Amamentação em locais públicos: onde está a polêmica?

Juliana Domingos de Lima - O Estado de S.Paulo

O constrangimento deriva da confusão entre um ato de nutrição e um ato sexual. O seio à mostra causa inevitável erogenização mas tem representação dupla em nossa cultura

Em algumas tribos indígenas brasileiras, assim como em civilizações africanas e na França dos séculos XVII e XVIII, a mulher que amamenta sofre forte interdição sexual. Ela é proibida de ter relações com o parceiro até que deixe de amamentar, supostamente para preservar a saúde da criança, que seria prejudicada pela interação do leite com o sêmen. Se o costume nos parece anacrônico, a visão de um seio nu materno ainda confunde a imagem erogenizada de mulher e a imagem cândida de mãe presentes em nossa cultura,  aterrorizando alguns passantes quando mulheres se sentem no legítimo direito de alimentar seu rebento publicamente. 

A aprovação recente (no último dia 10) pela Câmara Municipal de São Paulo do projeto de lei que prevê multa para estabelecimentos que constrangerem ou proibirem mães de amamentarem no recinto aguarda sanção do prefeito Fernando Haddad. Motivado por episódios como o vivido por Roseane Domingues, “aconselhada” por um segurança a amamentar fora da Pinacoteca, o projeto de lei levanta dois questionamentos: 

1) Por que é necessária uma lei para assegurar um direito garantido? 

No esforço de chamar atenção para o direito de amamentar em público, a campanha fotográfica “When Nurture Calls” (Quando a alimentação chama, em português), criada pelos estudantes da Universidade do Norte do Texas Kris Haro e Johnathan Wenske, exibe mulheres dentro de banheiros públicos amamentando seus bebês. Com slogans provocadores, como “mesa para dois” e “bon appétit” e a pergunta “você comeria aqui?”, incita à reflexão do por que uma mãe deveria ter hora e lugar certos para dar de mamar se o bebê não tem hora nem lugar para sentir fome.