Casal pronto para comemorar 40 anos de casamento, mesmo depois de o 'pai' se tornar uma mulher

Angile Leventis Lourgos - O Estado de S.Paulo

Embora 45% dos transexuais ou pessoas iconoclastas em se tratando de gênero afirmem ter colocado um fim no seu casamento ou parceria, os outros 55% ou continuam unidos ou se separam por outros motivos

"Num certo sentido eu também passei por uma transição", disse Ellen, 62 anos. "Fizemos uma transição juntos. É um trabalho conjunto."

"Num certo sentido eu também passei por uma transição", disse Ellen, 62 anos. "Fizemos uma transição juntos. É um trabalho conjunto." Foto: Luke McGuff/ Creative Commons

A noiva e o noivo, numa cerimônia tradicional na igreja, em meados dos anos 70, prometeram permanecer fiéis um ao outro até a morte.

Eles foram viver numa casa num subúrbio perto de Lake Zurich, no condado de Lake, Illinois; a mulher assumiu os deveres da casa e o marido trabalhava como gerente de projetos de construção. Em 12 de janeiro de 2006, enquanto lavava a louça após o jantar, a mulher perguntou casualmente ao marido que tipo de presente ele gostaria no próximo aniversário. "Um vestido preto e sapatos de salto", ele respondeu.

A mulher riu. O marido não.

Nessa noite, o marido revelou ser um transexual, explicando que seu nome na verdade era Erica e que ele se sentia uma mulher há muito tempo. A revelação foi um choque para sua mulher, Ellen Maurizio, que conhecia o marido como um homem desde que começaram a namorar na escola secundária.

Mas o casal continuou junto apesar da mudança verificada no seu casamento e pretende comemorar seu 40º aniversário de união em maio.

"Num certo sentido eu também passei por uma transição", disse Ellen, 62 anos. "Fizemos uma transição juntos. É um trabalho conjunto".

Embora manter um casamento nessas condições possa soar algo implausível para muitos, o casal Maurizio não é o único em sua união não tradicional. Embora 45% dos transexuais ou pessoas iconoclastas em se tratando de gênero afirmem ter colocado um fim no seu casamento ou parceria, os outros 55% ou continuam unidos ou se separam por outros motivos, segundo o National Trangender Discrimination Survey, de 2011, e a National LGBTQ Task Force.

"Esses dados indicam que os relacionamentos são mantidos em número muito maior do que alguns poderiam esperar", indicou o estudo.

O casal Maurizio afirma que quase todos os casamentos que conhecem em que um dos cônjuges se revelou um transexual foram dissolvidos. E decidiram contar sua história, em parte para ajudar outras pessoas que enfrentam o mesmo dilema.

De início Erica Maurizio propôs à mulher que o deixasse. "Se quiser se divorciar, fique com tudo", lembra de ter dito à sua esposa. "Ser eu mesma é mais importante do que todos bens materiais à minha volta. Se quiser se divorciar não vou culpá-la, porque eu me casei com você fingindo outra coisa. Já sabia quem eu era quando estava diante do altar".

"Calma", Ellen Maurizio lembra-se de ter respondido. Embora pega desprevenida, ela disse que jamais sentiu ter sido intencionalmente enganada e não quis se separar. O casal ficou sentado à mesa da cozinha até as três horas da madrugada, procurando saber quem era Erica Maurizio e o que isto significava para a vida de ambos.

Pouco mais de um mês depois, Ellen se dispôs a dar a Erica o presente pelo qual ela ansiava. "Sabe o que vou lhe dar no Dia dos Namorados?", disse Ellen. "Aquele vestido preto". "E os sapatos de salto de couro", acrescentou Erica, 61 anos, sorrindo ao lembrar quando abriu a caixa.

