A ciência por trás da roupa

Nicholas St. Fleus - O Estado de S.Paulo

Três equipes de cientistas realizaram um exame mais acurado da ciência por trás do fenômeno viral; entenda

Branco e dourado ou preto e azul?

Branco e dourado ou preto e azul? Foto: Divulgação

Quase três meses depois que o famoso vestido azul e preto (ou era branco e dourado?) congestionou a internet, três equipes de cientistas realizaram um exame mais acurado da ciência por trás do fenômeno viral. Em seus estudos, publicados na semana passada na revista Current Bioloby, eles propuseram as razões pelas quais diferentes pessoas viram o vestido em diferentes cores e o que a questão toda significa para o nosso entendimento da percepção visual.

Para Michael Webster, psicólogo da Universidade de Nevada, em Reno, o que ocasionou o Dressgate é a ambiguidade da cor azul e a incapacidade das pessoas de discernir com segurança objetos azuis a partir de uma luz azul. Segundo ele, nossa visão é boa para informar se estamos visualizando um papel branco numa luz vermelha, ou um papel vermelho numa luz branca, mas o processo não funciona de maneira tão fácil com todas as cores, e a cor azul tende a ser muito problemática.

No seu estudo, Webster e sua equipe quiseram saber dos alunos da faculdade se eles viam as listras do vestido como azuis ou brancas. E eles também ficaram equitativamente divididos. Mas quando a equipe inverteu as cores do vestido, as listras azuis/brancas assumiram uma tonalidade amarela e 95% dos alunos identificaram o vestido nas cores amarela e preta.

Num segundo estudo, Karl Gegenfurtner, psicólogo da Giessen University, Alemanha, colocou 15 voluntários diante de uma roda de cores personalizável para mostrar que cores viam no vestido. E concluiu que os pixels do vestido se harmonizavam com o espectro natural de azuis e amarelos que vemos desde o amanhecer até o entardecer, o que dificulta para as pessoas que olham o vestido dizerem como a cor da luz pode afetar a percepção.

Ele e sua equipe concluíram que as diferentes maneiras como as pessoas distinguem a luz natural é que leva algumas pessoas a verem o vestido nas cores branca e o dourada e outras azul e preta.

Três equipes de cientistas realizaram um exame mais acurado da ciência por trás do fenômeno viral; entenda

Três equipes de cientistas realizaram um exame mais acurado da ciência por trás do fenômeno viral; entenda Foto: NYT

No terceiro estudo Bevil Conway, neurocientista do Wesllesley College, fez uma pesquisa com mais de 1.400 pessoas para saber que cores enxergavam ao olharem para o vestido. Do grupo faziam parte 300 pessoas que não tinham visto o vestido antes. Ocorre que as pessoas não só se colocaram nos dois grupos antagonistas, o do "azul e preto" e do "branco e dourado", mas também num terceiro: do "azul e marrom". E percebeu que pessoas mais velhas tinham tendência a ver as cores branca e dourada, ao passo que as mais jovens viam mais o azul e o preto.

No caso do vestido, disse Conway, a péssima qualidade da imagem ativou o modelo interno do cérebro. As condições ambíguas e a falta de contexto são importantes "porque o seu cérebro não tem suficiente informação para distingui-la. De modo que o cérebro recorreu ao modelo interno e perguntou "hei, o que você acha que está ocorrendo ai?".

O modelo interno de cada pessoa reage diferentemente. Segundo o neurocientista, as pessoas enxergam o vestido nas cores branca e dourada porque seu modelo interno supõe que elas observam a roupa sob um céu azul. Elas descartam a cor azul. Quanto àquelas que veem o azul e preto o seu modelo interno as instruem a acharem que estão vendo o vestido sob uma luz incandescente laranja.

Ele observou que o tecido do vestido, que algumas pessoas acharam ser de renda dourada ou preta, também representou um problema. Quando ele e sua equipe analisaram os pixels das listras perceberam que elas pareciam ser na cor marrom, não douradas ou pretas. Mas como as pessoas não conseguiram dizer qual o material do vestido, o cérebro de algumas pessoas assumiu que era algo brilhante e portanto entendeu que era dourado.

David Brainard, neurocientista da Universidade de Pensilvânia que escreveu uma nota que acompanhou os três estudos na revista, disse que cada um deles contribuiu para compreendermos a hipótese da constância das cores, a capacidade de perceber a cor de um objeto independente da cor da fonte de luz irradiada nela.

"Esses estudos são particularmente valiosos do ponto de vista científico porque mudam a discussão do vestido para um campo onde temos dados de fato sobre o fenômeno mais além das dezenas de milhares de tuítes", disse ele.

Tradução de Terezinha Martino