Beyoncé, uma lenda do rock, mas não da moda

Vanessa Friedman - O Estado de S.Paulo

Beyoncé se tornou o primeiro tema de uma exposição na seção Legends of Rock do Hall da Fama, em Cleveland. Mas será que merece tanto festejo no mundo fashion?

Beyoncé recebe o prêmio Michael Jackson Video Vanguard, no VMA 2014, pelas conquistas de sua vida no setor da música

Beyoncé recebe o prêmio Michael Jackson Video Vanguard, no VMA 2014, pelas conquistas de sua vida no setor da música Foto: AP

Não se pode ser indicado para o Hall antes de completar 25 anos do lançamento do primeiro disco, e como o primeiro álbum de Beyoncé, “Destiny`s Child”, saiu em 1998, ela ainda não cumpre o requisito. Mas Beyoncé é tão famosa que imagino que o museu quis incluí-la de qualquer modo, e se não podia tê-la oficialmente, decidiu ter... suas roupas.

Assim, sete trajes, incluindo o colante de “Single Ladies” de 2008 (desenhado pela mãe de Beyoncé, Tina Knowles), o uniforme de robô de Thierry Mugler de “Sweet Dreams” (2009) e o vestido para o baile do Met de Givenchy de 2012 estão em exposição no Ahmet Ertegun Hall, onde se reúnem a peças de Michael Jackson e David Bowie, entre outros artistas. Eles foram emprestados por dois anos. Quanto aos motivos para a decisão do museu, Todd Mesek, o vice-presidente de marketing e comunicações escreveu de Beyoncé num e-mail: “Ela usou seu talento natural para influenciar o som, a moda e o negócio da música”.

É verdade. Mas o simples fato de suas roupas estarem num museu, mesmo que seja um museu da música e não, por exemplo, um instituto de trajes, me fez pensar sobre a questão de Beyoncé e como ela influenciou a moda da ... moda. Ou melhor, como não a influenciou.

Isto porque, apesar de todos os louvores que Beyoncé recebeu – a celebridade mais poderosa do mundo, segundo a revista Forbes; a primeira na lista das Mais Belas de People; a artista por trás da venda mais rápida de um álbum pelo iTunes; uma potência internacional; tema de seu próprio documentário – o que ela não parece realmente merecer é o de “ícone da moda”.

Eu sei, eu sei: blasfêmia. Não se critica a mulher mais festejada do planeta, Mas pensem nisto. Beyoncé não influenciou o rumo da moda como, por exemplo, Rihanna, a vencedora deste ano do prêmio Fashion Icon da CFDA. Beyoncé não usa peças e provoca um milhão de tendências, como Madonna fez um dia com suas cruzes cravejadas de joias e minissaias rendadas – para não mencionar seus corpetes com rebites. Ela não faz artigos serem vendidos da noite para o dia, como o pequeno príncipe George.

Ela não conquista a imaginação de estilistas como faziam Patti Smith e Courtney Love. Seu estilista não se tornou um nome conhecido, do modo como Nicola Formichette passou de trabalhar para Lady Gaga (que também conquistou o prêmio de Ícone da Moda da CFDA em 2011) para se tornar diretor de criação e representante da Diesel.

Sua megafama nem sequer pode sustentar sua própria marca de moda, House of Deréon, que parece ter sido suspensa (a página do Facebook faz um link para houseofdereon.com, que a internet diz “não pôde ser encontrado”, embora alguns jeans e sapatos ainda estejam à venda em sites de terceiros), diferentemente, por exemplo, de Jessica Simpson, que faturou cerca de US$ 1 bilhão, segundo a Forbes. A Li & Fung, que é proprietária da House of Déreon, não respondeu a pedidos para esclarecer a situação.

Mas Beyoncé tem pelo menos 13,5 milhões de seguidores no Twitter e 14,4 milhões de seguidores no Instagram, todos eles tratados com selfies dela em trajes variados tanto no trabalho com fora dele. Em seu “álbum visual” de surpresa que fez um megassucesso em dezembro passado, ela usou roupas de várias marcas diferentes, de Maxime Simoens a Ulyana Sergeenko e 3.1 Phillip Lim. Em sua turnê “Mrs. Carter”, ela modelou looks de Pucci, enquanto na turnê atual, “On the Run”, ela vem usando trajes de Atelier Versace, Alexander Wang e Diesel.

Suas aparições regulares de Givenchy no baile do Met (2013 e 2014, além do já mencionado de 2012), aparecem como momentos de tapete vermelho por toda parte, incluindo mais recentemente a capa do número especial de Vogue para o baile do Met – uma capa que ela divide com Rihanna, decerto, mas ela teve outras duas capas na revista principal, só para ela. Por todas as medidas objetivas, Beyoncé deveria ser uma extraordinária influência da moda.

Então, como explicar que mulheres de todas as idades querem ser como ela, mas isso não inclui, para nenhuma delas, o que é normalmente a maneira mais fácil de fantasiar: vestir-se como ela? Como é que ela atrai multidões a estádios, mas não clientes para lojas? Parece um paradoxo.

Se for, podemos chamá-lo de Paradoxo Beyoncé. E aí vai: eu penso que se trata de fato de uma construção. Uma que foi estrategicamente feita.

Afinal, ao optar por construir sua celebridade num conjunto cuidadosamente selecionado de símbolos particulares – neste caso, sorriso, cabelo e corpo (e voz, é claro) – em oposição a um visual relacionado ao vestuário cuidadosamente construído, Beyoncé & Cia se assegurou de que a única marca que realmente tem algum poder duradouro real é a marca Beyoncé; que tudo que ela está vendendo volta para ela. Espalhar a riqueza, por assim dizer, entre tandos estilistas, que à primeira vista parece um esforço para cortejar o mundo da moda, na verdade funciona para criar uma situação em que nenhum nome é permanentemente associado a ela além do seu próprio. É uma questão, como sempre foi, de poder e de quem sai ganhando. E quem sai ganhando aqui é ela.

Tornou-se uma sabedoria convencional que a moda é uma plataforma cada vez mais fundamental - tanto como trampolim para o estrelato (ver Kerry Washington e Lupita Nyong, que usaram o tapete vermelho como principal ferramenta) como uma maneira de sustentar a carreira para além do estrelato (ver Kate Hudson e Sharon Stone). Mas o que o Paradoxo Beyoncé sugere é que esta pode não ser a toda a verdade. Porque se perder a “moda”, o que lhe resta? Ícone. E isto dispensa adjetivos.

Tradução de Celso Paciornik