As desvantagens da capacidade de adaptação

Jay Belsky - O Estado de S.Paulo

Característica, há muito tempo considerada exclusivamente benéfica, é na realidade uma faca de dois gumes

Algumas crianças são como orquídeas delicadas; elas fenecem rapidamente se expostas ao estresse e às privações, mas se desenvolvem quando recebem carinho e apoio

Algumas crianças são como orquídeas delicadas; elas fenecem rapidamente se expostas ao estresse e às privações, mas se desenvolvem quando recebem carinho e apoio Foto: Philippe Put/ Creative Commons

Por trás de meio século de programas destinados a promover o desenvolvimento da criança, persiste um pressuposto: as crianças são afetadas de maneira essencialmente igual pelo ambiente onde crescem, e as intervenções positivas, como a educação na pré-escola, deveriam portanto ajudar todas as crianças. Mas, e se isto não for verdade?

As evidências sugerem que algumas crianças - para usar uma metáfora frequentemente citada - são como orquídeas delicadas; elas fenecem rapidamente se expostas ao estresse e às privações, mas se desenvolvem quando recebem carinho e apoio. Outras mostram-se resistentes aos efeitos negativos da adversidade, mas ao mesmo tempo não se beneficiam particularmente das experiências positivas. Neste sentido, a capacidade de adaptação, que há muito tempo é considerada uma característica exclusivamente benéfica, é na realidade uma faca de dois gumes.

O Estado, os governos locais e federais, assim como os pais e a escolas, gastam muito dinheiro tentando ajudar as crianças a serem bem sucedidas, e para evitar-lhes problemas. A pesquisa deveria nos ajudar a entender por que algumas crianças conseguem aprimorar suas capacidades graças aos programas de desenvolvimento e ter menos transtornos de comportamento, enquanto outras aparentemente não foram muito afetadas - ou mesmo nada. Finalmente, talvez possamos identificar as crianças que se beneficiarão mais, e estudar a possibilidade de investir nelas recursos adicionais.

O que distingue as crianças que se revelam mais suscetíveis das menos suscetíveis - para melhor e para pior - às experiências com que se defrontam durante o desenvolvimento? Não há um único fator, mas a genética exerce aparentemente uma forte influência.

Todo gene contém dois alelos - um para cada um dos pais. Há evidências de que as pessoas que carregam determinadas variações destes alelos têm maior chance de desenvolver determinadas doenças. Por exemplo, alelos curtos do gene 5-HTTLPR, que transporta serotonina, foram ligados à depressão, enquanto alelos longos do gene receptor de dopamina DRD4 foram relacionados ao problema de hiperatividade com déficit de atenção. O que é estranho é que estes genes de "risco" também estão associados a um aumento da sensibilidade às condições ambientais. As crianças que têm um ou outro são as mais afetadas por experiências negativas, e aparentemente são mais beneficiadas pelas experiências de apoio. As crianças sem nenhum dos dois parecem relativamente imunes aos efeitos tanto de ambientes de apoio quanto aos que não são de apoio.

Sete novos estudos fornecem fortes evidências da chamada suscetibilidade diferencial das crianças ao seu ambiente, assim como uma pesquisa de meta análise do comportamento sobre genética e sobre a eficácia das intervenções. Estes trabalhos, financiados em parte pela Fundação Jacobs da Suíça, serão publicados no ano que vem numa seção especial da revista Development and Psychopathology, que editei com Marinus H. van Ijzendoorn da Universidade de Leiden. Um teste randomizado controlado na próxima seção especial examina o efeito do abuso da substância por adolescentes do Adults in the Making Program, projeto chefiado por Gene H. Brody e Steven R.H. Beach da Universidade da Georgia. Cerca de 300 jovens afro-americanos da zona rural e suas famílias participaram do programa, que envolveu seis reuniões semanais consecutivas do grupo. Os pesquisadores ensinaram aos pais como dar apoio emocional e encorajar os filhos a tomar decisões responsáveis. Os jovens aprenderam a planejar para o futuro. O programa conseguiu prevenir o aumento do uso de drogas num período de mais de dois anos entre adolescentes pertencentes às famílias mais problemáticas - mas somente se aqueles adolescentes tivessem alelos longos DRD4 (que os pesquisadores descobriram por meio de testes de saliva).

