Camila Coutinho: blogueira S/A

Marina Domingues - O Estado de S.Paulo

De blog de fofocas à mina de ouro: como a blogueira mais influente do Brasil chegou lá e quais serão os seus próximos passos para se manter no topo

De blogueira a empresária, Camila Coutinho traçou trilha de sucesso

De blogueira a empresária, Camila Coutinho traçou trilha de sucesso Foto: Bruna Valença

Em 2006, quando todo mundo ainda estava aprendendo a brincar com a internet, a recifense Camila Coutinho criou um blog, o Garotas Estúpidas. Oito anos se passaram, e a lista de conquistas da jovem pernambucana não para de crescer: seis milhões de pageviews por mês, quase um milhão de seguidores no Instagram, parcerias com redes de fast fashion, produtos licenciados em seu nome, colaborações com marcas internacionais e a posição de blogueira de moda mais influente do País, em lista do site Signature 9,  que faz uma análise através do número de pageviews, compartilhamentos em redes sociais, de dados de popularidade, estilo pessoal, engajamento e qualidade do conteúdo. Com tantos louros, Camila se tornou uma máquina de fazer dinheiro e tudo que ela toca vira ouro, vide a coleção de camisetas para a Riachuelo, que sumiu das araras em horas. Fã do mundo de celebridades e com um estilo hi-low, que mistura sandália da Balenciaga com peças de gigantes do varejo, a blogueira é gente como a gente: se relaciona com suas leitoras como se fosse amiga de todas, cria laços de afinidade e é acessível a quem quer chegar até ela, seja em comentários, em e-mails ou em restaurantes, já que é reconhecida nas ruas constantemente. Aqui, ela conta sua trajetória e os planos de expansão para o futuro:

Como começou o blog?

O Garotas Estúpidas nasceu há oito anos, fruto de uma brincadeira, na verdade. Sempre gostei de fofoca de celebridades, e nessa época as famosas do momento eram Paris Hilton, Lindsay Lohan e Britney Spears. Criei o site para compartilhar as novidades desse universo com duas amigas, até o nome era relacionado a isso: a cantora Pink tinha lançado uma música que chamava ‘Stupid Girls’, que era tirando sarro dessa turma de celebridades. Minhas amigas saíram em um mês de blog, e eu continuei fazendo. Como era formada em Moda, sempre tive interesse pela área, e naturalmente fui envergando mais para esse lado.

Quando foi que você percebeu que poderia se tornar um trabalho?

Com dois anos de site eu comecei a notar que os acessos tinham crescido muito. Bom, muito para mim na época, eram duas mil visitas por dia, e já tinha um anunciante e usava o Google AdSense (sistema de anúncios do Google). Trabalhava em uma marca de surf de Recife, e vi que o blog já estava me proporcionando o mesmo que meu salário. Conversei com meu pai, disse que via futuro no blog e ele me deu apoio total. Disse para eu registrar o nome, comprar o domínio e profissionalizar a situação mesmo.

Quanto tempo demorou para o blog te deixar independente financeiramente?

Acho que com três anos, mais ou menos, eu já estava com planejamento em longo prazo, e já ganhava um dinheiro legal.

E como você fez para entender o processo financeiro e comercial nesse momento?

Isso foi uma mudança muito grande, porque comecei uma coisa totalmente amadora e me encontrei profissionalmente ao longo do caminho. E eu fazia tudo: conteúdo, comercial, cobrança, pagamento, tudo mesmo. Não sabia por onde começar! Era muita coisa, então eu comecei a delegar. Nesse momento meu pai e meu marido, na época namorado, me ajudaram muito, porque homem leva mais jeito para essas coisas. Registrei como empresa bem cedo, organizei tudo para ser o mais profissional possível, e aos poucos fui aprendendo a lidar com todos os processos. Hoje o blog tem um setor comercial e um financeiro, que cuidam disso para mim.

Na sua opinião, qual é o ponto forte do seu blog?

Sempre valorizei muito a linguagem e o visual do blog. Porque na época que comecei não existiam blogs de moda no Brasil, eram mais diários pessoais das pessoas, mas nunca voltado só para o tema. Então sempre tentei me aproximar ao máximo das leitoras, com uma linguagem mais informal, explicando as coisas com mais detalhes, sem usar termos técnicos ou palavras que elas poderiam não entender. Era, e ainda é, uma conversa, uma troca de informações.

Alguma vez se arrependeu do nome?

Nunca. O nome Garotas Estúpidas sempre rende assunto, porque, quem não conhece, costuma perguntar de onde vem o título, e assim a conversa sempre continua. No começo causava mais risos, hoje, pelo menos no Brasil, as pessoas já estão acostumadas.

Camila Coutinho durante projeto Journey of a Dress, de Diane von Furstenberg

Camila Coutinho durante projeto Journey of a Dress, de Diane von Furstenberg Foto: Bruna Valença

E como são os números do blog e das redes sociais hoje?

A gente está com seis milhões de pageviews por mês, 918 mil no Instagram, 600 mil no Facebook e 70 mil no YouTube, que é minha nova empreitada, fiz o canal esse ano.

Por que você decidiu apostar no YouTube?

