A infidelidade espreita dos genes

Richard A. Friedman - O Estado de S.Paulo

Mulheres que carregam certas variantes do gene receptor da vasopressina são muito mais propensas a se envolver em 'relações extraconjugais'

Foto: Marion Fayolle/ nyt

Os americanos desaprovam a infidelidade conjugal. Noventa e um por cento deles a consideram moralmente errada, mais do que a proporção dos que rejeitam a poligamia, a clonagem humana ou o suicídio, segundo uma pesquisa do Gallup de 2013.

Mas o número de americanos que realmente enganam seus parceiros é substancial: nas duas últimas décadas, a taxa de infidelidade ficou constante em torno de 21% para homens casados e entre 10% a 15% para mulheres casadas, segundo a General Social Survey da organização de pesquisa independente NORC da Universidade de Chicago.

Estamos acostumados a pensar em infidelidade sexual como sintoma de uma relacionamento infeliz, uma falha moral ou um sinal de deterioração de valores sociais. Quando estudei psiquiatria, nos diziam para considerar vários fatores emocionais e formativos - como uma história de relacionamentos instáveis ou de "galinhagem" parental - para explicar a infidelidade.

Mas durante minha carreira, muitas das perguntas que fazíamos a pacientes se mostravam insuficientes porque, para tal comportamento, ocorre que genes, expressão genética e hormônios têm muito a ver.

Agora esse parece ser o caso também da infidelidade.

Sabemos de longa data que os homens têm um impulso genético evolucionista a pular o muro porque isto aumenta as chances de ele colocar mais descendentes seus no mundo.

Agora, porém, surgiu esta intrigante pesquisa nova mostrando que algumas mulheres também são biologicamente propensas a prevaricar, embora não por benefícios evolucionistas claros. Mulheres que carregam certas variantes do gene receptor da vasopressina são muito mais propensas a se envolver em "relações extraconjugais", o eufemismo científico para infidelidade sexual.

Brendan P. Zietsh, um psicólogo da Universidade de Queensland, Austrália, tentou determinar se algumas pessoas são simplesmente mais inclinadas à infidelidade. Num estudo com aproximadamente 7.400 gêmeos finlandeses e seus irmãos que estiveram envolvidos num relacionamento de pelo menos um ano, Zietsh procurou verificar a existência da relação entre promiscuidade e variantes específicas de genes receptores de vasopressina e oxitocina. A vasopressina é um hormônio que tem efeitos poderosos em comportamentos sociais como confiança, empatia e vínculo sexual em humanos e outros animais. Faz sentido, portanto, que mutações no gene receptor de vasopressina - que pode alterar sua função - poderiam afetar o comportamento sexual humano.

Ele descobriu que 9,8% dos homens e 6,4% das mulheres relataram que tiveram dois ou mais parceiros sexuais no ano anterior. Seu estudo, publicado no ano passado em Evolution and Human Behavior, revelou uma associação significativa entre cinco variante diferentes do gene da vasopressina e a infidelidade em mulheres somente e nenhuma relação entre os genes de oxitocina e o comportamento sexual de ambos os sexos. Isso foi impressionante: 40% da variação no comportamento promíscuo em mulheres poderiam ser atribuídos a genes. Isso é surpreendente porque, como assinala Zietsch, há tantos outros fatores que são necessários para encontros promíscuos, como circunstância e a disponibilidade de um parceiro disposto e capaz. Embora este seja o maior e melhor estudo sobre o assunto, não está claro por que não há nenhuma relação entre o gene da vasopressina e o comportamento promíscuo de homens.

Nas duas últimas décadas, a taxa de infidelidade ficou constante em torno de 21% para homens casados e entre 10% a 15% para mulheres casadas

Nas duas últimas décadas, a taxa de infidelidade ficou constante em torno de 21% para homens casados e entre 10% a 15% para mulheres casadas Foto: Marion Fayolle/ NYT

Outros estudos confirmam que a oxitocina e a vasopressina estão ligadas à ligação de parceiros, que recai na questão de promiscuidade já que o vínculo emocional é, em certo sentido, o inverso da promiscuidade. Hasse Wallum do Instituto Karolinska em Estocolmo descobriu que em mulheres, e não em homens, há uma associação significativa entre uma variante do gene receptor de oxitocina e a discordância conjugal e a falta de afeto pelo parceiro(a). Ao contrário, houve uma correlação significativa em homens entre uma variante específica do gene receptor da vasopressina e a qualidade conjugal inferior reportada por suas esposas.

