Bazar de roupas recebe cerca de 800 refugiados haitianos e sírios

Giovana Romani - O Estado de S.Paulo

Mais de 15 mil peças foram doadas em duas horas no evento Lojinha da Rua, realizado na última sexta, 12, em São Paulo

O evento beneficente ocorreu na Paróquia Nossa Senhora da Paz, na rua do Glicério, e deve ganhar nova edição no fim do ano

O evento beneficente ocorreu na Paróquia Nossa Senhora da Paz, na rua do Glicério, e deve ganhar nova edição no fim do ano Foto: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

A área externa da Paróquia Nossa Senhora da Paz, na rua do Glicério, em São Paulo, se transformou em um grande bazar de roupas a céu aberto no fim da manhã de sexta, 12. Pouco depois do meio dia, centenas de pessoas, entre refugiados do Haiti, da Síria e brasileiros moradores de cortiços e pensões da região, se espremiam para conseguir algumas das mais de 15 mil peças femininas, masculinas e infantis disponíveis nas mesas. Radicada no Brasil há 35 anos, a síria Nazek Al Attar levou oito imigrantes recém-chegados ao País - eles saíram do evento carregados de sacolas. “As mulheres e crianças da minha vizinhança precisam muito de roupas, alimentos e remédios”, conta. “Faço o que posso para ajudar.”

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Batizada de ‘Lojinha da Rua’, a iniciativa partiu de Cristiana Ventura e Marina Pestana, duas amigas empresárias do ramo de moda, e teve sua primeira edição realizada em dezembro passado, no Castelinho da Rua Apa, no centro. “Na ocasião, recebemos moradores de rua e conseguimos criar um sistema de fichas organizado para a retirada das peças”, diz Cristiana. “Dessa vez foi diferente. Os refugiados vêm de uma situação de guerra, de luta pela sobrevivência, e pegaram o máximo que puderam.” Em pouco menos de duas horas, todo o estoque arrecadado pela dupla evaporou. A maioria dos haitianos presentes ali reclamavam das dificuldades que estão enfrentando na capital paulista. “Roupa eu tenho. O que falta é trabalho”, disse um deles, que não quis se identificar.

As organizadoras da Lojinha, Cristiana Ventura e Marina Pestana:  “Ouvir essas histórias e poder ajudar de alguma forma é o que nos motiva a estar aqui”, afirma Marina

As organizadoras da Lojinha, Cristiana Ventura e Marina Pestana:  “Ouvir essas histórias e poder ajudar de alguma forma é o que nos motiva a estar aqui”, afirma Marina Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Ainda assim, a felicidade das mulheres haitianas, sírias e brasileiras enquanto provavam roupas e sapatos novos era notável. Moradora de uma pensão da região, a ajudante geral desempregada Bianca Pereira Leite  escolheu blusas, calças e sandálias para ela e para a mãe, que mora na cidade de Maracás, na Bahia. “Adoro legging e peguei todas que achei do meu tamanho”, afirma a jovem de 19 anos, que foi ao bazar acompanhada do filho de 3. Resgatar a autoestima das pessoas é o principal objetivo das organizadoras, que contaram ainda com o apoio de 20 voluntários, reunidos por meio da página da Lojinha no Facebook. 

O haitiano Marcelino Desedey, 23 anos, mora em São Paulo há um: "Consegui um trabalho como ajudante em um restaurante em Guarulhos, mas sofro muito preconceito”, diz ele

O haitiano Marcelino Desedey, 23 anos, mora em São Paulo há um: "Consegui um trabalho como ajudante em um restaurante em Guarulhos, mas sofro muito preconceito”, diz ele Foto: TIAGO QUEIROZ/DIVULGAÇÃO

Cartão postal

Vindo de Delmas, comuna próxima a Porto Príncipe, no Haiti, Marcelino Desedey, 23 anos, permaneceu por lá durante todo o evento, mas pegou poucas roupas. Ele preferiu mandar um postal para a mãe por meio da voluntária Juliana Casemiro, que se dispôs a escrever e endereçar as cartas. Carregava três livros - entre eles “Ubirajara”, de José de Alencar” -, e às lágrimas contou estar arrependido de ter vindo tentar uma vida melhor no Brasil um ano atrás. “Consegui um trabalho como ajudante em um restaurante em Guarulhos, mas sofro muito preconceito”, diz o rapaz, que ganha 800 reais por mês, paga 250 reais no aluguel de um quartinho em uma moradia para refugiados no centro e manda quase tudo o que sobra para a mãe no Haiti. “Ouvir essas histórias e poder ajudar de alguma forma é o que nos motiva a estar aqui”, afirma a organizadora Marina. A próxima edição da “Lojinha da Rua” deve ocorrer no fim do ano.