Banir a palavra 'feminista'?

Roxane Gay - O Estado de S.Paulo

Tratemos de banir difamações raciais e homofóbicas, pois estas são as verdadeiras questões

É uma ideia divertida para alguns esta coisa do feminismo — esta noção audaciosa de que as mulheres deveriam poder circular pelo mundo tão livremente e gozar dos mesmo direitos inalienáveis e autonomia corporal que os homens. Essa é, ao menos, a impressão que passa quando feminismo e feministas são com excessiva frequência alvos do humor preguiçoso.

"Eu preciso do feminismo porque, sem ele, minha história nunca seria contada ou ouvida"

"Eu preciso do feminismo porque, sem ele, minha história nunca seria contada ou ouvida" Foto: Laura Forest/Creative Commons

Tome-se, por exemplo, uma pesquisa postada na revista Time no último fim de semana. Parece uma brincadeira bastante inocente, perguntando aos leitores qual palavra popular de 2014 deveria ser proibida. As indicadas incluem “bossy” (mandão), “basic” (básico), “disrupt” (subverter), “kale” (grana) e “turnt” (chapado), entre outras. A lista pretendia ser engraçada, mas é em boa parte um policiamento do vernáculo de alguém que não seja um homem branco, heterossexual.

A lista também inclui a palavra “feminista”, com a explicação: “você não tem nada contra o feminismo em si, mas quando que ele se tornou uma coisa que toda celebridade tem de se posicionar sobre e se a palavra se aplica a ela, como algum político declarando partido? Vamos nos ater às questões e parar de atirar este rótulo no ar como papel picado numa desfile de Susan B. Anthony”. Na sexta-feira, feminismo estava liderando a pesquisa — com sobra — impelida, em parte, por um esforço dos usuários do 4chan, um informativo online, em grande parte tóxico.

Podemos ignorar, talvez, a hipérbole de “toda celebridade”, porque as celebridades são em geral vigorosas em sua não admissão do feminismo. Elas reconhecem o “F” escarlate que vem com sua adoção pública, a mancha de professar um desejo de igualdade de gênero.

O que não podemos ignorar é a implicação de que a palavra “feminista” é, de algum modo, um incômodo que precisamos banir porque celebridades como Beyoncé, Emma Watson, Taylor Swift, Aziz Ansari e Lena Dunham se declararam feministas este ano. Estes astros no mínimo apresentaram a um leque mais amplo de pessoas a ideia do feminismo. Estas celebridades podem não ser representantes singulares do feminismo, mas podem fazer algum barulho. Podem diminuir alguns estigmas que cercam o feminismo. Podem ajudar a promover objetivos feministas.

Continuo tentando imaginar um universo em que muitas figuras públicas se declararem feministas seria uma coisa ruim. Teria de ser um universo em que “as questões”, como a pesquisa vagamente menciona, não existem mais — um em que as mulheres gozassem de liberdade reprodutiva não legislada e tivessem acesso fácil, a preços acessíveis, ao controle de natalidade. As mulheres que abortam não seriam acusadas de homicídio, como uma mulher de Iowa que caiu da escada quando estava grávida. As mulheres teriam o mesmo nível de remuneração que os homens.

Elas estariam livres de ameaças de violência, assédio e ataque sexual enquanto tocam suas vidas. As mulheres poderiam rejeitar os avanços de um homem sem serem mortas, como a moradora de Detroit, Mary Spears, de 27 anos, no mês passado. Poderiam participar de debates intelectuais sem a discordância ser expressa em termos de sua aparência ou sexualidade. Nesse universo, onde as mulheres seriam livres para simplesmente viver suas vidas, “feminista” se tornaria um termo antiquado. Eu também estaria cansada de ouvi-lo.

Mas não vivemos nesse universo. Nem estamos perto disso. E há coisas piores do que pessoas atirarem por aí a palavra “F”. De todas as palavras que deveriam ser mais faladas, “feminista” deveria estar no topo da lista. Por que não banimos “feminazi” (feminista extremada)? Melhor ainda: livremo-nos de “bitch”, “slut” e “whore” (palavras depreciativas para prostituta). Tratemos de banir difamações raciais e homofóbicas. Estas são as verdadeiras questões.

A questão é maior do que uma simples pesquisa online divertida. Boa parte da ira inicial foi dirigida para a escritora da pesquisa, uma mulher, aliás. Mas há muita responsabilidade a ser distribuída. Será que a escritora não trabalhou com ao menos um editor que considerou a mensagem que estava sendo enviada ao incluir “feminista” numa lista de palavras que deveriam ser banidas? Ou talvez nenhum editor considerou a mensagem, ou não se importou. Talvez ele tenha achado razoável transformar o feminismo, de novo, e por sua vez os problemas das mulheres, num bode expiatório.

Quando pessoas marginalizadas falam sobre querer mais diversidade, estamos falando em parte de querer que publicações com a influência e o alcance de Time — publicações que pautam nossas conversas e percepções — sejam geridas por editores éticos, pensadores críticos que consideram o impacto de palavras e as impressões que elas causam.

Incluir “feminista” nessa pesquisa foi irresponsável e preguiçoso. Foi uma provocação sem substância, designada para divertir. “Mulheres reivindicando abertamente o feminismo e um desejo de igualdade? Pura besteira.”

Mas nunca é realmente sobre a pesquisa, a canção, o comediante, o livro, o filme. As feministas — aquelas de nós que se preocupam com a igualdade — estão protestando ruidosamente contra uma cultura na qual a misoginia está tão profundamente entranhada que nós mal notamos o que ela está nos causando, como está nos sufocando, como está nos diminuindo.

Tradução de Celso Paciornik