A rotina de beleza de uma transexual

Monique Torres - O Estado de S.Paulo

Caitlyn Jenner, Lea T. e Laverne Cox colocaram a questão dos transgêneros em pauta. Mas quais sacrifícios a decisão exige? Viviany Beleboni, que causou polêmica na última Parada Gay, fala sobre suas transformações corporais

A modelo Viviany Beleboni: "Já gastei o valor de um carro popular no processo de transformação", diz ela

A modelo Viviany Beleboni: "Já gastei o valor de um carro popular no processo de transformação", diz ela Foto: GABRIELA BILO/ ESTADAO

Na sociedade, na mídia e na moda, a questão dos transgêneros está na pauta do dia. Aos 65 anos, o ex-atleta americano Bruce Jenner assumiu sua uma nova identidade, a de Catlyn Jenner, na capa da Vanity Fair e quebrou recordes: no dia do lançamento, o site da revista recebeu mais de nove milhões de acessos. O assunto causa mesmo curiosidade. Desde que apareceu carregando uma cruz na última Parada Gay de São Paulo, a modelo transexual Viviany Baleboni saiu do anonimato e viu sua vida mudar. 

O mesmo ocorreu com a brasileira Lea T., que ganhou fama após estrelar a campanha da grife francesa Givenchy, em 2010, e fez a cirurgia de mudança de sexo em 2012. Recentemente, o modelo sérvio Andrej Pejic, conhecido pelo visual andrógino exibido em anúncios das marcas Marc Jacobs e Jean Paul Gaultier, também tornou-se mulher e assumiu a identidade de Andreja Pejic. “Antes da operação eu vivia entre gêneros", costuma dizer a jovem de 23 anos.

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Segundo a sexóloga e psicóloga Imacolada Marino Gonçalvez, é considerada transexual a pessoa que nasce biologicamente pertencente a um determinado sexo, mas percebe-se em outro e tem a necessidade de fazer a mudança física para se reconhecerem. "A diferença entre a pessoa transexual e um travesti é a de, na segunda opção, a pessoa não sente a necessidade de modificar seu sexo para se sentir bem. Eles reconhecem seus corpos e são felizes com eles, apesar de transitar entre os gêneros", diz a sexóloga.

Assim como Caitlyn, Lea e Adrea, Viviany Beleboni não se sentia confortável em seu corpo masculino e começou a transformá-lo na adolescência. As primeiras intervenções foram os implantes de silicone colocados nos seios e nas nádegas. Na sequencia, passou por cirurgias para suavizar os traços do rosto quando diminuiu o nariz e raspou o osso protuberante da testa para deixá-lo menos evidente - a chamada feminização, que é uma cirurgia estética que consiste na raspagem de determinados ossos faciais para deixá-los mais suaves. "Não sei o valor exato, mas com certeza já gastei o valor de um carro popular em todo esse processo", diz ela. 

Antes e depois: Viviany passou por uma cirurgia para raspagem do osso da testa. Ela também aplica botox para deixar o rosto menos anguloso

Antes e depois: Viviany passou por uma cirurgia para raspagem do osso da testa. Ela também aplica botox para deixar o rosto menos anguloso Foto: Divulgação

Aplicações anuais de preenchimento nos lábios e botox no queixo e nas bochechas ajudam a deixar seu rosto mais feminino - já que antes a modelo tinha o maxilar anguloso e marcado. Viviany tomou hormônios por pouco tempo, pois "não gostava da ideia de ingerir algo que pudesse se tornar uma bomba relógio” em seu organismo. Devido à escolha, precisou investir em dezenas de sessões de depilação a laser para remover a barba. Em média, uma sessão do procedimento custa R$ 300. “No começo, a pele fica muito sensível e avermelhada, mas com o tempo os pelos ficaram mais escassos e começaram a sumir”, diz. 

Os cabelos da modelo ganham volume extra com algumas mechas de megahair e crescem com a ajuda de uma vitamina a base de queratina conhecida entre as mulheres, o Pantogar. Diariamente, Viviany ingere também duas cápsulas de colágeno, que prometem deixar a pele mais firme e viçosa. A cintura fininha e as coxas grossas são fruto de muita malhação - ela vai a academia em dias alternados durante a semana e faz seus treinamentos de dança em casa.

As unhas são naturais - e não postiças - e feitas por ela mesma. “Aprendi a tirar cutícula e passar esmalte em vídeos na internet”, conta. “Eu me viro.” Apesar de já ter feito investimentos altos no próprio corpo, Viviany também precisa economizar. Mora em um apartamento alugado no centro de São Paulo, trabalha como dançarina em uma boate na região, fotografa algumas campanhas para marcas pequenas e faz performances como a da Parada Gay. 

Viviany na casa noturna Flex, onde faz apresentações de dança. A modelo coloca aplique nos cabelos para deixá-los mais volumosos

Viviany na casa noturna Flex, onde faz apresentações de dança. A modelo coloca aplique nos cabelos para deixá-los mais volumosos Foto: GABRIELA BILO/ ESTADAO

“Quando vou dançar e atuar costumo me maquiar bastante, mas no dia a dia procuro ser discreta", diz Viviany, que no dia das fotos para esta reportagem apareceu com sombra esfumada, delineador gatinho e bastante máscara de cílios nos olhos, blush rosa e gloss nos lábios. Já as roupas são mais ousadas. Ela gosta de vestidos e jeans justos e tops decotados que deixam os seios em evidência e parte da barriga sarada à mostra. “Gosto de comprar, mas não me importo com marcas. Acho um absurdo cobrarem caro por algo popular, que posso achar com a mesma qualidade e mais barato se der uma pesquisada”, diz. “E  também não tenho problemas em encontrar roupas do meu tamanho.” Ela mede 1,79 e pesa 74kg. 

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Assista ao vídeo sobre a transformação de sexo de uma adolescente americana: