Book rosa, desde o antigo testamento

Michelli Provensi - O Estado de S.Paulo

Modelo, a colunista Micheli Provensi fala sobre o livro rosa, catálogo de acompanhantes das agências que é tema da novela das onze, ‘Verdades Secretas’

Camila Queiroz em cena da novela 'Verdades Secretas': o book rosa está causando polêmica entre as modelos

Camila Queiroz em cena da novela 'Verdades Secretas': o book rosa está causando polêmica entre as modelos Foto: Divulgação/ Rede Globo

Na época em que falaram de anorexia em uma novela, toda modelo era questionada sobre o assunto. Se me levantasse da mesa após ter terminado a refeição, havia sempre o olhar desconfiado de alguém no caminho para o banheiro. Até minha nona ligou preocupada: “Michi, tá comendo? Tu não vai me enfiar o dedo na goela depois do almoço!”. Novela tem o poder de trazer assuntos para a grande massa e, agora, a turma dos pivôs na passarela vem sentindo isso na pele novamente.

“Lembrei de você vendo a novela, diz a verdade, tem muita garota de programa mesmo?” Na manicure, na padaria, na fila do mercado, vou escutando por aí…  A classe das manequins anda meio indignada com o novo folhetim da Globo, “Verdades Secretas”, prevendo certo bullying que, na boa, virá com certeza. Tudo por causa do book rosa, o catálogo de acompanhantes da agência de modelos da trama. Tem colega querendo fazer abaixo assinado contra o roteiro, outras criticando a top Alessandra Ambrósio por aparecer no primeiro capitulo no papel de uma garota de programa em cenas quentes com o personagem de Rodrigo Lombardi. “Ela não precisa disso”, dizem. 

Há ainda quem dê risada e sugira que a  abordagem é mega caricata. Porém, o lance que pegou mesmo foi a insinuação de que a maioria das modelos começa fazendo parte book rosa para aumentar seu cachê. Na defesa da minha classe, posso afirmar: essa estatística é ficcional. Book é o portfólio das modelos, e, na novela global, book rosa é o codinome para cardápio de acompanhantes. 

Além de rosa bebê, agora, pelo visto, há também o rosa puta. Ao longo da minha carreira na moda, já ouvi tanto sobre o tal book rosa que creio que ele deva mesmo existir. Mas deixa eu falar: nunca conheci alguém que tenha feito. Só o famoso “ dizem que fulana fez”. E pelo visto não faço o perfil porque nunca me convidaram para um programa ou para integrar a lista.

 

Certa vez, em Paris, contei a um grande estilista que estava sem grana - o ano era 2009, crise mundial - e  que estava pintando o apartamento do vizinho para melhorar minha situação financeira. Ele ficou indignado. “Por que você não arruma um namorado rico ou sai e faz uns programas? Tem tanta menina que conheceu cara legal assim.” Respondi que para mim um cara legal não compra mulher e que não tinha desapego com meu corpo e espírito para tal coisa. Há de se ter coragem para ser garota de programa. Sexo é troca de energia e misturar com a do dinheiro não me parece uma boa ideia.

Meu corpo, minha vontade - sem julgamentos em relação às profissionais do sexo. Nos livros, rosa ou não, prostituta é a profissão mais antiga de todas e considero injusto não ser regulamentada. Jura mesmo que você acha que se ela for proibida deixará de existir? Quando morava no centro de São Paulo, durante um café na padaria do Marajá troquei uma idéia com uma garota de programa que mantinha ponto na região. A moça tava toda faceira me contando que tinha gastado 800 reais em camarão para fazer um risoto para os amigos no seu aniversário.  Dei parabéns e perguntei se ela não tinha medo de ser violentada durante um programa. “Tenho medo de passar fome e não retocar a raiz do cabelo”, respondeu ela, com meia empada na boca. 

O que um não quer, dois não fazem, e se a menina está feliz, canta Paul McCartney e a deixe em paz: Let it bitch, let it bitch! Mas, enfim, tem ou não tem modelo que faz programa? Veja bem, tem sim. Assim como tem em hospital, agência de publicidade, escritório de advocacia, na faculdade, na rua, no futebol, no surf, na ioga… Cada um faz o que quer, mas, parafraseando Gabriel García Márquez no livro “Memórias de Minhas Putas Tristes”, “só não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor.”