Alicerce dos bons casamentos está em prestar atenção no que diz o parceiro

Gina Barreca - O Estado de S.Paulo

Eis a lição que aprendi em 23 anos de casamento: o amor não é cego, mas pode ser um pouco surdo às vezes

No início de um relacionamento, prestamos atenção em cada palavra dita pelo outro com o mesmo afinco que nos prendemos aos seus braços: mais para demonstrar afeto do que para satisfazer uma necessidade real. Rimos de cada história e saboreamos cada relato exagerado. Cada conversa abre um novo caminho.

Percebemos como é importante ser ouvido e o quanto saber ouvir é ainda mais importante

Percebemos como é importante ser ouvido e o quanto saber ouvir é ainda mais importante Foto: Reuters

Sentimos o coração bater mais rápido quando ouvimos nosso nome ou alguma palavra de carinho dita pela pessoa amada. Passamos horas pensando se devemos repetir nossa declaração de amor, ou se já estaríamos exagerando.

Sua cara-metade provavelmente escutou na primeira vez, mas quem sabe seja o caso de repetir.

Então a familiaridade se instala e, como os alicerces de uma casa, um se acomoda no outro, para o bem e para o mal. (Em todos os relacionamentos é sempre para o melhor e para o pior: não se iluda pensando que esta é uma pergunta de múltipla escolha.)

Aprendemos cada gracejo e marca sagaz de um relato engraçado já bem conhecido. Sabemos quando um exagero está perto de uma mentirinha inocente e quando uma mentirinha inocente se aproxima de uma mentira mesmo. Sentimos o coração bater mais forte quando ouvimos nosso nome ou uma declaração de carinho porque, com frequência, isso precede um pedido ou crítica. Se não há resposta quando gritamos, não sabemos se é melhor repetir o grito, ou se já estaríamos exagerando.

Percebemos como é importante ser ouvido e o quanto saber ouvir é ainda mais importante. Não se pode exagerar ao ouvir. Assim, os dois se ouvem e aprendem os trejeitos um do outro.

Num bom relacionamento, o diálogo sempre muda um pouco, mesmo quando estamos mais ou menos ensaiando outras conversas. Se tivermos sorte, raramente nos veremos tocando para uma plateia vazia.

E, nos melhores momentos, nas vidas mais abençoadas, nos relacionamentos mais protegidos, mais duramente conquistados e cultivados, podemos chegar a um ponto em que deixamos de escutar com os ouvidos e passamos conhecer o outro no nosso íntimo.

Não é apenas saber como o outro vai terminar a frase, embora isso faça parte dessa intimidade. É uma questão de saber que o chão sobre o qual os alicerces foram construídos é sólido; é compreender que há rumos ligando um ao outro que passam por baixo de ambos como cabos de força, enterrados sob a terra, silenciosos e invisíveis.

Há um antiga piada a respeito de um casal de velhos. Ele quer provar que a pobre mulher está perdendo a audição e decide reunir provas para levá-la ao médico. Enquanto ela cozinha, ele começa o teste. Chegando pela porta sem ser visto, ele pergunta: "querida, o que tem para o jantar?". Nenhuma resposta. Ele se aproxima alguns metros e fala mais alto. "Querida, o que tem para o jantar?" Outra vez, nada. Ela nem mesmo se volta para ele. O marido se sente mal, mas ela precisa reconhecer que está com um problema. Finalmente, a menos de um metro atrás dela, ele faz uma última tentativa. "QUERIDA, O QUE TEM PARA O JANTAR?", berra ele. "PELA TERCEIRA VEZ", responde ela, gritando, "O JANTAR É FRANGO".

Meu marido tem zumbido no ouvido, algo que costumávamos descrever como um "ruído agudo nos ouvidos", mas hoje definimos como a sensação de som quando não há nenhum som externo presente. De acordo com Michael, ao morar comigo não há momentos sem "nenhum som externo presente", mas estamos dando um jeito.

É claro que há conversas antigas: num feriado recente, ele parou o carro para pedir informações. Uma moradora local disse a ele para entrar depois do "estacionamento". Mas Michael entendeu ela dizer "acostamento". Ela apontava na direção de uma saída, mas ele supôs que o gesto indicava a pista auxiliar. "Tenho mesmo que seguir pelo acostamento?", perguntou ele. A mulher continuava apontando na direção do suposto estacionamento, tentando fazê-lo entender. "Estacionamento! É depois do es-ta-cio-na-men-to!" "Acostamento? Seguir pelo acostamento?" Por fim, ela sorriu e saiu andando. E, ao voltar para o carro, ele me contou o que ocorrera, e rimos tanto que chegamos às lágrimas.

Passados 23 anos parece que as conversas podem se tornar jornadas épicas (passando pelo acostamento, por que não?). E as melhores partes merecem ser repetidas – com todo o entusiasmo mútuo.

Tradução de Augusto Calil