Acho um absurdo pagar o dobro só porque está escrito Chanel, diz importador

Gabriela Marçal - O Estado de S.Paulo

Dono da Acaju do Brasil, distribuidora de marcas importadas para lojas como NK Store e Shop2gether

Dimitri Mussard distribui 10 marcas internacionais em 50 multimarcas brasileiras

Dimitri Mussard distribui 10 marcas internacionais em 50 multimarcas brasileiras Foto: Divulgação

O fundador da Acaju do Brasil, distribuidora de marcas importadas de moda, é o jovem executivo francês Dimitri Mussard. Ele já atuou em empresas como Hermés, Clinique e Estée Lauder; morou nos Estados Unidos, Holanda e Inglaterra. Em 2010, ele desembarcou no Brasil e diz ter o audacioso objetivo de ajudar a consolidar a cultura de moda por aqui. 

"Eu só me interesso pelas marcas estrangeiras, não represento nenhuma marca brasileira. Nosso interesse é trazer para um país que a gente ama, que é o Brasil, marcas que achamos de melhor qualidade do que as marcas nacionais. " 

A Acaju do Brasil reúne dez marcas e as distribui para cerca de 50 multimarcas físicas e online pelo Brasil como NK Store, Shop2Gether, Bazaar Fashion e Lool. Segundo Mussard, cada uma das marcas vende por estação entre R$ 100 mil a R$ 500 mil. 

Entre os principais mercados estão São Paulo - não só a capital, mas Ribeirão Preto e Campinas também são cidades relevantes; Minas Gerais; Goiás; no Nordeste destacam-se Fortaleza e Recife; Rio de Janeiro; no Sul, Florianópolis e Curitiba são significantes.

Sobre as dificuldades que encontra para importação, ele é taxativo: "É ridículo proteger uma indústria que você não tem". De acordo com o executivo, nesse ambiente as marcas nacionais podem continuar tendo uma produção de baixa qualidade com preço alto. "Isso é uma vergonha para vocês na verdade que pagam impostos para quê?"

Quais são os principais desafios da Acaju do Brasil?

Temos muito problemas, mas a maior dificuldade é que as marcas gringas veem o Brasil como um eldorado, um país enorme, no qual devemos vender muito, mas nós pagamos 100% de imposto. Entre o momento que você compra uma mercadoria e ela chega no Brasil já vale duas mercadorias. É muito difícil fazer com que as marcas entendam a realidade do mercado, por isso eu mostro para as empresas todas as taxas que tenho que pagar, mas eles não acreditam que o valor pode ser tão alto. Eles pensam que eu estou fazendo um lucro absurdo, por isso estou abrindo todas as minhas planilhas, as marcas sabem o meu lucro e o markup, que é de 2,5%. Minha comissão é de 50%, o que é nada para um distribuidor que assume todos os riscos, mas acredito no que estou representando e espero ter um retorno em longo prazo, então não me interessa ganhar muito dinheiro agora. Eu vejo mais esse processo como uma construção de imagem da Acaju do Brasil. Em longo prazo, pretendo ser o maior distribuidor de marcas estrangeiras no Brasil em termos de qualidade, não me interessa o volume, portanto não me interessa fazer a distribuição de marcas sportwear. O que me interessa são os materiais, a história, o objetivo, marcas que não gastem com propaganda na mídia, mas que invistam em pesquisa e desenvolvimento de novas técnicas. Porque é isso que falta no Brasil, eu vejo poucas multimarcas legais do mesmo padrão que temos no mundo inteiro, não só na Europa, mas também no Japão, nos Estados Unidos. Produtos que têm essa concepção no exterior chegam muito caros no Brasil. Então perdemos a força, porque as pessoas aceitam consumir uma marca desconhecida se ela não for tão cara, mas não aceitam pagar caro em algo totalmente desconhecido no Brasil. 

Você acredita que ao pagar mais caro as pessoas preferem grifes que tenham algum status no mercado de luxo?

Eu acredito, pois o Brasil é um país jovem, isso é um fato. Faz pouco tempo que as marcas internacionais começaram a chegar no Brasil, o presidente Collor abriu as importações em 1992. Então, ainda não há uma cultura tão grande de moda, desculpe-me mas essa é a realidade do mercado. É óbvio que uma das maneiras de mostrar o poder, quando você é um país jovem, é pelas aparências. Isso acontece com um carro, uma bolsa da Louis Vitton ou da Chanel, com um logotipo. Uma bolsa cara da Les Petits Joueurs também é de excelente qualidade, digo isso porque eu fui ver as fábricas. Eu conheço os artesãos que fazem essa bolsa e digo que são os mesmos de grandes marcas de luxo, mas a qualidade não é o mais interessante para pessoas que tem tanta grana. Para essas pessoas, é melhor comprar uma bolsa de uma grife famosa por duas razões: a primeira é por uma prova de qualidade, você sabe que o que você comprou vai durar um tempo e a segunda é porque você pode mostrar que você tem o poder de comprar esse objeto. É muito mais fácil para as grandes grifes venderem em países novos, como era na Rússia até 2010 - eu conheço bem esse país, porque o meu pai é russo -, mas se você vai na Rússia agora, em Moscou, você vê multimarcas de excelente qualidade e os russos que têm muito dinheiro estão deixando essas coisas muito óbvias para ir para um lado um pouco mais alternativo, não apostam apenas em monogramas. O Brasil vai chegar nesse ponto como qualquer país do mundo, talvez demore um pouco mais.