O YouTube me ligou! Parece brincadeira, mas eles me ligaram para saber porque eu não tinha um canal, porque não produzia conteúdo em vídeo. Em oito anos de blog, as pessoas sempre me perguntavam se tem espaço para mais blogs, e eu sempre disse que sim, tem muito espaço. Essa nova forma de comunicar é só evolutiva, não retrocede mais. Então a internet só vai mudando, crescendo cada vez mais e, com isso, adicionando mais ferramentas. E quem não se atualiza, fica para trás, perde aquilo que você já conquistou. Por isso comecei a investir nesse meio, e estou amando. Já tenho alguns quadros fixos, como o De Carona, no qual entrevisto alguém no carro, o reality show que faço com a Victoria Ceridono, da Vogue, e mais um que vai estrear ao que vem.

Na sua opinião, quando foi o boom do GE?

Não sei escolher um boom, tive vários momentos marcantes com o blog. Uma hora as marcas estão anunciando muito, depois uma marca me convida para uma campanha, fazer a parceria com a Corello, por exemplo, foi muito importante, porque vi ali que as pessoas tinham interesse em mim como personagem, não só no Garotas Estúpidas. Depois participar de programas de televisão, tudo é muito legal.

E como as parcerias nasceram?

As marcas começaram a me procurar, e isso só foi crescendo. É uma mídia que era nova no começo, mas existem diversas maneiras de comunicar, e chega direto ao público-alvo. É uma mídia mais barata que as mídias convencionais, como TV ou revista, e por isso é um caminho de ascensão. Hoje tenho projetos que levo até as marcas, para apresentar em busca de parceiros, como é o caso do reality show.

Qual foi a sua primeira parceria forte no mundo da moda?

Com certeza a Riachuelo, que eu participei do Fashion Five, que criei uma linha para a rede, e esse ano voltei a colaborar com eles, com uma coleção de camisetas para a Copa do Mundo, que foi um sucesso, nem eu consegui comprar, de tão rápido que esgotou nas lojas. E agora a Dumond, que já faz um ano que eu tenho uma parceria com a marca, e crio coleções de sapatos. Essas duas são as mais significativas. Acho que essas colaborações são um dos caminhos que as blogueiras vão seguir, acho que mostra muito da nossa força como personalidade também, é uma evolução. Passei a trabalhar com a Karina Sato, que cuida da minha imagem e dessa questão de licenciamentos.

Assim como qualquer veículo, você sofre da questão ética de ter um anunciante que também aparece no conteúdo. Como você lida com isso?

Primeiro de tudo, um veículo tem que capitalizar de alguma maneira. Assim como as revistas vendem conteúdo, sinalizado como promocional, os programas de televisão vendem merchandising, nas novelas. Cada meio de comunicação tem sua maneira de inserir publicidade. A questão é que com os blogs isso começou de uma maneira amadora, e as meninas foram aprendendo as regras de ética ao longo do tempo, isso é muito natural. E isso parte das blogueiras e das agências também, que não sabiam como isso funcionava. Mas hoje isso está bem maduro, no meu caso, por exemplo, eu só faço publipost de um produto que acredito. Já errei algumas vezes, e percebi que não estava bacana e mudei. Se eu conseguir apresentar aquele conteúdo para o leitor de uma maneira que seja útil, ótimo, estará lá, sinalizado como publicidade. A gente tem conteúdo patrocinado.

E hoje em dia você ganha mais com parceria, publipost, anúncio?

Todos os lados funcionam juntos. Porque nunca é uma coisa só, as marcas trabalham em várias frentes. Por exemplo, quando tenho uma parceria maior, já inclui mídia também.

Quando você apareceu na mídia internacional pela primeira vez?

Em uma matéria da Vogue francesa, que era assim ‘Giro pelo mundo, 45 blogs que você precisa conhecer’, e o Garotas Estúpidas era um deles. Depois surgiu a lista do Signature 9, que nem sei dizer quando saí pela primeira vez, porque não acompanhava. Mas a posição recorde do blog foi em 4º lugar do mundo, o primeiro do Brasil. E olha que o blog nem é traduzido para inglês.

Como você cuida da sua imagem fora do Brasil?

Até agora aconteceu de forma muito orgânica, mas é um projeto para 2015, investir para crescer no cenário internacional.

Mas você já fez uma parceria com a Diane Von Furstenberg mesmo sem esse planejamento. Como surgiu esse encontro?

É uma marca que eu tenho um relacionamento muito legal. Conheci a Diane quando ela veio ao Brasil pela primeira vez, fui uma das quatro escolhidas para fazer perguntas para ela em uma palestra na FAAP, em São Paulo. Depois cobri o desfile dela, e em janeiro, fui cobrir a festa em Los Angeles, dos 40 anos do wrap dress. Era a única brasileira. Disso surgiu a oportunidade de fazer esse vídeo, que faz parte da comemoração do aniversário do vestido, que é o Journey of a Dress. Também sou a única brasileira envolvida no projeto.

Você se vê como blogueira para sempre?

Gosto muito de comunicar e espero fazer isso para sempre. Participei de programas de televisão bem legais agora, não sei para onde isso pode me levar. Sou muito feliz na internet. Meus planos são trabalhar minha imagem internacional e fortificar licenciamento. Não sei o que o blog vai virar, mas não por minha culpa, por uma evolução natural: o que o mundo vai querer daqui dez anos? Pode ser que a maneira de comunicar seja outra. Mas é isso que eu gosto de fazer.