Outro estudo, dirigido por Stacy S. Drury de Tulane University, analisou crianças que viviam em orfanatos romenos profundamente carentes em termos emocionais. Verificou-se que o gene transportador de serotonina, 5-HTTLPR, era crucial para compreender por que somente as crianças se beneficiaram quando destinadas aleatoriamente aos cuidados de orfanatos muito competentes. As crianças que tinham alelos curtos do gene e foram para orfanatos de alta qualidade revelaram-se menos desobedientes e agressivos lá pelos 4-5 anos de idade, enquanto os que permaneceram no orfanato manifestaram este comportamento em grau maior. As crianças sem a variação genética comportaram-se de maneira de certo modo intermediária, independentemente de onde viviam.

Mais irrefutáveis são talvez os resultados a prazo muito mais longo do Fast Track Project, criado por Kenneth A. Dodge da Duke University e colegas. Começando no jardim de infância, estudantes brancos de risco em algumas escolas receberam mais dez anos de suporte acadêmico e social extra, envolvendo professores, pais e colegas. Os participantes foram entrevistados e testados quando fizeram 25 anos. Os que tinham uma variante do gene receptor glucocorticoide NR3C1, que desempenha um papel na maneira como os nossos organismos reagem ao stress, apresentou o comportamento menos psicopatológico (medido pelo uso da droga e por outros fatores) quando participavam do programa, mas muito mais quando não tinham este apoio extra. O comportamento de crianças com outras variantes do mesmo gene não foram afetadas pelo suporte extra.

Quais são as implicações destes resultados? Uma delas é que não devemos nos surpreender se até os programas bem elaborados fracassam, porque as crianças variam em sua suscetibilidade às influências ambientais.

O que sugere uma complexa questão ética: Devemos tentar identificar as crianças mais suscetíveis e visá-las de maneira desproporcional quando se trata de investir as limitadas verbas destinadas à intervenção e ao serviço?

Acredito que a resposta seja sim. Evidentemente, teremos muita pesquisa pela frente antes que isto seja possível. Precisaremos compreender que muitos genes e mesmo fatores ambientais provavelmente afetam a maneira como as crianças são suscetíveis às influências ambientais. Portanto precisaremos ir além das investigações de cada gene para examinar genes múltiplos simultaneamente, o que está sendo possível graças aos avanços no sequenciamento do DNA. Alguns trabalhos deste tipo já revelam que em lugar de pensar somente em termos de certas crianças suscetíveis e outras não, é mais correto dizer que algumas crianças são extremamente suscetíveis, outras moderadamente e algumas muito menos.

Os que valorizam a equidade e não a eficiência objetarão à ideia de tratar as crianças de maneira diferente por causa de seus genes. Mas se chegarmos a identificar as que mais ou menos se beneficiarão de uma intervenção dispendiosa com uma razoável confiança, por que não deveríamos fazê-lo? O que é ético, afinal, quando se trata de fornecer serviços a indivíduos aos quais acreditamos que não serão eficazes, principalmente quando gastamos o dinheiro dos contribuintes?

Poderíamos até imaginar um dia em que poderemos estabelecer o genótipo de todas as crianças numa escola primária para garantir que as que poderão se beneficiar mais com a ajuda tenham os melhores professores. Não somente porque elas melhorarão mais, mas também porque sofreriam mais com uma instrução de má qualidade. As crianças menos suscetíveis - e mais resilientes - muito provavelmente irão bem independentemente de qualquer outra coisa. Depois de seis ou sete anos, esta abordagem poderá melhorar substancialmente o aproveitamento do estudante e seu bem-estar.

Permitam-me dizer claramente que mesmo que a identificação possa ser feita de maneira eficiente, isto não significa abandonar os que parecem ter uma resposta menos clara. Cada criança merece uma qualidade de vida decente, independentemente do custo ou benefício a longo prazo. Além disso, o dinheiro economizado reduzindo as intervenções aos que mais provavelmente se beneficiarão deveria ser utilizado para explorar alternativas de intervenção diferentes e possivelmente radicais. Afinal, não sabemos se as crianças que parecem não ser suscetíveis a intervenções, o são de fato, ou se elas não são simplesmente afetadas por o que está sendo proporcionado a elas. O objetivo último não deveria ser economizar dinheiro, mas gastá-lo de maneira mais correta.

Por enquanto, depois de meio século de intervenções na infância que produziram afirmações exageradas de eficiência e ineficiência, precisamos reconhecer a realidade, ou seja, que algumas crianças são mais afetadas por suas experiências típicas do desenvolvimento - desde punições excessivas a um suporte extremamente cuidadoso - do que outras. Isto tem implicações para os cientistas que avaliam as intervenções, para as autoridades que as financiam e para os pais que criam seus filhos.

