Básico revisitado

Giovana Romani, de Nova York - O Estado de S.Paulo

Com fabricação de peças no Brasil e o lançamento de uma nova linha, menos casual, a Calvin Klein busca reposicionar sua imagem no país. O diretor criativo Kevin Carrigan fala sobre os desafios de manter-se relevante em tempos de moda global e redes sociai

Lançamento da Calvin Klein White Label em Nova York: anos 70 e androginia

Lançamento da Calvin Klein White Label em Nova York: anos 70 e androginia Foto: Divulgação

Faz frio em Nova York no início da primavera e as vitrines das lojas da 5ª Avenida estão tomadas por roupas de inspiração setentista. Jeans flare (outrora conhecidos como boca de sino), shorts de camurça soltinhos, camisas estilo bata, bolsas de franja, chapéus de abas moles (os floppy hats)... Está tudo lá, de forma exageradamente literal. A algumas quadras dali, na sede da Calvin Klein, referências dos anos 70 também aparecem no lançamento da coleção de inverno da linha White Label. Mas não há clichês - conhecida pelo estilo básico e sexy, a marca integra a tendência a seu universo minimalista. Em um ambiente que reproduz uma sala de estar com mobiliário modernista, modelos exibem vestidos longos de suede, camisas de seda arrematadas por laços no pecoço, saias mídi de cintura alta, botas no joelho e casacos de pele fake. Os homens estão de calça de alfaiataria slim, jaquetas de couro, camisas jeans e blusas de gola alta, exibindo a tal nova androginia que também anda em alta na moda. 

“Criamos com base nos desejos do consumidor atual e os adaptamos a nossa estética. A moda evolui e nós também”, afirma Kevin Carrigan, diretor criativo de quatro divisões da marca - Jeans, Underwear, Platinum e White Label. A última, a qual pertencem as peças lançadas em Nova York, acaba de chegar ao Brasil com uma loja no shopping JK Iguatemi, em São Paulo, e caracteriza um novo posicionamento da grife por aqui. “Já somos muito conhecidos no país pelo jeans, mas queremos introduzir o ready to wear um pouco mais sofisticado, com roupas que vão do escritório ao jantar”, diz Carrigan. Para garantir o sucesso da empreitada, há peças confeccionadas no Brasil e desenvolvidas exclusivamente para o consumidor local (com cores mais vibrantes em relação à cartela americana, predominantemente neutra). Carrigan comanda pessoalmente o time de estilistas brasileiros - e de um total de 200 pessoas nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. “Estou sempre dentro de um avião”, explica. 

​O diretor criativo Kevin Carrigan: "A moda evolui e nós também"

​O diretor criativo Kevin Carrigan: "A moda evolui e nós também" Foto: Divulgação

Cidadão do mundo, em sua própria definição, o designer cresceu em Lake District, no noroeste da Inglaterra, graduou-se em arte no Royal College of Art, em Londres, e viveu a efervescente cena underground da cidade nos anos 80. Trabalhou na Itália e mudou muitas vezes de endereço até chegar a Nova York e ingressar na Calvin Klein em 1998. Ao longo dos últimos 17 anos, sua missão é manter a grife, criada em 1968, relevante e atual em um mercado transformado pela globalização e pela internet. Sobre os desafios, o Brasil e as tendências, Carrigan fala na entrevista a seguir.

Por que trazer uma nova linha para o Brasil?

Já somos muito conhecidos pelo jeans e pelo underwear, mas queremos introduzir o ready to wear mais sofisticado, com roupas que vão do escritório ao jantar. Na White Label, uso muito mais seda, estampas e color blocking. Trata-se de uma coleção leve e funcional. Estamos começando aos poucos no Brasil, mas nos Estados Unidos essa linha já é um grande negócio.  

Quais as especificidades das roupas feitas para o mercado brasileiro?

Há mais cor. Somos conhecidos pela cartela de cores neutras, mas também temos uma relacão forte com a arte moderna. Por isso, os tons fortes de obras de artistas como Ellsworth Kelly pontuam a coleção. 

Parte da estratégia atual da marca é produzir localmente. Por quê?

Fabricamos 50% das roupas no Brasil e a outra metade é importada. Trata-se de uma questão de timing, de conseguir chegar ao consumidor na hora certa, com a roupa adequada para a estação. Nossa coleção de inverno é muito pesada para vocês. Há ainda uma questão de modelagem, já que a consumidora brasileira tem um tipo de corpo diferente, com mais curvas.

A marca também utiliza esse modelo de negócio em outros países?

Sim, a linha Platinum, vendida na Ásia, é produzida nesse esquema. Buscamos ter uma identidade global, respeitando as características locais de estilo de vida, cultura, costumes… E acho bom que seja assim.

E como é possível manter o controle sobre a qualidade dos produtos?

Viajo para todos os cantos do mundo, passo praticamente o mês inteiro fora. Um dia estou em Milão, outro em Londres, depois na Alemanha, na Coreia, na China, em Hong Kong, Los Angeles, São Paulo, México... Essa é minha vida e também uma forma de absorver as tendências globais. 

E quais sãs as tendências globais de agora?

O estilo 70’s retrô e a androginia. 

Como é possível traduzir uma tendência sem cair em clichês?

Não dá para criar roupas que parecem feitas para uma festa a fantasia. A camisa com laço, o maxivestido e o casaco de pele têm inspiração retrô, mas precisam ser peças contemporâneas, alinhadas aos desejos do consumidor. Calvin Klein desenhou sua primeira coleção em 1968 para a nova mulher independente. E ainda fazemos isso. Se a mulher de hoje quer ser vintage, se prefere algo futurista ou se quer ser romântica, nós temos que adaptar a nossa estética, que é natural, sensual e às vezes minimalista, a seus anseios. A moda evolui e nós também.

Qual a receita para uma grife se manter atual? 

Precisamos descobrir uma forma de nos tornarmos relevantes a cada década sem perder o design funcional e a beleza que nos definem. Em 2011, fizemos uma campanha do CK One com jovens personalidades, como Rita Ora, Lara Stone, Sky Ferreira, e considero esse um momento marcante, pois conseguimos nos comunicar com um novo consumidor, a geração da internet.

As redes sociais estão transformando a indústria da moda?

Com certeza. É incrível poder ter uma conexão direta com o seu consumidor, uma conversa mais profunda. Agora, não se trata apenas de ter o vestido da moda, o público quer saber por que aquele é o vestido da moda e mostrar como resolveu usá-lo em uma selfie. Ele tem poder e a informação é poderosa para a marca também. 

*A jornalista Giovana Romani viajou para Nova York a convite da Calvin Klein