projetos, tem a responsabilidade de cuidar dos cabelos e da maquiagem da presidente do Brasil.

Além dos políticos - as tesouras dele também fazem os cabelos da senadora Marta Suplicy e do prefeito de São Paulo Fernando Haddad, a clientela de Kamura é composta por celebridades como Angélica e Luciano Huck, Patrícia Poeta, Renata Vasconcellos e Ana Hickmann, Izabel Goulart e Grazi Massafera. Em 35 anos de carreira, Celso já assinou a beleza de revistas como Vogue, Elle, Cláudia, Glamour e Marie Claire. 

A fama fez os negócios renderem. Kamura é dono de três salões; em São Paulo, Campinas e, o mais recente, no Rio de Janeiro. Este último é uma sociedade com a apresentadora Angélica, sua cliente há mais de 15 anos. Nos três endereços, trabalham cerca de 200 profissionais, com os quais Kamura sente que tem um compromisso. “As coisas na minha vida foram acontecendo e crescendo. Um monte de gente hoje depende dos meus negócios e eu me sinto responsável por mantê-lo girando.” 

Em conjunto com a Toyota Tsusho, uma investidora de novos negócios do Grupo Toyota, em 2012, Kamura abriu um salão em São Paulo que oferece serviços mais simples e sem agendamento prévio. A linha de maquiagem ‘Make It Easy by Celso Kamura’ também é fruto dessa parceria e segue o conceito de beleza fácil. “Em beleza pode tudo. A coisa mais absurda, às vezes, ajuda a pessoa a criar um estilo”, acredita ele.

Nesse dois ambientes, moda e política, são exigidas habilidades muito diferentes? Você é o mesmo Kamura nessas duas situações?

Sou igual em qualquer lugar. Na Fashion Week, as pessoas são diferentes, as coisas são mais alegres. No mundo político, acho que eles gostam de mim porque sou leve, descontraído, eu carrego isso da moda. Consigo brincar com as pessoas, com a presidente, eu quebro o gelo. Cada trabalho me complementa. O salão me deu experiência para conhecer a personalidade de cada cliente, o mundo da moda me faz pesquisar, criar e as pessoas de cada lugar têm energias diferentes.

Como foi participar da segunda posse? Você já tinha planejado o que seria feito no cabelo e na maquiagem da presidente?

De verdade, a primeira vez para mim foi mais emocionante. A segunda vez… ai, sofri horrores. O sol destruía a presidente! Estava muito calor. Ela me falou: “No Palácio do Planalto, você pode me dar uma retocadinha e ir embora, não precisa ir para o Itamaraty”. Achei ótimo, mas pela televisão eu vi que ao sair do carro ela já estava derretendo. Então, foi um sofrimento, porque eu via que ela estava desmoronando! Quando ela estava cumprimentando os mais de 50 chefes de Estado, ela mesma pediu alguma coisa para se enxugar. E quem cuida da beleza fica desesperado. Quando foi esvaziando, eu a peguei e a coloquei em um cantinho, ela sentou desesperada e disse: “Estou passando mal”. O suor escorria. O meu desespero nessa posse foi ver que o calor estava acabando com ela e com a beleza.

Você é quem define o que será feito no cabelo e na maquiagem de Dilma?

Sou eu e ela. Mas ela já consegue se arrumar sozinha, ela tem a Isaura lá em Brasília que trabalha com ela, que a penteia desde o tempo de ministra, que continua indo lá escovar o cabelo dela quando é necessário, mas quando ela não vai a Dilma põe o “bobinho” e a maquiagem é ela mesma quem faz.

Com o tempo o trabalho com a Dilma começou a ficar mais fácil?

Não, acho que no começo foi mais fácil. Tudo que eu fazia estava ótimo, agora ela começou a ter vontades. “Não gosto disso, não gosto daquilo.” Mas com as outras clientes também é assim, no começo é tudo lindo, daqui a pouco… Uma das vontades dela [Dilma] que eu não gosto, é que ela quer que eu corte todo o cabelo dela com a tesoura e eu acho que desfiado com navalha o cabelo fica mais levinho. Mas ela tem aflição da navalha. Hoje, ela sabe que eu sou rápido, então ela exagera. Já arrumei a Dilma em 15 minutos. Ela simplesmente levanta e fala: “Deu”!    

Você gosta de atender políticos?

Atendo pessoas da política porque gosto delas, sabe quando bate? Virou uma loucura, chega a época de campanha e o povo me procura acreditando que dá sorte. Eu atendo, arrumo os políticos para foto, esse é o meu trabalho. Até com a presidente, todo mundo sabe que ela é difícil. Mas dá para conversar com ela, passar umas horas bacanas. Também é uma honra conhecer coisas que só ela como presidente pode me apresentar.

Como foi o início do trabalho com a Dilma?

Quando o João Santana começou a trabalhar na campanha e precisou de uma imagem, ele me procurou. Ele me conheceu por meio da Marta [Suplicy].

Kamura acompanhou Dilma nos debates políticos da campanha presidencial

Kamura acompanhou Dilma nos debates políticos da campanha presidencial Foto: Ap

Você tem algum talento especial para atender políticos?

Acredito que sou um profissional e a minha vida é mexer com todo tipo de gente. Sempre consegui conviver, dialogar, entender. Acho que a descrição é importantíssima. Não só com políticos, mas com minhas clientes também, com celebridades... Não vou sair falando da vida dos outros. Posso comentar sobre a rotina de beleza, um pouco sobre a personalidade, mas nunca vou falar: “Fulano foi não sei onde”. Na beleza, eu consigo fazer desde o mais careta até o mais moderno.

Hoje você é mais empresário ou mais cabeleireiro e maquiador?

Estou numa fase meio empresário. E ainda  atendo, tenho a agenda lotada. É meio confuso, fico doidinho. Estou vendo essa carga de responsabilidade, mas não dá mais para parar tenho que continuar em frente. Quero ver no meu salão outros profissionais se destacando, fazendo sucesso. Quero descobrir novos talentos.

Depois de 35 anos de carreira, três salões, uma clientela de políticos e celebridades, qual sonho profissional ainda precisa ser realizado?

Hoje, tenho a intenção de vender o conceito de que beleza abre portas. A beleza traz um monte de coisas boas para as pessoas, inclusive profissionalmente.

Como esse conceito conversa com a tendência de usar uma maquiagem mais leve e natural?

A maquiagem veio para ficar, para crescer e aparecer. Esse conceito da beleza fácil é para o dia a dia. É uma coisa cultural. Para à noite, não vai sair de moda o olho preto, boca vermelha... Acho que a mulher de sucesso deveria andar sempre maquiada, mesmo que seja uma maquiagem nude. A vaidade faz a pessoa ficar melhor.

O que é mais fácil: política ou moda?

Acho que política é mais fácil. Na Fashion Week, você precisa criar e usar a criatividade, inventar histórias sobre a beleza. No mundo político, tenho que deixar a pessoa bonita do jeito que ela é, não posso inventar. Não posso fazer um “makão” na Dilma, um cabelo rock’n’roll no Haddad, tenho que pensar na imagem que eles querem passar para o público. E isso para mim é fácil, porque já tenho o salão e atendo clientes com cara de vida real.