Jay Belsky é professor de Desenvolvimento Humano da Universidade da Califórnia

Por trás de meio século de programas destinados a promover o desenvolvimento da criança, persiste um pressuposto: as crianças são afetadas de maneira essencialmente igual pelo ambiente onde crescem, e as intervenções positivas, como a educação na pré-escola, deveriam portanto ajudar todas as crianças. Mas, e se isto não for verdade?

As evidências sugerem que algumas crianças - para usar uma metáfora frequentemente citada - são como orquídeas delicadas; elas fenecem rapidamente se expostas ao stress e às privações, mas se desenvolvem quando recebem carinho e apoio. Outras mostram-se resistentes aos efeitos negativos da adversidade, mas ao mesmo tempo não se beneficiam particularmente das experiências positivas. Neste sentido, a capacidade de adaptação, que há muito tempo é considerada uma característica exclusivamente benéfica, é na realidade uma faca de dois gumes.

O Estado, os governos locais e federais, assim como os pais e a escolas, gastam muito dinheiro tentando ajudar as crianças a serem bem sucedidas, e para evitar-lhes problemas. A pesquisa deveria nos ajudar a entender por que algumas crianças conseguem aprimorar suas capacidades graças aos programas de desenvolvimento e ter menos transtornos de comportamento, enquanto outras aparentemente não foram muito afetadas - ou mesmo nada. Finalmente, talvez possamos identificar as crianças que se beneficiarão mais, e estudar a possibilidade de investir nelas recursos adicionais.

O que distingue as crianças que se revelam mais suscetíveis das menos suscetíveis - para melhor e para pior - às experiências com que se defrontam durante o desenvolvimento? Não há um único fator, mas a genética exerce aparentemente uma forte influência.

Todo gene contém dois alelos - um para cada um dos pais. Há evidências de que as pessoas que carregam determinadas variações destes alelos têm maior chance de desenvolver determinadas doenças. Por exemplo, alelos curtos do gene 5-HTTLPR, que transporta serotonina, foram ligados à depressão, enquanto alelos longos do gene receptor de dopamina DRD4 foram relacionados ao problema de hiperatividade com déficit de atenção. O que é estranho é que estes genes de "risco" também estão associados a um aumento da sensibilidade às condições ambientais. As crianças que têm um ou outro são as mais afetadas por experiências negativas, e aparentemente são mais beneficiadas pelas experiências de apoio. As crianças sem nenhum dos dois parecem relativamente imunes aos efeitos tanto de ambientes de apoio quanto aos que não são de apoio.

Sete novos estudos fornecem fortes evidências da chamada suscetibilidade diferencial das crianças ao seu ambiente, assim como uma pesquisa de meta análise do comportamento sobre genética e sobre a eficácia das intervenções. Estes trabalhos, financiados em parte pela Fundação Jacobs da Suíça, serão publicados no ano que vem numa seção especial da revista Development and Psychopathology, que editei com Marinus H. van Ijzendoorn da Universidade de Leiden. Um teste randomizado controlado na próxima seção especial examina o efeito do abuso da substância por adolescentes do Adults in the Making Program, projeto chefiado por Gene H. Brody e Steven R.H. Beach da Universidade da Georgia. Cerca de 300 jovens afro-americanos da zona rural e suas famílias participaram do programa, que envolveu seis reuniões semanais consecutivas do grupo. Os pesquisadores ensinaram aos pais como dar apoio emocional e encorajar os filhos a tomar decisões responsáveis. Os jovens aprenderam a planejar para o futuro. O programa conseguiu prevenir o aumento do uso de drogas num período de mais de dois anos entre adolescentes pertencentes às famílias mais problemáticas - mas somente se aqueles adolescentes tivessem alelos longos DRD4 (que os pesquisadores descobriram por meio de testes de saliva).

Outro estudo, dirigido por Stacy S. Drury de Tulane University, analisou crianças que viviam em orfanatos romenos profundamente carentes em termos emocionais. Verificou-se que o gene transportador de serotonina, 5-HTTLPR, era crucial para compreender por que somente as crianças se beneficiaram quando destinadas aleatoriamente aos cuidados de orfanatos muito competentes. As crianças que tinham alelos curtos do gene e foram para orfanatos de alta qualidade revelaram-se menos desobedientes e agressivos lá pelos 4-5 anos de idade, enquanto os que permaneceram no orfanato manifestaram este comportamento em grau maior. As crianças sem a variação genética comportaram-se de maneira de certo modo intermediária, independentemente de onde viviam.

