A moda toma conta do museu

Maria Rita Alonso - O Estado de S.Paulo

Um dos maiores especialistas em moda no Brasil, fala por que as grifes agora investem tanto em exposições

O professor João Braga estava rouco de tanto falar. Um dia antes da inauguração da exposição Museo Guggi, sua palestra aos monitores da exposição, recém-inaugurada em São Paulo, durou mais de três horas. No dia seguinte, ele recebeu clientes vips da marca para mais uma rodada de explicações. A grife contratou o professor para que ele esclarecesse a importância histórica das principais peças da mostra: bolsas, vestidos, lenços, além de vídeo-instalações. 

Exposição da Gucci em São Paulo

Exposição da Gucci em São Paulo Foto: Divulgação

Essa é a terceira grande exposição de peças vindas de grifes de luxo na capital paulista no último ano. Graduado em Artes Plásticas, pós-graduado em História de Indumentária pelo Instituto Paulista de Museologia, o professor João Braga é uma referência do mundo acadêmico brasileiro no assunto. Recentemente, vem sendo procurado também para consultorias e curadorias de exibições ligadas à moda. Aqui, ele fala sobre o movimento de aproximação das grifes centenárias com os museus, a importância do artesanato e do manufaturado na cultura europeia e do legado das grifes de luxo, que agora buscam ganhar status de arte.

O senhor considera legítima a entrada de artigos de luxo em museus?

Essa tradição de moda merece ser preservada. As grifes buscam espaço para serem representadas dentro da categoria de artes visuais porque existe uma valorização da manufatura, isso é algo muito significativo hoje. Está ligado ao que chamamos de luxo contemporâneo, que pode se referir a um cristal bacará ou a um sapato de couro. São objetos manufaturados, feitos de maneira única, com base em processos tradicionais e com certa exclusividade.

Quais são as vantagens para uma grife expor em um museu?

Esses artigos que viraram, de certa forma, ícones de determinada época são legitimados automaticamente quando entram no museu. As grifes estão em busca do status de uma obra de arte para essas peças. Sabendo da importância da tradição como relevância no mercado, as grandes marcas criam novos produtos, mas não perdem as antigas referências. Ao contrário, tentam adaptá-las aos novos tempos e resgatar sua memória constantemente.

Artigos de luxo que viraram, de certa forma, ícones de determinada época são legitimados automaticamente quando entram no museu. As grifes estão em busca do status de uma obra de arte

O Brasil tem tido bastante público para essas exposições, isso era esperado?

O país está na mira das grandes grifes. Cresceu como mercado. No último ano, foram três grandes marcas produzindo exposições relevantes: a da Dior, no Instituto Tomie Otahke, a da Chanel, com fotos assinadas por Karl Lagerfeld, na Oca, e agora a da Gucci. A exposição está montada em um pavilhão do shopping JK Iguatemi, mas ela veio de um museu em Florença.

Marcas como a Gucci, por exemplo, têm muitas histórias para contar. Isso gera um interesse genuíno do público pela marca? 

Sim. A Gucci, por exemplo, foi criada em 1921, depois da primeira Grande Guerra Mundial. Foi fundada  sobre a tradição dos esportes equestres. A marca nasceu aliando o luxo das altas classes inglesas ao talento do artesanato italiano feito em couro. Por isso, desde o início, seu fundador, Guccio Gucci, utilizou de símbolos como estribos e bridão, instrumento que acabou sendo mote para detalhes dos acessórios da grife. São histórias interessantes. O processo de produção de marcas como a Gucci respeitam a tradição. É uma produção absolutamente artesanal, feitas até hoje por europeus, em uma escala reduzida, o que garante sua aura de exclusividade e gera interesse para uma exposição.

Na década de 40, surgiu outro best-seller da marca, a Bamboo Bag, com curvas foram desenhadas para lembrar uma sela.. 

Sim, e a bolsa tornou-se a favorita da realeza. Isso tudo ajudou a compor a identidade da marca. A partir dai, a grife passou a privilegiar o verde e o vermelho. A produção artesanal no couro é muito forte na Europa desde a Idade Média. O domínio técnico desses artesãos é enorme. O ofício é representado por um dos sindicatos mais atuantes na Itália e na Franca, por exemplo.

Exposição da Chanel na Oca, em São Paulo

Exposição da Chanel na Oca, em São Paulo Foto: Divulgação