E esse momento que você está esperando?

Exatamente. Eu não vou citar nenhum bar, balada ou restaurante famoso aqui, mas se você vai em qualquer lugar desses aqui em São Paulo, nos Jardins, oito de dez mulheres estão com a mesma bolsa. Uma vez isso acontecer é ok, mas ver a mesma bolsa durante anos e anos cansa e a mulher que a comprou também vai querer usar coisas diferentes, isso vai estimular a curiosidade dessas mulheres que vão pesquisar mais online, vão ler mais revistas. Assim cria-se uma cultura de moda e eu espero que essas mulheres procurem as marcas que eu represento. 

Você tem a pretensão de trazer a cultura de moda que já existe na Rússia para o Brasil?

É a cultura que existe na Europa. Eu sou francês e vejo que a francesa tem uma cultura de moda grande e ela não quer ser igual a outra, ela sempre quer ter coisas diferentes, especialmente, em termos de acessórios, porque os básicos são mais clássicos. Um jeans e uma camiseta combinados com uma bolsa e óculos diferentes. Eu acho isso muito interessante, eu gostaria de trazer esse conhecimento para o Brasil.

 

Quais são os outros exemplos de produtos que têm a mesma qualidade, mas não são tão reconhecidos?

Os artesãos que fazem a bolsa da Céline são os mesmos que fazem as do Les Petits Joueurs. Já trabalhamos durante quatro anos com a Weill, uma marca muito tradicional francesa, que tem um tweed especial feito no mesmo lugar que a Chanel faz esse tecido. Então, você vai comprar o mesmo paletó de tweed por um terço do valor feito pelos mesmos artesãos e com a mesma matéria-prima. Se o consumidor está feliz em pagar o dobrar só porque está escrito Chanel, tudo bem, mas eu pessoalmente acho absurdo. O que me interessa é justamente trazer marcas que não cobram só pelo nome. E por isso que eu falei no início que é importante para mim trazer marcas que não gastam com mídia, porque se você gasta na mídia você tem que recuperar esse dinheiro. Quando a Chanel e outras grandes marcas fazem desfiles enormes eles precisam recuperar esse dinheiro de outra forma. Então, todo esse custo vai ser embutido no preço de varejo e quem vai pagar isso é o cliente final. Acho isso bom também, mas prefiro comprar coisas de qualidade que não têm preços absurdos. 

 

Entre as marcas que você representa quais são os principais diferenciais em relação aos produtos brasileiros? 

O principal diferencial dos nossos produtos é que eles não tem um logotipo, eles têm excelente matéria-prima, não são feitos na Ásia, são feitos na Europa. Na questão da sustentabilidade, a Twins For Peace tem um trabalho social que ao comprar um par de tênis outro é doado para uma criança carente e todo o material usado é reciclável. A Suit firma parceria com uma empresa chinesa, pois os chineses são os únicos que possuem uma técnica para desenvolver um cashmere impermeável. A Itália, na verdade, já tem o cashmere impermeável, mas o da Suit é diferente porque consegue guardar o calor humano, pois vem da Dinamarca, onde faz muito frio e eles investem nessa tecnologia. A Les Petits Joueurs tem uma bolsa feita com um tweed de couro desenvolvido por eles. Essas marcas estão gastando com inovação.

 

Quais são os principais critérios que você usa para escolher quais marcas trazer para o Brasil?

A primeira coisa que eu faço é falar de todas as dificuldades do mercado brasileiro, se ainda assim a marca estiver a fim de continuar com a gente - o que é difícil sinceramente- prosseguimos. Então, eu apresento a marca, os preços, o catálogo, as celebridades que usam - porque isso é muito importante no Brasil - para o meu gerente comercial que vai dizer se ele acredita no potencial da marca. Porque tudo bem você ter marcas legais, mas não é o suficiente. Tem uma marca sueca que eu gosto a Acne, a gente tentou usar essa marca no início, mas não funcionou, porque eu estava vendo essa marca com o meu prisma europeu, mas eu ainda preciso tropicalizar ainda mais a minha visão, por isso o meu gerente comercial é importante para dizer 'Dimitri, essa marca é ruim, você gosta, mas não tem nada a ver com os brasileiros'.