Eles haviam se apaixonado no verão depois de se formarem na escola secundária. Ellen Maurizio foi imediatamente atraída por aquele jogador de futebol de caráter dominante. Lembra de ter derramado um milk-shake de morango no Ford Mustang dourado 1972 do namorado, que interiormente ficou furioso, mas não deixou transparecer na frente da bela morena no assento ao lado.

Fotos do casamento na sala de estar mostram Ellen Maurizio usando um vestido de noiva de mangas longas e um véu de renda e Erica Maurizio usando um smoking branco. Décadas depois, Ellen saberia que o marido escolhera a cor branca porque secretamente gostaria que fosse um vestido de casamento, que ela pudesse ter a noiva também.

Erica estava determinada a que ninguém, apenas Deus, soubesse que se sentia uma mulher, sensação que durante grande parte da sua vida não conseguia explicar ou compreender. "Você sente frustração, desespero, depressão", afirmou. "E à medida que envelhecia tudo isso ficou cada vez mais frequente. E se tornou um tsunami ameaçando me engolir".

Seu estado mental alarmou Ellen Maurizio até que ela finalmente teve conhecimento da situação. Ela não possuía nenhum conhecimento de transexualidade e tinha muitas perguntas. A primeira era se Erica havia sido um dia infiel. A resposta foi não. A segunda foi se ela sentia atração por homens e a resposta novamente foi não. Seu amor pela mulher era autêntico e não mudou. "Ela é minha mulher, minha melhor amiga e amante", disse Erica. "Sabia que era alguém que me aceitaria e me amaria simplesmente pela pessoa que eu era".

A psicóloga de Washington Virginia Erhardt disse ter aconselhado mais de cem casais em que um dos parceiros era transexual ou não se enquadrava em nenhuma categoria, e ainda acha profundo o fato de casamentos sobreviverem a essa situação.

Em seu livro, "Head over Heels: Wives Who Stay with Cross-Dressers e Transsexuals", esposas de transexuais contam experiências de perda, renovação e aceitação. "Sentia que meu marido me olhava quando eu vestia ou me maquiava com inveja e não admiração, o que não alimentava exatamente o meu ego", disse uma esposa. "Eu me indignava por ter de manter um segredo não desejado e as suas consequências, como não poder deixar meus filhos irem para nossa cama no sábado de manhã porque seu pai estava usando uma camisola".

"Surpreendentemente, tudo isto fortaleceu nossa relação", disse outra esposa, no livro. "Jamais pensei que havia um lado inacessível de Nathaniel que não podia ser revelada por alguma razão".

Ellen Maurizio começou a gostar do parceiro mais como mulher, a mesma pessoa com que se casara, mas mais feliz e sem a pressão de preservar uma fachada masculina

Ellen Maurizio começou a gostar do parceiro mais como mulher, a mesma pessoa com que se casara, mas mais feliz e sem a pressão de preservar uma fachada masculina Foto: Philippa Willitts/ Creative Commons

Ellen Maurizio disse que o maior obstáculo no caso dela foi o temor do desconhecido. Houve um período em que Ellen habitualmente olhava através da sala de estar para ver se o sol já tinha se posto para então ela e o marido saírem de sem que os vizinhos os vissem.

No verão depois de Erica Maurizio ter se revelado transexual, ela se vestia como homem durante a semana de trabalho, mas nos fins de semana usava saia e meias de nylon e ia com a mulher a um clube que aceitava transexuais. 

Até então, não eram o tipo de casal que vai a boates. Em sua primeira saída foi Erica que tropeçou com seus sapatos de salto. 

Eles começaram a sair regulamente, para dançar, jogar bilhar até a madrugada. Ellen ficou com um pouco de ciúme a primeira vez que um homem aproximou-se do marido e cochichou em seu ouvido que era uma mulher bonita, mas Erica garantiu que sentia atração por mulheres. Eles afirmam que embora demonstrem afeição em público ainda é um pouco difícil, em casa, ficarem de mãos dadas, se abraçarem ou compartilhar a cama.

