A vez da moda unissex

Giovana Romani - O Estado de S.Paulo

Na Semana Masculina de Milão, Prada, Gucci e Ermenegildo Zegna diminuem as barreiras entre os gêneros ao apresentar roupas com vocação para serem usadas por homens e mulheres

Na coleção masculina da Gucci, o diretor criativo Alessandro Michele usou tecidos, técnicas e acessórios geralmente associados ao closet feminino

Na coleção masculina da Gucci, o diretor criativo Alessandro Michele usou tecidos, técnicas e acessórios geralmente associados ao closet feminino Foto: AFP PHOTO / GIUSEPPE CACACE

Início do desfile da Gucci. Na passarela, o look é composto por calça verde pantalona de inspiração 70’s, casaco longo com detalhes e cinto de camurça, lenço estampado no pescoço, aneis prateados nos dedos, sapato dourado e bolsa vermelha. Ternos com bordados florais, camisas de renda e conjuntinhos de tricô surgem na sequência. Tudo dentro do esperado, não fosse essa uma coleção masculina. Na passarela da Gucci, bem como na da Prada e na de Ermenegildo Zegna durante a Semana de Moda de Milão, que se encerrou nesta terça, 23, as barreiras de gênero foram, mais uma vez, quebradas.

Cada uma a sua maneira, as grifes traduziram em a tendência do momento, o unissex, que representa a nova ambissexualidade e propõe uma forma diferente de pensar a androginia. Não se trata apenas de pegar emprestados elementos do guarda-roupa feminino (ou vice-versa). Mas, sim, de misturar tudo, em uma confusão de gênero indeterminado, como fez a loja de departamentos londrina Selfridges nesta estação, ao unir suas coleções para homens e mulheres em três andares batizados de ‘agender’ (sem gênero). 

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“A reverberação da onda unissex foi impulsionada por Alessandro Michele, diretor criativo da Gucci, que trouxe essa história no último desfile de inverno, seu primeiro à frente da marca”, afirma Sergio Amaral, redator-chefe da revista L’Officiel Hommes, que esteve em Milão para a semana de desfiles. “Mas, agora, ele conseguiu elaborar de maneira mais sofisticada esse jogo entre masculino e feminino e radicalizou.” Na passarela, o estilista colocou meninos e meninas vestidos com peças bordadas, florais e country, cujas modelagens tinham ar setentista. “A mensagem, a meu ver, é de liberdade: gênero ou sexo, na proposta do estilista, não são determinantes no modo de vestir e na escolha dos materiais”, diz Amaral.  

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E foi exatamente na utilização dos tecidos que a grife Ermenegildo Zegna, sob o comando de Stefano Pilati, mostrou a atual ambiguidade da moda. Fluidez, transparência e leveza, elementos caros ao vestuário feminino, ganharam códigos masculinos de elegância em calças, camisas, casacos e ternos. “Mesmo nessa tradicional marca italiana é possível sentir a mensagem do unissex por meio dos materiais usados para construir uma alfaiataria moderna e despojada”, afirma Amaral. O despojamento, aliás, marcou o desfile da Prada, que apresentou seu resort feminino junto com o verão masculino, como já havia feito na última temporada. 

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Novamente, looks em perfeita sintonia foram desfilados por homens e mulheres. Ou melhor, meninos e meninas, já que a coleção tem um ar ingênuo, quase infantil, e parece questionar o momento de entrada na vida adulta. Carros de fórmula 1, coelhos e setas enfeitam tricôs que funcionam bem em qualquer guarda-roupa. A estilista Miuccia Prada vestiu rapazes de cabelos desgrenhados com shorts de escoteiro com a costura aparente, blusas de gola alta fechadas por zíper, camisas de seda e meias sobrepostas.  As moças, por sua vez, usavam as mesmas camisas e meias combinadas a saias estampadas com motivos geek. Uma genial e confusa mistura de referências, idades, gêneros. Como o mundo - e a moda - hoje.