Brigitte Macron inaugura um novo visual na França

Vanessa Friedman/The New York Times - O Estado de S.Paulo

Primeira-dama exibe looks mais modernos e aposta em peças nada convencionais

O presidente Emmanuel Macron e Brigitte Trogneux, sua mulher, no dia da posse.

O presidente Emmanuel Macron e Brigitte Trogneux, sua mulher, no dia da posse. Foto: REUTERS/Benoit Tessier

No início da semana, Brigitte Macron pisou no tapete vermelho do Palácio do Eliseu ao lado do marido, Emmanuel Macron, que assumia a presidência da França. O que estava ocorrendo não era apenas a transmissão oficial do poder: era também a entrada de um novo tipo de primeira-dama e o início de uma parceria política. Ficou ainda a sensação de que o vazio deixado por Michelle Obama na arte da comunicação e da diplomacia do traje começa a ser preenchido – e de um modo muito original. 

Com seu vestido Louis Vuitton azul-claro, saia acima do joelho e jaqueta estilo militar combinando, Brigitte Macron afirmou sua independência e sua recusa em se enquadrar em modelos estabelecidos – de partidos políticos a trajes apropriados para sua idade. Fez isso sem rejeitar abertamente a tradição e ainda enfatizando, de vários modos, o recado político do marido. Tudo sem dizer uma palavra, embora as imagens tenham corrido o mundo. 

Foi quase uma performance estratégica. Apesar dos comentários nas redes sociais de que a cor de seu traje lembrou o vestido e casaquinho Ralph Lauren de Melania Trump na posse do marido, a mim pareceu que, nos detalhes e no efeito, os dois trajes não poderiam ser mais diferentes. A escolha de Melania, acima de tudo, evocava o passado: Jackie Kennedy e Camelot. O visual de Brigitte mirou o futuro e sugeriu como ela pretende redefinir seu novo papel. 

Brigitte já vem fazendo isso de vários jeitos desde que o marido anunciou a candidatura à presidência. Mas, enquanto a atenção geral se concentrava principalmente no amor não muito convencional do casal (ela tem 64 anos, 24 a mais que ele), o nada convencional guarda-roupa de Brigitte – pelo menos para uma mulher de certa idade casada com um político – vinha ganhando terreno, embora menos observado. 

Jeans colados, leggings de couro, jaquetas inspiradas e confeccionadas no estilo motoqueiro, saias curtas, tênis New Balance, bolsas Louis Vuitton e até ocasionais moletons de capuz compõem seu estilo básico. É um estilo que simplesmente diz não às clássicas saias burguesas na altura do joelho e a qualquer outra norma histórica que determina o que as mulheres acima dos 60 devam usar. Essa pode até ser a menor das rupturas com a tradição em que ela e o marido estão empenhados, mas é a mais visível, o que a torna poderosa. 

Emmanuel Macron e Brigitte Trogneux depois da votação do primeiro turno da eleição francesa. 

Emmanuel Macron e Brigitte Trogneux depois da votação do primeiro turno da eleição francesa.  Foto: REUTERS/Benoit Tessier

Especialmente porque, com seus trajes, Brigitte vem sendo aplaudida como ‘ícone do estilo francês’. Para tanto, ela incorporou a sua causa outro ícone francês. Vuitton é uma grife que Brigitte Macron prestigia desde as comemorações da Queda da Bastilha de 2015 (coincidência? Duvido...), quando usou um vestido azul-marinho da marca. A grife é um marco do luxo francês. Fundada em 1854, pertence ao homem mais rico da França, Bernard Arnault. A marca é parte do setor de maior sucesso nas exportações francesas – embora raramente seja adotada pela elite política do país. Carla Bruni-Sarkozy, mulher do ex-presidente Nicolas Sarkozy, gostava de usar Christian Dior em compromissos oficiais. Valérie Trierweiler, companheira de François Hollande no início de sua presidência, era famosa pelos sapatos stiletto Saint Laurent Tribute. Bernadette Chirac, mulher do ex-presidente Jacques Chirac, era fã de Chanel. 

Brigitte Macron compareceu aos desfiles da Vuitton e usou criações da grife em várias ocasiões. A mais recente foi na noite da eleição do marido. Para reduzir o possível desgaste político causado pela proximidade com a marca elitista, inacessível a muitos, ela pede emprestada à grife a maior parte do que usa, devolvendo em seguida. Quem confirma é a própria Vuitton. Inclui-se aí o traje usado no dia da posse do marido. Mas nem tudo é por empréstimo: algumas coisas ela compra. Brigitte se considera uma embaixadora da criatividade francesa, não uma simples compradora de artigos de luxo. 

Presidente e primeira-dama em viagem às montanhas.

Presidente e primeira-dama em viagem às montanhas. Foto: REUTERS/Eric Feferberg

Ao apostar nesse relacionamento e aparentemente eleger a Louis Vuitton a sua grife preferida, Brigitte fez uma escolha tática. Em sua última coleção, a grife deixou claro que compartilha a crença de Macron nas relações entre os países e nos intercâmbios culturais. O diretor artístico da Vuitton, Nicolas Ghesquière, afirmou depois do desfile de outono de 2017 que ele quer usar a moda para mostrar a necessidade de “quebrar todos os laços possíveis”. 

Coincidência? Mais uma vez, duvido. Como duvido que as dragonas e a dupla fileira de botões polidos da jaqueta de Brigitte no dia da posse fossem coincidência na ocasião em que Macron encheu de simbolismo militar. O visual do traje apoiou a mensagem do marido, que optou por cruzar a Champs-Elysées num veículo militar. Tradução de Roberto Muniz