A diversidade o torna mais brilhante

Sheen S. Levine, David Stark - O Estado de S.Paulo

A diversidade étnica é como ar fresco: beneficia a todos que convivem com ela. Ao romper com o conformismo, ela produz um bem público

A ação afirmativa volta à Suprema Corte nos Estados Unidos. O tribunal concordou em analisar pela segunda vez o caso de Abigail Fisher, candidata branca que afirma ter sido recusada pela Universidade do Texas, em Austin, em virtude da sua raça. Ela evocou a promessa de igual proteção contemplada na 14ª. Emenda, lembrando-nos que julgar uma pessoa por sua genealogia e não pelos seus méritos é um ato que degrada a sua dignidade.

Mantendo a ação afirmativa em 2003, no processo Grutter contra Bollinger, a juíza Sandra Day O'Connor afirmou que ela atendia à finalidade intelectual de uma universidade. Como relatora do processo, descreveu como a Universidade de Michigan se empenhou para aumentar a diversidade não só para melhorar as perspectivas de determinados grupos de alunos, mas também enriquecer a educação de todos.

Abigail Fisher afirma que a diversidade pode ser alcançada por outras maneiras, sem ser necessário levar em conta a raça. Antes de recorrer ao uso da raça ou etnia nas admissões, a Universidade do Texas tem de oferecer "evidências de fato e não generalizações muito amplas sobre o valor de grupos desfavorecidos ou favorecidos" para mostrar que "o suposto interesse foi substancial o suficiente para justificar o uso da raça".

A diversidade suscita um pensamento crítico superior

A diversidade suscita um pensamento crítico superior Foto: Matt Chase / NYT

Estudo. Nossa pesquisa fornece essa evidência. A diversidade aprimora o modo de pensar das pessoas. Ao romper com a similitude, a diversidade étnica e racial leva as pessoas a examinarem os fatos mais de perto, a pensarem mais profundamente e formar sua própria opinião. Nossas conclusões mostram que este tipo de diversidade beneficia a todos, minorias e maiorias. 

Para estudar os efeitos da diversidade étnica e racial, realizamos uma série de experimentos em que os participantes competiram em grupos para encontrar respostas precisas para problemas. Numa situação muito similar ao que ocorre em uma sala de aula, começamos oferecendo a cada participante individualmente informações e uma tarefa: calcular preços exatos para ações simuladas. Primeiro recolhemos as respostas individuais e então (para ver como os participantes estavam engajados com suas respostas), deixamos que comprassem e vendessem ações para os outros, usando dinheiro vivo. Os participantes podiam ficar com o lucro obtido.

Durante as negociações, os participantes podiam observar o comportamento de seus colegas e decidir o que fazer. Pense como você reagiria em situações similares: interagir com outros gera ideias novas, mas pode também levá-lo a aceitar ideias erradas, mas populares. 

Tudo depende do quão profundamente você reflete sobre o que observa. Assim, se acha que alguma coisa vale US$ 100, mas outros apostam US$ 120 nela, você pode ou concordar com o julgamento deles e aumentar o lance (talvez contribuindo para uma bolha de preços) ou discordar e defender sua posição.

Designamos cada participante para um grupo homogêneo ou diversificado (ou seja, incluía pelo menos um participante de outra etnia). Para nos certificar de que estávamos avaliando os efeitos da diversidade, não a cultura ou história, examinamos uma variedade de grupos étnicos e raciais. No Texas incluímos o número esperado de brancos, latinos e afro-americanos. Em Cingapura estudamos indivíduos chineses, indianos e malaios. (Os resultados foram publicados com nossos coautores Evan P. Apfelbaum, Mark Bernard, Valerie L. Nartelt e Edward J. Zajac).

As conclusões foram surpreendentes. Quando os participantes estavam num grupo diversificado de pessoas, suas respostas eram 58% mais precisas. Os valores escolhidos eram muito mais próximos dos preços reais das ações. À medida que passavam mais tempo interagindo em grupos diversificados, seu desempenho melhorava.

Quanto aos grupos homogêneos, tanto nos Estados Unidos como na Ásia, ocorreu o oposto. Quando rodeados por indivíduos da mesma etnia ou raça, a propensão dos participantes era copiar os outros, na direção errada. Os erros aumentaram à medida que os participantes confiavam erroneamente nas respostas dos outros, irrefletidamente imitando-os. Nos grupos em que havia uma diversificação os participantes distinguiam as respostas precisas das erradas. A diversidade propicia uma energia cognitiva que aumenta a reflexão. 

Para nosso estudo selecionamos deliberadamente uma situação que exigia raciocínio analítico não afetado por questões de etnia ou raça. Nosso objetivo era compreender se, como comumente se pensa, os benefícios da diversidade derivam de algumas perspectivas ou capacidades particulares de minorias.

O que descobrimos é que esses benefícios podem surgir simplesmente da presença de minorias. Nas respostas iniciais, dadas antes de os participantes interagirem, não constatamos diferenças estatisticamente diferentes entre os participantes nos grupos homogêneos ou diversos. Membros de minorias não proporcionaram nenhum conhecimento especial.

As diferenças surgiram somente quando os participantes começaram a interagir. Quando estamos cercados por pessoas "iguais a nós", somos facilmente influenciados e mais propensos a acreditar em ideias erradas. A diversidade suscita um pensamento crítico superior. Contribui para detectar os equívocos. E impede sermos levados a erros de julgamento.

Nossas conclusões sugerem que a diversidade étnica e racial é importante para o aprendizado e este é o objetivo principal de uma universidade. Aumentar a diversidade não só é uma maneira de permitir que pessoas historicamente desfavorecidas cursem uma faculdade, mas também para promover uma capacidade de reflexão mais profunda.

Quanto à diversidade nas salas de aula, as universidades pode fazer muito mais. Um excelente estudo interno realizado pela universidade do Texas mostrou que não havia nenhum ou somente um aluno afro-americano em 90% das salas de aula nos primeiros anos de faculdade. Imagine quantos estudantes podem se equivocar, quantos se adaptam a ideias que não exigem esforço e até que ponto fracassam nos estudos por causa disto.

A diversidade étnica é como ar fresco: beneficia a todos que convivem com ela. Ao romper com o conformismo ela produz um bem público. Abandonar a ideia de salas de aula diversificadas privará todos os alunos, independente de suas origens étnicas ou raciais, da oportunidade de se beneficiarem de um desempenho cognitivo aprimorado que a diversidade promove. 

Sheen S. Levine é professor da Jindal School of Management na Universidade do Texas. David Stark é professor de sociologia na universidade de Columbia

Tradução de Terezinha Martino