As crianças e o dinheiro: a grana começa aqui

Amy Joyce - O Estado de S.Paulo

Use as tarefas como lição sobre ética de trabalho, e a mesada como meio para ensinar aos filhos como poderão se salvar da ruína financeira quando forem mais velhos

Portanto, quando é que você vai resolver ter esta conversa? E, o que é mais difícil, como vai abordar o assunto?

Foto: Miki Yoshihito/Creative Commons

Quando? "Seus filhos começarão a falar em dinheiro antes que você resolva falar com eles a respeito", diz Ron Lieber, autor do livro The Opposite of Spoiled: Raising Kids Who Are Grounded, Generous and Smart About Money, e também colunista que escreve sobre finanças pessoais para The New York Times. Esta conversa começou, para Lieber e sua família, quando sua filha comentou que algumas pessoas tinham um subsolo, muitas vezes cheio de brinquedos. Ela queria um também. Eles moram num apartamento.

Agora, tente explicar a uma criança pequena por que uma casa num bairro com um subsolo pode custar uma fração do que você pagaria por um apartamento no Brooklyn. A questão chega a ser incompreensível mesmo para nós adultos.

Não espere que eles aprendam sobre dinheiro na escola, diz Lieber.

"É essencial que a gente queira ter sua própria casa, e é particularmente importante saber controlar o dinheiro", afirma, porque há uma relação direta entre falar sobre dinheiro e ensinar valores. "Não acho que devamos confiar aos outros este tipo de tema". 

Um bom momento para começar a ensinar realmente sobre dinheiro, com honestidade, ele sugere, é logo depois da primeira visita da fada do dente. As crianças compreendem que o dinheiro é delas, mas ainda não entendem claramente o que podem fazer com ele, ou como podem conseguir mais. Esta é a nossa chance de discutir a questão, investimentos e responsabilidades financeiras. E é aí que podemos falar nos três jarros: poupar, gastar e doar.

Foto: Kristina Alexanderson/Creative Commons

Como? Deborah Gilboa, médica de família de Pittsburgh, especialista em educação dos filhos e desenvolvimento dos jovens, diz que começou a conversar sobre dinheiro com seus quatro rapazes quando eles começaram a pedir. (Mais ou menos, quando nasceram, então?)

O segredo, diz, é mostrar às crianças o que acontece de fato. Atualmente, todos nós usamos cartões de débito para adquirir todo tipo de coisa, de um pacotinho de cartões de beisebol a uma compra de 200 dólares no supermercado. É bom tentar usar dinheiro vivo às vezes, e explicar que "nós trocamos este dinheiro, para obter" alguma coisa em troca, ela diz. Quando as crianças veem que a gente paga com dinheiro em espécie, visualizam melhor a verdade do que "vem fácil - vai fácil", de que nós adultos tanto falamos.

Mas o fato é que eles não aprenderão sobre dinheiro até que tenham o seu e sintam como é decepcionante quando ele se vai. Ou quando experimentam a alegria de trabalhar duro para poupar a fim de poder comprar alguma coisa que desejam terrivelmente.

Gilboa e Lieber propõem que se dê às crianças uma mesada desde a infância - o dinheiro da fada do dente - e que o distribuam em três jarros. Um para gastar, um para poupar e o outro para doar. Isto poderá incluir também qualquer presente em dinheiro que recebam, a não ser que os pais o estejam depositando diretamente num fundo destinado a pagar a universidade.

Os jarros são o equivalente de um orçamento para o adulto, diz Lieber. A maioria das pessoas gasta uma boa parte do que ganha, mas, "se nos comportarmos" e pouparmos pelo menos 10% (espero que mais do que isto), e deixarmos um pouco para obras de caridade, desse modo estaremos representando os valores que queremos inculcar nos nossos filhos. O jarro da doação mostra generosidade, o dos gastos ensina modéstia e prudência, e o da poupança representa a gratificação adiada.

"Deem a eles um pouco de dinheiro obedecendo ao seu sistema de valores", diz Gilboa. O sistema usado na sua família estabelece que é prudente colocar 10% da quantia no jarro das doações, e dividir o restante entre um jarro para gastar e o da poupança/ investimentos. Os pais podem falar sobre o que fazer com o dinheiro destinado às doações, encontrar uma instituição ou uma causa que seja importante para seu filho. Use este momento para ensinar a ele que existe um bem maior.

Eles podem usar o dinheiro do jarro dos gastos como preferirem, inclusive para "algo que você não gostaria que eles comprassem". Mas é bom deixar que errem um pouco. Talvez chorem quando se derem conta de que gastaram aqueles 5 dólares numa besteira total.

"É melhor que cometam erros na hora de usar o dinheiro quando são pequenos e têm um colchão de proteção, do que quando forem mais velhos", afirma.

A mesada deveria estar relacionada a tarefas? Esta é uma questão importante para a minha família e foi discutida mais de uma vez com amigos.

"As tarefas domésticas são realmente importantes, mas deveriam ser usadas para ensinar" às crianças a ajudar em casa, diz Gilboa. Se você relaciona as tarefas ao dinheiro, "o arranjo não passa de um emprego, e você pode simplesmente deixá-lo... Além disso, eu não recebo pelas minhas tarefas na casa. Você precisa fazê-las porque faz parte da família e é o que nós fazemos".

Ainda ressalta, se seus filhos são punidos e não recebem a mesada, mesmo assim terão de fazer suas tarefas. Ou se estiverem no acampamento de verão e não fizerem as tarefas, continuarão recebendo a mesada.

Lieber concorda. "Os adultos não recebem pelas tarefas domésticas. Não é assim que o mundo funciona", acrescenta. 

Use as tarefas como lição sobre ética de trabalho, e a mesada como meio para ensinar aos filhos como poderão se salvar da ruína financeira quando forem mais velhos.

Pense em ensinar-lhes a respeito do dinheiro de um ponto de vista muito mais amplo - e não apenas no aumento de 2 dólares na mesada, aconselha Lieber. Você certamente não irá querer que a primeira grande decisão dos seus filhos em matéria de dinheiro seja a escolha de uma universidade. Ajude-os a crescer aprendendo de onde vem o dinheiro, aonde ele vai e como fazer um bom investimento.

"De repente, a universidade se torna a decisão mais séria e a decisão financeira mais importante que eles farão na vida ... Temos adolescentes que já tomam esta decisão, uma decisão de seis dígitos.

"E uma vez que terão de enfrentá-la, embora com uma pequena ajuda dos pais, esta não pode ser a primeira vez que eles precisarão decidir sobre questões financeiras. Devemos ensinar a eles muito mais cedo como lidar com grandes decisões sérias que envolvem dinheiro, como gente grande".

Tradução de Anna Capovilla