Bullying: um fenômeno que ainda existe

Luiza Cervenka - O Estado de S.Paulo

Dicas de especialistas sobre como prevenir e como enfrentar o fenômeno, que preocupa pais e educadores

Estudo feito pela Unicef com base em dados de 190 países aponta que uma em cada três crianças, com idades entre 13 e 15 anos, em todo o mundo, são regularmente vítimas de bullying na escola

Estudo feito pela Unicef com base em dados de 190 países aponta que uma em cada três crianças, com idades entre 13 e 15 anos, em todo o mundo, são regularmente vítimas de bullying na escola Foto: Thomas Ricker/ Creative Commons

Em 2010, tivemos um boom midiático do fenômeno bullying no Brasil. Com o passar dos anos, pouco ouvimos falar. O bullying diminuiu ou ele foi esquecido? Será que meu filho está sendo vítima ou agressor? Como faço para evitar que ele se envolva? A culpa é da escola? Ainda são muitas as dúvidas que afastam os pais dos reais problemas de seus filhos. 

O que é Bullying mesmo?

Esse termo é aplicado no caso de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente, cometidas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder, como aponta a especialista no assunto Cleo Fante.

Segundo o estudo feito este ano pela Unicef sobre a violência contra crianças "Escondido à vista", com base em dados de 190 países, uma em cada três crianças, com idades entre 13 e 15 anos, em todo o mundo, são regularmente vítimas de bullying na escola. Alguns estudos iniciais apontam que os casos de bullying vêm aumentando, afetando cerca de um terço de crianças todo mês. Por isso a importância de dar atenção e empreender esforços para entender e saber orientar os filhos sobre esse fenômeno, que continua atual.

Meu filho pratica ou sofre bullying?

As vítimas de bullying podem ter poucos amigos, ser passivas, quietas e não reagir efetivamente aos atos de agressividade sofridos. Tampouco conseguem contar o ocorrido a um adulto com medo de mais repressão por parte do agressor. Muitas passam a ter baixo desempenho escolar, resistem ou recusam-se a ir à escola, chegando a simular doenças. Trocam de colégio com frequência ou abandonam os estudos. Já os agressores podem contar vantagens para a família e amigos dos atos praticados, ou ter atitudes agressivas com outras pessoas fora da escola.

"Se os pais já estão atentos a um tipo de rotina que a criança costuma a ter, então vai ficar mais fácil identificar que determinado comportamento está diferente. Seja porque está mais inibido, ou o tipo de roupa mudou, porque pode haver agressões físicas. Se há uma mudança de comportamento, fique atento. Mas quando vemos uma família que já não está tão atenta à rotina da criança, fica mais difícil de identificar. Se não há acompanhamento rotineiro, não dá para esperar que os pais notem quando o comportamento se modifica", alerta Thais Azevedo, psicóloga da clínica infantil Núcleo Criad em Natal, no Rio Grande do Norte.

Há jovens que desenvolvem extrema depressão e podem tentar - até ou cometer - o suicídio. Mesmo quando as consequências não são dramáticas dessa forma, pode haver traumas que perduram até a vida adulta.

Thais Azevedo alerta sobre a possibilidade de confusão entre o bullying e doenças psiquiátricas: "A prática do bullying sempre existiu, apenas foi dada uma nomenclatura para isso. Se qualquer vítima fosse um potencial assassino, estaríamos desmerecendo a possibilidade que elas têm de desenvolver resiliência, de resignificar experiências que passaram.".

Algumas crianças que sofreram bullying cresceram sem traumas e se tornaram adultos equilibrados, mas outras crianças ficam traumatizadas para o resto da vida. Thais Azevedo explica que o que determina o tipo de trauma são as experiências anteriores dessa criança, não só do espaço escolar, mas também familiar. "Se ela teve experiências que tenham mexido com a autoestima, com a identidade, e há uma situação de bullying que venha interferir no que já estava machucado antes, com certeza vai ser um fator muito favorável para que ela venha a desenvolver o trauma e veja essa situação como traumática".

Mas o que cria um "valentão"? 

Segundo Nelson Pedro-Silva, Professor de Psicologia da  Universidade Estadual Paulista (Unesp), isso ocorre quando a criança já foi vítima e é influenciada pela sociedade que mostra que a única forma de resolver os conflitos é fazendo uso da violência. "Sem contar que as pessoas não estão suportando as frustrações e os limites colocados pela sociedade. Há, ainda, sujeitos que buscam destruir todos aqueles que representam o diferente, como o gay, o obeso, o negro, o índio", complementa.