Agora, antes que vocês saiam correndo para fazer uma verificação de genótipo para detectar genes receptores de oxitocina e vasopressina em seus parceiros em potencial, dois avisos: correlação não é o mesmo que causação; há seguramente muitos fatores não mensuráveis que contribuem para infidelidade. E raramente uma simples variante genética determina o comportamento.

Ainda assim, há uma boa razão para levar a sério essas descobertas: dados em animais confirmam que esses dois hormônios são agentes significativos no que toca ao comportamento sexual. Uma pista intrigante veio do trabalho pioneiro do Dr. Thomas R. Insel, atual diretor dos Institutos Nacionais de Saúde Mental dos EUA, que estudou os efeitos da vasopressina e da oxitocina num pequeno roedor chamado rato-do-mato. Ocorre que há duas espécies estreitamente relacionadas de ratos-do-campo: os ratos-do-campo de montanha que são sexualmente promíscuos, e os ratos-do-campo de pradaria que são sexualmente monógamos e criam suas extensas famílias em tocas.

Depois do sexo, os ratos-do-campo de pradaria rapidamente desenvolvem uma preferência seletiva e duradoura por sua parceira, enquanto o acasalamento de ratos-do-campo de montanha em geral dura uma noite.

O que Insel descreveu é que o comportamento sexual espantosamente distinto dessas duas espécies de ratos-do-campo reflete a ação da vasopressina em seus cérebros, Os receptores de vasopressina nos ratos-do-campo de montanha e de pradaria estão regiões completamente diferentes do cérebro de modo que quando esses receptores são estimulados pela vasopressina, eles têm efeitos comportamentais muito diferentes.

Quando a vasopressina é injetada diretamente no cérebro de um rato-do-campo de pradaria macho monógamo, ela desencadeia a ligação do casal; ao contrário, o bloqueio dos receptores de vasopressina inibe a monogamia, mas nada faz para parar a atividade sexual. Em outras palavras, a vasopressina promove o relacionamento social, e o bloqueio da atividade desse hormônio encoraja a promiscuidade social.

Nos ratos-do-campo monógamos, os receptores de vasopressina estão perto do centro de gratificação do cérebro, mas nos ratos-do-campo promíscuos, esses mesmo receptores são encontrados sobretudo na amígdala, uma região do cérebro crucial para o processamento de ansiedade e medo.

De modo que o acasalamento dos ratos-do-campo de pradaria ativa o caminho da gratificação prazenteira, que reforça o acasalamento e promove o apego e, com ele, a monogamia. Para os ratos-do-campo de montanha promíscuos, o sexo tem pouco efeito sobre o apego; qualquer rato-do-campo serve.

É possível até pegar experimentalmente um rato-do-campo de montanha destruidor de lares e fazê-lo se comportar como um rato-do-campo de pradaria orientado para a família. Usando um vírus como veículo de entrega para transmitir o gene receptor de vasopressina, é fácil aumentar artificialmente o número de receptores de vasopressina no centro de gratificação do cérebro e fazer o rato-do-campo macho se comportar monogamicamente. A história para ratos-do-campo fêmeas é similar exceto que é a oxitocina e não a vasopressina que desencadeia o comportamento monogâmico.

Ainda não sabemos dos estudos com humanos se os genes receptores de vasopressina que estão associados à infidelidade realmente tornam o cérebro menos receptivos a esses hormônios, mas em se considerando os dados com animais, isto é plausível.

Experimentos em que oxitocina e vasopressina são administradas diretamente a humanos mostram que esses hormônios têm efeitos que vão além do sexo; eles parecem aumentar a confiança e a vinculação social. 

