A Moda e A Cidade: Felipe Morozini

Helena Tarozzo - O Estado de S.Paulo

O artista e fotógrafo fala sobre o centro de São Paulo, o estilo das pessoas e seus lugares favoritos na região

Felipe Morozini em seu espaço no escritório coletivo Fluxus, no Centro de São Paulo.

Felipe Morozini em seu espaço no escritório coletivo Fluxus, no Centro de São Paulo. Foto: Marcelo Brandt

"Sou muito mais moderno dentro da minha cabeça do que no meu guarda-roupa", diz Felipe Morozini. Artista, ativista, advogado, designer e fotógrafo, ele possui multitalentos que, na verdade, o fazem automaticamente moderno por dentro e por fora. Morador do centro de São Paulo há 12 anos, Morozini é apaixonado pela região. Tanto é que acaba de inaugurar o seu escritório coletivo Liquen, no prédio O Farol, ao lado do Vale do Anhangabaú, e também milita pela realização do Parque Minhocão, através da Associação Parque Minhocão, da qual é diretor.

Colaborador assíduo de revistas de moda como fotógrafo, em marcas de roupa como designer de estampas e cenógrafo requisitado no meio fashion, Felipe tem um estilo tão particular quanto as suas ideias. Entre elas, estão as famosas frases: "Eu sabia que você existia" e "Respeite-me após me usar", que espalhou pela cidade em cartazes. Seu outro trabalho são as fotos que tira com sua câmera, nada discreta, de vizinhos anônimos do alto de seu apartamento. Genuinamente paulistano, ele não poderia ter melhores impressões sobre essa parte da cidade que considera até "um outro país".

Você trabalha com moda em vários projetos. Como é a sua moda?

As pessoas me acham muito moderno. Mas quando penso em moda para mim, sou mais tradicional, às vezes até meio careta. Mas eu me interesso em como usar a moda e como lidar com as peças lindas que saem todo ano nas coleções, mas de um jeito simples. Não penso muito nisso. Sou muito mais moderno dentro da minha cabeça do que no meu guarda-roupa. Para mim, moda é muito mais do que uma tendência, é o jeito que você se posiciona perante as pessoas e perante a vida.

"É uma vontade das pessoas de usar um pensamento. Se a moda é pensamento, então acho que as minhas camisetas traduzem bem o que poeticamente poderia ser a moda."

O estilo das pessoas no centro é muito particular. Como você o define?

Acho que é tudo de verdade. As pessoas são muito mais coloridas, mais ousadas, mais divertidas e não estão preocupadas com tendência. O conforto e o preço falam mais alto, então haja criatividade para ser elegante com pouco dinheiro. Mas gosto de pensar nessa mistura que a falta do dinheiro faz. As pessoas fazem muito mix de estampas e você sempre vê uns sapatos absurdos, com umas meias que jamais poderiam ser usadas - mas que é maravilhoso que alguém use. Adoro também as saias curtas que qualquer estilista falaria que é baixa-costura, que é muito a moda das prostitutas, dos travestis. E amo, principalmente, a moda dos mendigos. Eles são incríveis. Sempre vejo roupas meio Yohji Yamamoto e depois passa outra meio (Maison Martin) Margiela. Acho incrível como os mendigos têm um poder criativo, principalmente no inverno, de fazer sobreposição.

E o que você acha mais enriquecedor disso?

Recentemente eu fiz uns testes de comportamento na Santa Cecília. Saí de casa com uma galocha xadrez e uma capa de chuva prata do Marc Jacobs que tenho. E foi muito interessante ver que quem não tem acesso à informação de moda assimila muito melhor. As pessoas não te julgam à primeira impressão, por mais estranho que seja. Adoro pensar o centro como um outro país. Quando eu olho para a arquitetura, para as pessoas, para o estilo das pessoas. É muito especial essa sensação de você se sentir o tempo todo um estrangeiro em sua própria cidade.

Quais lojas boas de roupa você indica no centro?

Ganho muita coisa, então compro pouca roupa. Mas uso muitas camisetas e gosto das da Cotton Project e da AMP, que não ficam no centro, mas estão por perto - uma na Rua da Consolação e a outra na Rua Augusta. E também faço minhas camisetas com minhas frases. Compro lisas e mando fazer o silk na Galeria do Rock. Lá também costumo achar tênis. Tem uma loja que traz uns Vans lindos de fora. Não é a única que vende Vans, mas é a única que vende esses mais exclusivos, chama Kings.

 

Suas camisetas estão à venda?

Ainda não, mas vão começar a vender. Mas eu faço, sem vender também. Quem quiser traz uma e eu estampo. É uma vontade das pessoas de usar um pensamento. Se a moda é pensamento, então acho que as minhas camisetas traduzem bem o que poeticamente poderia ser a moda.

Há pouco tempo você inaugurou com outras pessoas o edifício O Farol, onde fica o seu escritório coletivo Liquen, a redação do Fluxus, a Galeria Choque Cultural e o bar Balsa. O que é O Farol e de onde surgiu a ideia dele?

O Farol é uma união de pessoas que pensam a cidade, pensam com mais carinho por São Paulo, é um grupo completamente heterogêneo, mas que tem no pensamento urbano a sua unidade. Divido o espaço com fotógrafos, jornalistas, designers, ilustradores, pessoas que ou tem influência ou relação direta com o Governo, então as coisas que a gente pensa em relação à cidade acabam ficando mais fáceis. E essa troca entre criativos torna o dia a dia mais fácil e, a médio prazo, acho que ela agrega mais vida à cidade.

Onde você acha esses móveis vintage que estão no O Farol?

Quando garimpo móvel vou na Avenida do Estado, que tem uns depósitos enormes de móveis antigos, ou na Casas André Luiz ou nos bazares da Unibes, no Bom Retiro. Antigamente ia na Avenida São João, mas lá já perceberam que tem uma procura por esse tipo de móvel e já ficou caro. Na Rua 25 de março, encontro sempre objetos que podem se tornar outras coisas, muito para cenografia. Um vaso que se torna um lustre, um cesto de lixo que vira abajur. E vou na Santa Ifigênia em para todos os meus projetos. Ali tem lâmpadas, fios e coisas com pegada mais industrial.

Nesses 12 anos de centro, quais os seus lugares favoritos?

Adoro um restaurante italiano bem tradicional na Rua Aurora que chama La Farina. Tem uma galeria que abriu, que chama Pilar e acho muito legal, fica atrás da minha casa. E como muito no restaurante Sotero, de comida baiana, que também é ali do lado. Tem também a galeria Phosphorus e o brechó Casa Jusi, que são incríveis e sempre tem coisa velha-nova lá. Mas tem um corredor de ruas que gosto muito de andar, que começa no Largo do Arouche, passa pela Praça da República, depois na Avenida São Luiz e termina no Vale do Anhangabaú. Acho lindo esse trajeto porque é muito verde, tem muita árvore.