Bowie se foi, mas deixa símbolos que inspiram

Michelli Provensi - O Estado de S.Paulo

A colunista Michelli Provensi fala sobre as referências do artista para o mundo fashion. "A moda o adora tanto porque, como ela, Bowie era cíclico e sabia se reinventar", escreve

David Bowie

David Bowie Foto: EFE

Tem gente que fala que 2016 começou mal, pois David Bowie foi com seu Ziggy Stardust para a nave e voltou aos ashes to ashes. Eu continuo na onda positiva de que estamos em tempos de mudanças, pensando que dar adeus aos nossos ídolos faz parte. Assim como faz parte aprender a abraçar os novos. 

Bowie se foi, mas deixou uma gama de símbolos que nos inspira até hoje: de sua inconfundível música aos arquétipos criados por meio de suas performances durante sua carreira. Em nós fica um pouco de Major Tom,  do homem que vendeu o mundo, de Alladin Sane, do Duke branco magro e entre tantos outros, de meu favorito, Ziggy, o poeira de estrela. 

 

A gente se apega à morte de um ídolo, às vezes pouco se importa de como andava a vida pessoal deles. Eu mesma nem sabia que Bowie lutava há 18 meses contra um cancêr, mas era grata por sua existência toda vez que limpava a casa ao som de Modern Love e  o tinha no topo, ao lado de Leonard Cohen, na listinha dos “must see in concert” da vida. Descobri Bowie tarde, aos 17 ano, em Tóquio, quando comprei um disco na Tower Records e fiquei pasma ao descobrir  que astronauta de mármore não era uma canção original da banda gaúcha Nenhum de Nós, e sim um cover de Starman. 

 

Não tem como trabalhar na moda e passar ileso às mil e uma referências de Bowie. A moda o adora tanto porque como ela, Bowie era cíclico e sabia se reinventar. A moda precisa do ego porque é ele que nos faz desejar coisas e consumir. Não é à toa que de todas as personas de Bowie, Ziggy Stardust é sempre por a mais lembrada no mundo fashion. Dos editorias de beleza às passarelas de Gaultier e Givenchy. Até a supermodelo Kate Moss já cravou o raio cósmico no rosto e encarnou seus mullets vermelhos na capa da revista Vogue britânica. Ziggy Stardust era um personagem ostensivo que fazia amor com seu ego, um showman, músico extraordinário que se tornou líder da sua banda, a Spiders From Mars, mas que no final deixou o talento subir à cabeça. Isso também acontece na moda. 

 

Nenhum homem se recriou tanto como The Man Who Fell To Earth. Bowie entrou na minha vida já mito e meio aposentado dos palcos, mas me deliciava com suas histórias de cameleão. Era quase um santo para um artista que fez muito sucesso no primeiro disco. Afinal, sempre encontrou motivação para se recriar e brilhar de maneiras diferentes. É essa a especialidade de Bowie, que se reinventou até na morte ao lançar recentemente seu último clipe, "Lazarus" – o homem que na Bíblia volta dos mortos. E ele sempre vai voltar, nas trilhas de filmes e desfiles, nas festas, no rádio, no carnaval de São Paulo no bloco Tô de Bowie e enquanto minha diarista não voltar de férias.

 

 P.S - O Bloco Tô de Bowie sai no dia 9 de fevereiro, no bairro de Santa Cecilia.