Em um estudo, por exemplo, estudantes saudáveis receberam aleatoriamente, por via intranasal, ou oxitocina ou um placebo e depois participaram de um jogo de confiança, Neste jogo, os dois sujeitos agem ou como um investidor ou como um depositário. O investidor primeiro tem a chance de escolher uma ação de confiança dispendiosa dando dinheiro ao depositário. Aí o depositário ou honra a confiança retornando uma parte do dinheiro ou a quebra não compartilhando o dinheiro. Os que jogam sob a influência da oxitocina continuam a confiar e fazem ofertas monetárias generosas em resposta à traição, enquanto os sujeitos que recebem um placebo se tornam menos confiantes e mais golpistas após serem chamuscados. A oxitocina parece nos tornar socialmente confiantes - mesmo em situações em que não é do nosso melhor interesse fazê-lo.

Num estudo com homens, dar vasopressina aumentou a memória dos sujeitos para rostos tanto felizes como zangados em comparação com um placebo, o que implica que a vasopressina pode aumentar a filiação social e o comportamento agressivo já que aumentou o aprendizado social e emocional.

Estas descobertas também sugerem usos terapêuticos potenciais para a oxitocina e a vasopressina em pessoas que têm um déficit ou um excesso de confiança e apego social. O autismo é um exemplo de déficit, e de fato há evidências preliminares de que a oxitocina pode ter alguns efeitos pró-sociais benéficos nesta distúrbio. Por contraste, a síndrome de Williams é uma rara doença genética em que crianças são patologicamente confiantes e indiscriminadamente amigas de completos estranhos. A desordem é associada aos níveis básicos de oxitocina que são em média três vezes acima do normal, de modo que uma droga que bloqueie a oxitocina pode reduzir seu excesso de confiança.

Se o leitor tiver um pendor orwelliano, ele provavelmente terá imaginado o mal que se poderia praticar com esses dois hormônios. Ele poderia sub-repticiamente deixar um investidor em potencial mais confiante e encorajar um impulso monogâmico num parceiro de quem suspeita de traição. Tudo que ele precisa é aspergir oxitocina ou vasopressina, talvez via um perfume ou aromatizador de ar. É brincadeira, claro, mas só para dar uma ideia. 

A monogamia sexual é de uma natureza nitidamente incomum: os humanos estão entre os 3% a 5% de mamíferos que praticam a monogamia, junto com a raposa-orelhuda e o castor, mas mesmo nessas espécies, a infidelidade foi comumente observada.

O benefício evolucionista da promiscuidade para homens é direto: quanto mais parceiros sexuais você tem, maior seu sucesso reprodutivo potencial. Mas a capacidade reprodutiva das mulheres é mais limitada pela biologia. O que isso significa para as mulheres? Pode não haver vantagem evolucionista clara para a infidelidade feminina, mas sexo nunca teve a ver só com procriação. A traição conjugal pode ser intensamente agradável porque, entre outras coisas, envolve novidade e um grau de busca de sensações, comportamentos que ativam o circuito de gratificação do cérebro. Sexo, dinheiro e drogas, entre outras coisas, desencadeiam a liberação de dopamina desse circuito, que transmite não só uma sensação de prazer, mas diz ao cérebro que esta é uma experiência importante que merece ser recordada e repetida. E, claro, os humanos variam amplamente em seu gosto por novidades.

Num estudo de 2010 com 181 adultos jovens e saudáveis, Justin R. García, então na Universidade de Binghamton, descobriu que os sujeitos que tinham uma variante de um subtipo de receptor de dopamina, o receptor D4, eram 50% mais propensos a reportar infidelidade sexual. Esta variante genética D4 reduziu a ligação para a dopamina, o que implica que esses indivíduos se sentem menos estimulados e famintos por novidade do que os que não têm essa variante genética.

Então, será que recebemos um passe moral quando carregamos um desses genes da "infidelidade"? Dificilmente. Não escolhemos nossos genes e não podemos controlá-los (ainda), mas podemos em geral decidir o que fazemos com as emoções e os impulsos que eles ajudam a criar. Mas é importante reconhecer que vivemos nossas vidas num campo de jogo genético muito irregular.

Tradução de Celso Paciornik