Acabou o romance entre o mundo da moda e a Casa Branca?

Vanessa Friedman - The New York Times

Como a vitória de Trump pode abalar a relação entre os estilistas e o governo dos Estados Unidos

Donald, Melania e Barron Trump no discurso da vitória

Donald, Melania e Barron Trump no discurso da vitória Foto: Eric Thayer/The New York Times

No dia 9 de novembro, quando Hillary Clinton ficou de pé no New Yorker Hotel para o discurso de adeus, ela o fez usando um dos seus conhecidos terninhos Ralph Lauren. Dessa vez ele era cinza escuro, com lapelas roxas e camisa da mesma cor (e uma gravata combinando para Bill Clinton), para ressaltar um ponto, assim como vários looks dela durante a corrida eleitoral: o modo que as cores dos partidos Democrata e Republicano - azul e vermelho respectivamente - podem se unir para criar algo novo. 

Porém também simbolizou, talvez, o fim do que poderia ser uma relação extraordinária. E possivelmente o fim do espaço fashion na Casa Branca. 

Mais do que qualquer outra indústria, a moda estava comprometida com Hillary. A Vogue América a apoiou publicamente, e foi a primeira vez que a revista se manifestou sobre uma eleição presiencial. O editor da W Magazine, Stefano Tonchi, declarou sua simpatia pela democrata em uma carta do editor. 

Hillary usou conjunto Ralph Lauren no discurso de despedida.

Hillary usou conjunto Ralph Lauren no discurso de despedida. Foto: DOUG MILLS / THE NEW YORK TIMES

A estilista Diane von Furstenberg, presidente do Conselho de Designers de Moda da America, e Anna Wintour, editora da Vogue e diretora artística da Condé Nast, fizeram um levantamento de fundos agressivo para Hillary. 

Estilistas, incluindo Tory Burch, Marc Jacobs e Prabal Gurung, criaram para o "Made for History", a loja da campanha de Hillary, e contribuiram para o desfile do projeto durante a Semana de Moda de Nova York. Elie Tahari divulgou um anúncio publicitário de sua marca com uma presidente mulher. Ralph Lauren virou o conselheiro oficial do guarda-roupa da candidata, a ajudando a definir sua imagem na Convenção Nacional do Partido Democrata e nos debates. 

Isso foi o ápice de uma relação que começou com Hillary na capa da Vogue em dezembro de 1998, a primeira vez que uma primeira-dama estrelou a publicação. 

O relacionamento se estreitou durante o madato Obama com a postura de Michelle, que abraçou o mundo da moda em seu todo, usando marcas acessíveis como J. Crew, novos designers como Jason Wu e Christian Siriano e nomes já estabelecidos na indústria.  Michael Kors e Vera Wang são alguns exemplos. (A sra. Obama também apareceu na capa da Vogue em Março de 2009, abril de 2013 e irá de despedir da Casa Branca na edição de dezembro de 2016.)

Sabendo como ela poderia usar a moda para "expressar ideias" - como foi dito por Joseph Altuzarra - a atual primeira-dama elevou a indústria moda de superficial para substancial. Ela apresentou as roupas como uma exposição de valores: diversidade, criatividade, empreendedorismo. E Hillary parecia inclinada a continuar com a tendência. 

O Trumps, entretando, podem não fazê-lo. 

Com a vitória inesperada do republicano, os estilistas estão presumindo, como foi dito por Altuzarra, que os novos moradores da Casa Branca "terão uma nova relação com a moda", diferente do que o universo fashion se acostumou e colocou suas apostas. 

Sem mencionar o relacionamento com os estilistas. Aspectos políticos e sociais não foram os únicos ignorados pelos Trumps. 

Foi curioso na noite da eleição, por exemplo, Melania Trump também usar Ralph Lauren (um macacão branco), que, segundo a marca, ela comprou em uma loja e não o criou em parceria com o designer. 

De fato, todas as roupas que ela usou na campanha foram frutos de idas ao shopping, o que é oposto de um plano de imagem. Não tem nada errado com isso. Provavelmente isso é o que faz uma mulher que vive em uma cobertura de ouro parecer mais normal (ela faz compras como todo mundo!) mas deixa evidente sua distância da indústria. 

E é surpreendente que, mesmo que a Ralph Lauren seja uma marca americana, o que indica apoio à indústria local, Melania também tenha usado Fendi (italiana), Roksanda Ilincic e Emilia Wickstead (britânicas) durante a corrida presidêncial. Quando foi votar, ela estava com um casaco militar camelo da francesa Balmain sobre os ombros. 

Nem o seu guarda-roupa nem o do resto da família foi usado da maneira tradicional (veja Jackie Kennedy e Nancy Reagan)e nem para evidênciar as virtudes do "made in america" - mesmo que tenha sido uma das mais divulgadas plataformas da campanha de Trump. 

O próprio presidente eleito se manteve com o uniforme de ternos Brioni feitos na China combinados com gravatas vermelhas de sua própria marca. Ivanka, usou vários estilos e marcas, incluindo roupas de sua marca homônima, o top assimétrico Roland Mouret do terceiro debate e o vestido Alexander McQueen usado no discurso da vitória. 

Se existe uma mensagem que unifica o guarda-roupa dos Trump, disse Marcus Wainwright,  CEO da Rag & Bone (outra marca que contribuiu para o "Made for History"), é a de "parecer ricos." 

De fato, o visual da noite da eleição, onde a família surgiu no palco cercando o candidato triunfante, não foi o branco (em Melania e Barron), azul (Ivanka e Tifanny) e vermelho (Donald e Lara) que os Trump usaram - em partes porque as cores pareceram mais acidentais do que calculadas - mas sim o mar de bonés "Make America Great Again" usados pelo público.