Casar é fácil

Elizabeth Wurtzel - O Estado de S.Paulo

É tão simples como querer ser feliz

Eu não esperava me apaixonar aos 46, e não esperava planejar um casamento aos 47. Exceto que sempre espero ser surpreendida.

Gostaria de dizer que não sei por que nunca entrei nessa até agora, mas seria uma grossa mentira. Nunca me casei porque quem quereria? Fui a pior namorada de todos os tempos. E sim, sou a ex-namorada maluca da qual você ouviu falar. Não dava a mínima para a hora do dia, o momento do ano ou o tempo em geral. Talvez simplesmente não tivesse consideração. Não é que eu ligava para namorados às 2 da manhã porque alguma coisa estava errada: ligava porque gostava de falar no escuro quando não havia mais nada legal para assistir na TV.

As pessoas que querem casar param de se comportar como loucas por amor e começam a agir com inteligência

As pessoas que querem casar param de se comportar como loucas por amor e começam a agir com inteligência Foto: Hannah K. Lee

Também liguei quando alguma coisa estava errada, e sempre havia alguma coisa errada, porque eu conseguia ficar seriamente incomodada com alguma coisa dita de passagem entre o couvert e a entrada na noite anterior, e que se transformava em pensamentos obsessivos e longas e intensas conversas que se estendiam durante o expediente e as reuniões ininterruptas de todo o dia seguinte. Eu precisava – sempre precisava absolutamente – resolver as coisas quando isso não era absolutamente conveniente. Eu telefonava tantas vezes que era impossível me ignorarem.

Quando a tecnologia me permitiu ser absorvente em muitos formatos, minhas longas mensagens de voz se tornaram mensagens de texto mais longas e os mais longos e-mails. Eu costumava ficar histericamente aborrecida ou furiosamente zangada sobre coisas à toa, e relacionamentos inteiros se tornaram sobre comunicação falha e nada mais. Eu engolia meio frasco de tranquilizantes por algum mal-entendido. Faria isso na véspera de Ano Novo.

Fiz isso com todo o mundo: deixei salas cheias de pessoas reféns de meus humores instáveis. Era uma ruína emocional e não sabia como não ser. Fazia os homens de quem gostava terem medo de mim.

Não que eu tivesse toda a culpa por minha vida amorosa confusa. Mantive o mesmo relacionamento com pessoas diferentes por 30 anos. Conheço um mau passo quando vejo um e gosto do que vejo. Se um homem bebesse Jameson –o whiskey irlandês – de café da manhã e depois arrebentasse a garrafa nos ladrilhos do banheiro possivelmente sem querer, ele era meu namorado.

Uma vez, eu pretendia encontrar alguém para jantar, e a hora marcada chegou e passou sem sinal do meu par na mesa para dois. Em algum momento depois da meia-noite – bem depois – ele me ligou para dizer que estava numa casa à entrada do Túnel Holland e precisava que eu fosse encontrá-lo. Ele estava duro e precisava se safar. Com essa informação mínima, fui para oeste pela Spring Street na direção do Rio Hudson e o localizei numa pequena construção branca condenada ao lado de uma pilha de carros à espera de seguirem para Jersey City. Não sei que tipo de radar eu devia ter tido para encontrar esse lugar, mas foi seguramente o desespero que me arrastou e me fez sentir viva. Esse sentimento me arrastou por anos de fiascos amorosos.

A se acreditar em televisão, cinema, romances, canções, blogs e todas as outras mídias disponíveis, meu comportamento não era incomum e minha vida amorosa não era atípica. Nossa cultura é animada por relacionamentos ruins e as conversas que as mulheres fazem sobre eles enquanto bebem coquetéis de vodca aromatizados com lichia e romã. Um esforço mental necessário para resolver os problemas no Iraque e na Palestina é mobilizado na análise mais amena de comportamentos destrutivos em encontros amorosos. Pouco importa que seja evidente que estamos perdendo nosso tempo.

A maioria das pessoas fica farta de ficar farta aos 28 anos, que é a idade média para casamentos nos Estados Unidos. Para mim foi 45. Imagino que eu simplesmente goste de uma inspeção das tropas. Pois um pouco antes de conhecer meu noivo, estava totalmente sozinha. Me entregava ao tédio; achava-o repousante.

Eu me desmanchava em lágrimas quando meus relacionamentos fracassavam, o que ocorria o tempo todo. Queria amar e ser amada, mas me portava mal e tinha um gosto terrível. Todas as pessoas que dizem que querem estar casadas, mas não estão, estão fazendo a mesma coisa. Todas as estatísticas sobre como é difícil encontrar alguém para amar neste mundo – neste mundo de 7 bilhões – não computam as escolhas que fazemos. Somos a soma de nossas decisões: não é que a sorte não tem nada a ver com isso, mas que ela não existe.

É difícil escrever um livro e publicá-lo. É difícil ter estabilidade no departamento de astrofísica de Berkeley. É difícil ganhar o Troféu Heisman. Mas é fácil casar: cerca de 90% dos americanos ainda o fazem em algum momento de suas vidas.

Não é preciso uma indústria de autoajuda. As pessoas que querem casar param de se comportar como loucas por amor e começam a agir com inteligência. É tão simples como querer ser feliz.

Quando eu estava pronta para me apaixonar de verdade, parei de me comportar mal e conheci uma pessoa excelente, excelente para mim. Melhorei e meu gosto melhorou. Meu noivo é inteligente , bonito, talentoso e decente. Tudo nele é minha coisa favorita nele.

Ele me pediu em maio, sete meses apenas depois de nos conhecermos. Sabia que ia me casar com Jim na noite em que o conheci, numa leitura em Chelsea, no outono, de modo que não pareceu cedo demais.

Muitos romances terminam após três anos porque esse é seu limite lógico, o que não significa que o tempo foi desperdiçado: a maioria dos relacionamentos, incluindo casamentos, termina, mas continuamos a tê-los e não é porque nos odiamos. Acredito que nós todos sabemos no que estamos nos metendo quando nos envolvemos com outra pessoa, e vale a pena, seja qual for a duração. Um coisa de toda a vida é adorável, mas uma “ficada” de uma noite também é adorável. Foi sorte minha não ter me casado como os cerca de 374 homens com quem me relacionei antes de Jim. Não sei quantas vezes deveria ter me registrado na Tiffany's e comemorado com extravagância os erros que não cometi. Teria muitos jogos de talheres de prata maravilhosos, colheres de servir inclusive. Teria uma infinidade de molheiras.

De modo que não tenho nada a lamentar, afinal.

Tradução de Celso Paciornik