Para diminuir a agressividade dos "valentões" e fazê-los ver o mal que causam, muitos querem que eles sofram como fizeram o outro sofrer. Porém, Thaís Azevedo aponta que quando uma criança agride a outra, por qual motivo for, há falta de empatia com a vítima ou com o que ela sofre. "Não necessariamente precisa desenvolver a empatia passando pela mesma situação. O agressor de bullying não apareceu de uma hora para a outra. Ele precisou se apoderar desse local de superioridade para se sobressair em um espaço. Talvez tenha sido esse o subterfúgio que ele arranjou para poder sobreviver. Ele não vai precisar que alguém mande nele porque talvez ele já tenha sofrido isso em outros espaços também e nem por isso desenvolveu empatia para poder mudar esse papel de agressor", pondera a psicóloga.

A orientadora pedagógica Olivia Labriola Negreiros acredita que a prevenção é a melhor solução para a diminuição do bullying e aumento da empatia. "Recentemente, fizemos uma pesquisa, com o nome 'pesquisa da amizade', para a criança contar se sentia-se agredida por alguém, alguma brincadeira que eles não gostaram, apelidos que eles não gostaram. A gente tem um trabalho do infantil ao ensino médio, de prevenção".

Qual o papel dos pais?

Anos atrás, a preocupação dos pais era se o filho tirava boas notas ou não. Agora, o temor do bullying só aumenta. Sempre fica a dúvida do que se pode fazer, se a atitude deve partir dos pais ou da escola.

Segundo a psicóloga Thaís Azevedo, muitas vezes, os pais tendem a proteger o filho ou quererem resolver a situação pela criança "mas isso não é uma postura recomendada", sugere. Ela aponta que as crianças e adolescentes passam e ainda irão passar por situações difíceis e, ao resolver o problema pela criança, os pais acabam colocando em jogo a capacidade dela enfrentar esse tipo de situação. "Se os pais ou quaisquer outras pessoas privarem a criança de enfrentar a situação, ela não saberá lidar com o problema quando acontecer. É interessante que os adultos saibam respeitar a situação que a criança está vivendo e daí pedir para que ela dê a diretriz do que deve ser feito dentro do limite dela", recomenda.

Alguns pais, ao verem seus filhos sofrendo, acabam culpando alguém. A escola também é responsável, mas não só. A orientadora pedagógica Olivia conta que é difícil dizer o que é dos pais e o que é da escola, pois o trabalho deve ser em parceria. "Tem algumas famílias que dizem que a escola que tem de tomar a providência e que a escola está falhando por essa situação acontecer. Eu acredito na escola e na família como uma comunidade. Na escola todos educam, não é só a orientadora, o professor... é todo mundo que faz parte da equipe. Sem a parceria escola-família, fica mais difícil a gente ajudar a mudar as situações", diz. Para o professor Nelson, da Unesp, os pais estão transferindo todo o processo educativo para a escola. Mas não estão transferindo a autoridade correspondente para que os professores possam educá-los.

Da mesma forma que a família precisa estar presente para reconhecer o envolvimento do filho com o bullying, também deve estar próxima para prevenir e resolver os conflitos. Nelson é veemente ao afirmar que crianças que sofrem bullying têm traumas mais brandos quando há o apoio da família. Mas o papel da família vai muito além de dar suporte. É necessário instruir. "Se a criança na casa dela assiste a um programa violento, ao lado dos pais, e os pais discutem sobre o programa, qual a opinião e visão das crianças, aí esse pai terá condições de intervir e mostrar como ela deve agir em sociedade. Os pais começam a mostrar à criança que existe o mundo real e o virtual. Mas o que tem acontecido é que os pais trabalham, e os filhos ficam com a avó, com a babá ou na creche. Eles ligam a TV como se ela não exercesse influência alguma sobre a criança. A TV está de certa forma formando a personalidade da criança", pontua o professor.

Se você e sua família querem ficar longe do bullying, as recomendações são: acompanhar a rotina da criança de perto; ser parceiro da escola; evitar culpar os outros; mostrar o que é certo e o que é errado; desencorajar qualquer tipo de preconceito ou intolerância ao outro e ouvir as queixas dos filhos para verificar o que realmente está acontecendo.

Veja amanhã o segundo capítulo da série sobre Bullying em Vida & Estilo Estadão