Mais irrefutáveis são talvez os resultados a prazo muito mais longo do Fast Track Project, criado por Kenneth A. Dodge da Duke University e colegas. Começando no jardim de infância, estudantes brancos de risco em algumas escolas receberam mais dez anos de suporte acadêmico e social extra, envolvendo professores, pais e colegas. Os participantes foram entrevistados e testados quando fizeram 25 anos. Os que tinham uma variante do gene receptor glucocorticoide NR3C1, que desempenha um papel na maneira como os nossos organismos reagem ao stress, apresentou o comportamento menos psicopatológico (medido pelo uso da droga e por outros fatores) quando participavam do programa, mas muito mais quando não tinham este apoio extra. O comportamento de crianças com outras variantes do mesmo gene não foram afetadas pelo suporte extra.

Quais são as implicações destes resultados? Uma delas é que não devemos nos surpreender se até os programas bem elaborados fracassam, porque as crianças variam em sua suscetibilidade às influências ambientais.

O que sugere uma complexa questão ética: Devemos tentar identificar as crianças mais suscetíveis e visá-las de maneira desproporcional quando se trata de investir as limitadas verbas destinadas à intervenção e ao serviço?

Acredito que a resposta seja Sim. Evidentemente, teremos muita pesquisa pela frente antes que isto seja possível. Precisaremos compreender que muitos genes e mesmo fatores ambientais provavelmente afetam a maneira como as crianças são suscetíveis às influências ambientais. Portanto precisaremos ir além das investigações de cada gene para examinar genes múltiplos simultaneamente, o que está sendo possível graças aos avanços no sequenciamento do DNA. Alguns trabalhos deste tipo já revelam que em lugar de pensar somente em termos de certas crianças suscetíveis e outras não, é mais correto dizer que algumas crianças são extremamente suscetíveis, outras moderadamente e algumas muito menos.

Os que valorizam a equidade e não a eficiência objetarão à ideia de tratar as crianças de maneira diferente por causa de seus genes. Mas se chegarmos a identificar as que mais ou menos se beneficiarão de uma intervenção dispendiosa com uma razoável confiança, por que não deveríamos fazê-lo? O que é ético, afinal, quando se trata de fornecer serviços a indivíduos aos quais acreditamos que não serão eficazes, principalmente quando gastamos o dinheiro dos contribuintes?

Poderíamos até imaginar um dia em que poderemos estabelecer o genótipo de todas as crianças numa escola primária para garantir que as que poderão se beneficiar mais com a ajuda tenham os melhores professores. Não somente porque elas melhorarão mais, mas também porque sofreriam mais com uma instrução de má qualidade. As crianças menos suscetíveis - e mais resilientes - muito provavelmente irão bem independentemente de qualquer outra coisa. Depois de seis ou sete anos, esta abordagem poderá melhorar substancialmente o aproveitamento do estudante e seu bem-estar.

Permitam-me dizer claramente que mesmo que a identificação possa ser feita de maneira eficiente, isto não significa abandonar os que parecem ter uma resposta menos clara. Cada criança merece uma qualidade de vida decente, independentemente do custo ou benefício a longo prazo. Além disso, o dinheiro economizado reduzindo as intervenções aos que mais provavelmente se beneficiarão deveria ser utilizado para explorar alternativas de intervenção diferentes e possivelmente radicais. Afinal, não sabemos se as crianças que parecem não ser suscetíveis a intervenções, o são de fato, ou se elas não são simplesmente afetadas por o que está sendo proporcionado a elas. O objetivo último não deveria ser economizar dinheiro, mas gastá-lo de maneira mais correta.

Por enquanto, depois de meio século de intervenções na infância que produziram afirmações exageradas de eficiência e ineficiência, precisamos reconhecer a realidade, ou seja, que algumas crianças são mais afetadas por suas experiências típicas do desenvolvimento - desde punições excessivas a um suporte extremamente cuidadoso - do que outras. Isto tem implicações para os cientistas que avaliam as intervenções, para as autoridades que as financiam e para os pais que criam seus filhos.

Jay Belsky é professor de Desenvolvimento Humano da Universidade da Califórnia

Tradução de Anna Capovilla