A dádiva da leitura

Frank Bruni - O Estado de S.Paulo

A leitura abastece as fogueiras da inteligência e da imaginação e se elas não brilham bastante antes do ensino fundamental, a educação da criança e sua vida podem ser um jogo infindável de recuperação

Uma criança precisa de uma floresta de palavras por onde vagar, um mar de palavras para se molhar

Uma criança precisa de uma floresta de palavras por onde vagar, um mar de palavras para se molhar Foto: Thomaslife/ Creative Commons

A lista do que uma criança precisa para florescer é pequena, mas inegociável: comida, abrigo, brincadeiras, amor.

Elas precisam de outras coisas também, mas essas coisas são distribuídas em medidas mais desiguais.

Palavras. Uma criança precisa de uma floresta de palavras por onde vagar, um mar de palavras para se molhar. É preciso ler para uma criança e uma criança precisa ler.

A leitura abastece as fogueiras da inteligência e da imaginação e se elas não brilham bastante antes do ensino fundamental, a educação da criança e sua vida podem ser um jogo infindável de recuperação.

É isso que está no centro da imprescindível organização Reading is Fundamental (Ler é Fundamental), um grupo sem fins lucrativos que fornece gratuitamente centenas de milhares de livros anualmente para crianças de até 8 anos, em particular àquelas provenientes de famílias de baixa renda, onde livros são um luxo e um produto em falta.

Eu chamo atenção sobre a Reading is Fundamental, ou RIF, por várias razões.

Estamos num período de agradecimento e este grupo merece ser alvo de uma grande parcela deste sentimento. Eles já distribuíram mais de 410 milhões de livros para mais de 40 milhões de crianças norte-americanas.

Estamos nos aproximando dos feriados no fim do ano, período em que muitas pessoas dão mais atenção à caridade e fazem suas doações anuais mais generosas. Eu peço fortemente que todos pensem sobre alfabetização, livros, educação na primeira infância e organizações como a RIF, que apoia essas causas.

Somos um país enlouquecido que envia mensagens de texto e tuítes, mas no qual uma quantidade muito grande de crianças não lê na escola e no qual muitas forças conspiram contra qualquer melhoria nesse aspecto, sem pensar que há um preço muito alto a ser pago.

A RIF acabou de entrar em seu cinquentenário - a organização nasceu em novembro de 1966 - e está marcando a data com novas abordagens e uma nova determinação para espalhar sua mensagem, apesar das mudanças no orçamento. Com as restrições nos gastos do governo federal nos últimos anos, a organização perdeu cerca de US$ 24 milhões em recursos anuais com os quais contava. Isso representa mais de dois terços de seu orçamento, que agora apoia-se pesadamente em contribuições privadas.

Consequentemente, a RIF distribui menos livros do que fazia antigamente. O número caiu para 1,8 milhão no ano passado de um pico de cerca de 17 milhões mais de uma década atrás.

Mas a RIF tornou-se parceira da ustyme, uma plataforma digital que permite que vários usuários leiam e joguem videogames juntos, para se certificar que crianças de baixa renda - em particular - se aproveitem do Billion e-book gift, que vai fornecer acesso a 50 títulos infantis previamente escolhidos na biblioteca digital da ustyme, muitos em espanhol, assim como em inglês.

Esses títulos podem ser baixados ao se visitar o endereço RIF.org/50ebooks, a partir de 1 de dezembro. 

Os e-books refletem a determinação da RIF de fazer com que as crianças leiam, qualquer que seja a forma que melhor se adapte a elas. O objetivo é desenvolver musculatura, alimentar um hábito, talvez dar início a uma paixão. Nunca se sabe onde uma ligeira leitura pode levar.

Ellen Halliday, coordenadora da RIF na biblioteca pública do Brooklyn, lembra-se de uma mãe que estava preocupada com seu filho de 8 anos, que estava perdendo tempo com livros fáceis, leves e frívolos.

"Então, um dia", Halliday me contou, "quando ele tinha 9 ou 10 anos, ele me disse 'sabe, eu peguei este livro e seu autor... eu posso ver sobre o que ele fala quando ele fala a respeito do condado ou dos hobbits. Eu acho que este Tolkien é um autor excelente.'"

O RIF foi uma ideia original de Margaret McNamara, cuja experiência como professora a convenceu de que, para muitas crianças pobres, uma das principais barreiras para a proficiência em leitura era simplesmente o acesso aos livros.

O grupo se tornou conhecido por seus Bookmobiles, caminhões, furgões e ônibus que estacionavam em escolas para distribuir livros da mesma forma como os caminhões da Good Humor e da Mister Softee distribuíram sorvetes, só que no caso, os livros são gratuitos.

Ler tira as crianças para fora de si mesmas, as conecta com um mundo mais amplo e cheio de maravilhas

Ler tira as crianças para fora de si mesmas, as conecta com um mundo mais amplo e cheio de maravilhas Foto: Pixabay

É um alimento vital. Pesquisas indicam que durante seus primeiros anos, crianças de famílias de baixa renda não ouvem de forma frequente uma variedade de palavras com as quais crianças de famílias mais abastadas estão mais acostumadas e que esse é o prelúdio de uma série de outras lacunas que recaem sobre elas e determinam seu sucesso na escola e na vida.

A leitura na infância é um dos remédios.

"A leitura segue uma espiral ascendente", disse Daniel Willingham, professor de psicologia da Universidade da Virginia e autor de "Raising Kids Who Read" (Criando Crianças que Leem, em tradução livre), publicado no início deste ano.

"Crianças que leem mais são melhores em leitura e, porque são melhores em leitura, é mais fácil e mais prazeroso para elas lerem mais", disse ele. 

"E crianças que leem bem não vão melhor apenas nas aulas de inglês, mas isso as ajuda com matemática, ciência e em outras matérias também."

Eu iria mais longe. Ler as tira para fora de si mesmas, as conecta com um mundo mais amplo e cheio de maravilhas. É mais do que fundamental. É transformador. 

Tradução de Priscila Arone