"A moda não é questão de vida ou morte. São apenas roupas!"

Giovana Romani, de Nova York - O Estado de S.Paulo

Na contramão da sobriedade fashion atual, Jeremy Scott apresenta nas semanas de Nova York e Milão criações bem-humoradas e ultracoloridas. Em entrevista ao Estado, ele defende sua estética

Jeremy Scott: fã de ícones da cultura pop, ele trouxe a Moschino de volta aos holofotes 

Jeremy Scott: fã de ícones da cultura pop, ele trouxe a Moschino de volta aos holofotes  Foto: divulgação

Quando a primeira modelo cruzar a passarela da Moschino em Milão, na quinta, 24, o mundo fashion conhecerá o novo arroubo criativo de Jeremy Scott. Em suas últimas coleções para a grife, o estilista americano buscou inspiração nos Looney Toones, na Barbie e no Mc Donald’s. Causou um misto de surpresa e estranhamento entre os entendidos, mas trouxe a marca italiana, famosa nos anos 1980, de volta aos holofotes.

It girls carregando bolsas vermelhas e amarelas e vestidas de Barbie lotaram as redes sociais de imagens tão pops que transformaram Scott em uma espécie de Andy Warhol do mundo fashion hoje. "A moda não é questão de vida ou morte. São apenas roupas", diz o estilista, em entrevista ao Estado. Ele é, no mínimo, uma voz dissonante no cenário sóbrio atual. Foi o que ficou claro também no desfile de sua marca própria em Nova York, em que apresentou looks retrôs futuristas e tamancos plásticos feitos em parceria com a marca brasileira Melissa.

Tema do documentário “Jeremy Scott: The People’s Designer”, recém-lançado nos Estados Unidos, Scott veste Madonna, Rihanna, Katy Perry e Miley Cyrus. E, como elas, acredita em ousadia e diversão.

Quando desenvolveu sua estética?

É uma boa pergunta. Não sei, acho que sempre fui assim. Tenho senso de humor e acho importante transmitir isso para o mundo, com uma mensagem de otimismo e positividade.  

E que mensagem há por trás de sua última coleção apresentada na semana de Nova York?

A moda deve ser divertida! Eu me inspirei nas garotas cool que frequentavam o lowear east side de Manhattan no início dos anos 80 que, por sua vez, se inspiravam na estética das décadas de 60 e 50. Tive como referência os primeiros filmes de John Waters, o longa Supervixens, de Russ Meyer, e também doces coloridos, que traduzi nos sapatos plásticos. 

Quando você faz uma coleção inspirada no Mc Donald’s ou na Barbie há uma crítica implícita à sociedade de consumo?

Abordo temas que adoro, com os quais me sinto conectado - e geralmente eles estão embutidos na consciência coletiva por serem parte da cultura pop. Trato essas questões com amor sincero, mas com certa ironia. O humor é parte do meu trabalho e acho mais efetivo usá-lo para transmitir qualquer mensagem. Não tem por que a moda ser tão séria. Não é uma questão de vida ou morte. São apenas roupas!

Por que a cultura pop atrai tanto você?

Amo a forma como ela é capaz de se conectar e se comunicar com o mundo todo - e é isso que quero com meu trabalho, alcançar as pessoas.

Você cria para um tipo específico de mulher?

Minhas roupas são para todas. Sou o estilista do povo!

Seu novo documentário, inclusive, se chama “Jeremy Scott: O Estilista do Povo”. Por que você se considera assim?

Primeiro, porque tenho origem humilde. Sou de família pobre, não conto com um sobrenome de prestígio nem conexões que pudessem me abrir as portas. Então eu vim do povo. Segundo, porque meu trabalho faz parte da cultura pop e é relevante para muito mais gente do que apenas o microcosmo matizado da moda. O que eu faço tem um grande apelo para a massa.

Por que aceitou associar seu nome à Melissa?

Sabia que a marca tem uma longa história de parcerias com alguns dos designers mais importantes de todos os tempos, de Gaultier e Mugler a Vivienne Westwood. Quando me propuseram a ideia, logo pensei em um sapato plático de cor vibrante, com um pino atrás do salto, para parecer inflável. Amo brincar com o conceito do sapato ser feito de plástico associado a outras coisas do mesmo material, como piscinas de criança e bolas de praia.

E quanto à Moschino, os executivos da grife deixam você livre para fazer o que quiser?

O que você acha? É claro que sim! Sou absolutamente incapaz de trabalhar com qualquer tipo de censura em relação às minhas ideias e às minhas criações. Do alto escalão aos estagiários, todos se mostram empenhados em dar vida à minha visão.

Como tem sido a experiência de dirigir a Moschino?

Fico animado de poder trazer a grife de volta ao mundo da moda divertida, cujo caminho Franco Moschino pavimentou. Tem sido uma experiência incrível e tocante ver como as pessoas abraçaram minhas criações e como a marca tem fãs apaixonados.

Miley Cyrus, Katy Perry, Rihanna e Madonna são suas amigas e clientes. Como essas mulheres poderosas se conectam à sua moda e a influenciam?

Sou agraciado por ter uma amizade tão forte com essas mulheres icônicas. Elas representam bem as minhas roupas e os diferentes aspectos da minha personalidade.

Qual o momento mais memorável de sua carreira até agora?

Ser o primeiro e único estilista na história a ter as mãos impressas no cimento da calçada da fama no famoso teatro chinês em Hollywood.

*A jornalista viajou a convite da Melissa