Embora heterossexual, Ellen se qualifica como uma lésbica face à situação. Quando as mudanças estavam completas, ela declarou as quintas-feiras "sem transição", uma espécie de moratória um dia na semana quanto a tudo que envolvesse transgênero. "Disse a ela que teria e terei crises emocionais porque tenho todo o direito a isto".

A terapia de reposição hormonal começou a suavizar os contornos do rosto de Erica e acrescentou curvas no seu corpo. Ela voltou a trabalhar. Teve 2.500 fios de cabelo transplantados , mas não fez uma reconstrução facial completa a pedido da mulher. "Não queria perder tudo", disse Ellen.

Viajaram juntos para o Colorado para uma intervenção cirúrgica de mudança de sexo em 19 de setembro de 2008 e para reformular o atestado de nascimento de Erica. Ellen deu ao marido um anel de casamento mais feminino com diamantes em volta.

Como o casamento de pessoas do mesmo sexo não era legalizado em Illinois ainda, o casal também consultou um advogado para assegurar que sua união continuaria legalmente válida após a transição.

Houve casos históricos em que casamentos não foram reconhecidos porque um dos esposos era transexual. Um tribunal no Texas recusou-se a reconhecer uma transexual como mulher quando ela iniciou um processo depois da morte do marido; como casais do mesmo sexo não podiam contrair matrimônio no Texas na época, o tribunal considerou o casamento inválido. E em 2002 a Suprema Corte de Kansas decidiu anular um casamento entre uma transexual e o marido.

Situações difíceis como estas foram solucionadas com decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos declarando legais os casamentos entre pessoas do mesmo sexo em todos os Estados, disse Camila Taylor, advogada de Chicago. "Esta forma particular de discriminação não pode mais existir contra as pessoas transexuais. Não importa qual o seu sexo ou a sua identidade de gênero".

Ellen Maurizio precisou de 18 meses para aceitar as mudanças no marido e no seu casamento. Eles informaram parentes e amigos, cujas reações foram desde a incredulidade à rejeição e o apoio. Ela ficou surpresa ao ver que o processo aprofundou sua consciência de si mesma, deixando de se preocupar muito com o que os outros pensavam.

E começou a gostar do parceiro mais como mulher, a mesma pessoa com que se casara, mas mais feliz e sem a pressão de preservar uma fachada masculina.

Algo pareceu um pouco errado para Rob Maurizio quando seu pai foi buscá-lo no aeroporto para as férias de verão após o seu segundo ano de bacharelado na faculdade em 2006. O pai estava com os cabelos mais longos. As unhas curtas, mas feitas por manicure. Quando apertaram as mãos, sentiu que o aperto era mais fraco.

Mais tarde os pais se sentaram com ele na mesma mesa da cozinha e explicaram a situação.

Eles disseram que seu irmão mais velho, Anthony Maurizio, que tinha necessidades especiais, começou a usar pronomes femininos no início. Rob não estava pronto para a situação. Sentiu o seu modelo masculino esvanecer. "Não quis ver a situação no início. Tentava apenas preservar a lembrança daquela pessoa. Sob certos aspectos, fiquei de luto".

Rob Maurizio preocupava-se de que a falta de aceitação corroesse a relação com o pai que depois de se revelar tornou-se um estranho para seus próprios pais e único irmão. Segundo Ellen demorou anos para os parentes aceitarem Erica.

A família passou um sábado recente colhendo maçãs num pomar em Woodstock. Erica Maurizio colheu uma, as mãos com as unhas esmaltadas de rosa e colocou a fruta nos lábios da mulher para ela dar uma mordida.

Os filhos agora sabem e amam o pai como uma mulher. Eles o chamam de Erica em público para evitar confundir outras pessoas. Em casa ele é o "papai". "Porque esta é a nossa relação", disse Ellen Maurizio. "Isto não vai mudar". 

Tradução de Terezinha Martino