Afirmando a identidade da moda muçulmana

Elizabeth Paton/The New York Times - O Estado de S.Paulo

Recentemente, em silêncio e sem muito alarde, a 22° 'Vogue' global foi publicada

Princesa Deena Aljuhani Abdulaziz, a nova editora-chefe da Vogue Arábia.

Princesa Deena Aljuhani Abdulaziz, a nova editora-chefe da Vogue Arábia. Foto: Lauren Fleishman/The New York Times

Em preto e dourado, as brilhantes páginas digitais em muitos aspectos se pareciam com qualquer outra edição internacional da revista de moda mais poderosa do mundo. Há uma entrevista em vídeo com a modelo Gigi Hadid, um carrossel colorido das tendências da primavera 2017, um editorial luxuoso apresentando artigos mais recentes da Chanel, textos sobre marcas locais que estão bombando e astros da mídia social.

Mas aí vem isto: "Como arrumar o cabelo sob o hijab". E isto: Malikah, estrela hip-hop que cresceu em Beirute, descrevendo como começou a cantar com máscara para esconder a identidade dos conservadores repressores. E logo depois de um curta cinematográfico com o estilista libanês Elie Saab e a modelo Elisa Sednaoui em salas de jantar enfeitadas e jardins murados exuberantes, há a edição definitiva sobre os vestidos longos mais elegantes da temporada.

O site da Vogue Arábia.

O site da Vogue Arábia. Foto: Vogue Arabia via The New York Times

Bem-vindo à Vogue Arábia, digital e bilíngue, a primeira incursão aos corações, mentes e carteiras das mulheres de 22 países da Liga Árabe. Por isso, é a voz mais recente e potencialmente mais forte a se juntar ao coro que exige reconhecimento global e respeito pela cultura muçulmana e seu poderio comercial. Desde a Semana da Moda Árabe, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, que aconteceu em outubro, até a Semana da Moda de Jacarta, realizada na capital da Indonésia, vitrines formais de moda estão sendo institucionalizadas em todo o mundo islâmico.

Ao mesmo tempo, as pessoas também estão exigindo o que lhes é devido: recentemente, uma adolescente saudita de 15 anos pediu a criação de um emoji com hijab, enquanto uma jornalista muçulmana totalmente vestida foi destaque usando o traje típico na edição de outubro da Playboy. Se a moda ajuda a definir uma narrativa social e cultural, então esse movimento está focado em remodelar a percepção da identidade das muçulmanas do século 21 de uma maneira que vai muito além do véu.

Desfile da designer Anniesa Hasibuan.

Desfile da designer Anniesa Hasibuan. Foto: REUTERS/Beawiharta

"Essa Vogue está muito atrasada. Os árabes merecem sua Vogue há muito tempo", disse Deena Aljuhani Abdulaziz, de 41 anos, princesa saudita que vive em Riad, que já foi lojista e acabou de ser promovida a editora-chefe da Vogue Arábia, que estava em Paris durante a Semana da Moda.

Embora a Vogue não seja a primeira revista estrangeira de estilo de vida feminino a publicar uma edição no Golfo (Harper Bazaar, Marie Claire e Elle já tiveram edições árabes, por exemplo), ela ambiciona uma audiência que se estende muito além de suas fronteiras geográficas imediatas.

"A mulher da Vogue Arábia é aquela que celebra a tradição, mas também se considera uma cidadã global altamente educada. Não se esqueça de que conhecemos o luxo quase melhor do que qualquer um na terra. As mulheres do Oriente Médio são clientes sérias da alta costura desde o final dos anos 1960. Já estávamos pelo mundo muito antes das russas e chinesas aparecerem", disse Deena.

Segundo ela, uma parte fundamental da sua missão editorial na Vogue é erradicar os equívocos em torno da diáspora árabe e muçulmana. A nova sede da revista será em Dubai e, ao lado da plataforma online que começa em março. A equipe editorial de 25 integrantes produzirá 11 edições impressas por ano, duas das quais serão exclusivamente em árabe.

"A Vogue Arábia não quer apenas ser atraente para nossa própria região, mas garantir uma ponte transcultural, uma bela fonte de inspiração, que você vai querer acessar mesmo que seja de outra área", disse ela.

"Muitas pessoas não sabem o que é exatamente a Arábia e também há grandes equívocos em torno da moda da região.Tenho a responsabilidade de abordar essas questões, através da lente da moda, claro. Não estou interessada em fazer uma revista política. Existem muitas outras que fazem isso. Mas o que posso oferecer para as leitoras, as que estão perto e as que estão longe, é a ideia de que o que nos une é muito maior do que o que nos diferencia", acrescentou Deena.

Anniesa Hasibuan, de 30 anos, concorda. A estilista indonésia de coleções modestas, com 124 mil seguidores no Instagram, fez história em setembro durante a Semana da Moda de Nova York com um desfile no qual todas as modelos usavam hijabs de seda marfim, pêssego e cinza.

"Um hijab não é apenas um símbolo ou uma afirmação, mas uma parte da identidade da mulher muçulmana, que elas defendem com confiança. Acredito que a moda seja um dos caminhos por onde podemos começar essa mudança cultural da sociedade atual para normalizar o hijab nos EUA e em outras partes do Ocidente, para quebrar estereótipos e acabar com equívocos", disse Anniesa, cujo desfile foi aplaudido de pé.

Com efeito, a moda árabe está rapidamente se tornando um fenômeno comercial: o mercado global de vestuário muçulmano tem previsão de chegar a US$ 327 bilhões até 2020, de acordo com o último relatório da Global Islamic Economy – maior que o atual mercado de moda britânico (US$ 107 bilhões), alemão (US$ 99 bilhões) e indiano (US$ 96 bilhões) combinados. E uma crescente classe média muçulmana, com maior afluência e gostos sofisticados, além do orgulho por sua religião, irá provavelmente triplicar, de estimados 300 milhões em 2015 para 900 milhões em 2030, de acordo com a Ogilvy Noor, consultoria de branding islâmica.

Por isso não é surpresa que, nos últimos 18 meses, uma série de marcas ocidentais venha trabalhando para entrar nesse mercado em expansão, como a DKNY, que criou uma coleção para o Ramadan em 2014, a Tommy Hilfiger e a Dolce & Gabbana, que incluiu uma série de hijabs e abaias (vestidos) de luxo, feitos com os mesmos tecidos do resto de sua coleção. Sem mencionar o controverso burquíni da Marks & Spencer, e a coleção LifeWear da Uniqlo, criada em colaboração com uma estilista muçulmana, Hana Tajima, que inclui "vestidos alegres" e " hijabs icônicos".

Shelina Janmohamed, vice-presidente da Ogilvy Noor, disse: "A ascensão da moda árabe ao longo da última década chegou junto com o surgimento da 'Geração M', as muçulmanas que acreditam que fé e modernidade andam de mãos dadas. Elas querem usar sua religião com orgulho, mas também se sentir parte das sociedades à sua volta".