A beleza está mais diversa do que nunca, mas será o bastante?

Bee Shapiro - The New York Times

Como as marcas de cosméticos, os fotógrafos e os maquiadores ainda precisam melhorar para trabalhar com mulheres negras

A atriz Lupita Nyong'o, no tapete vermelho de Cannes, em maio deste ano

A atriz Lupita Nyong'o, no tapete vermelho de Cannes, em maio deste ano Foto: Jean-Paul Pelissier/Reuters

Na era de coleções de maquiagem com 40 tons de base e mais representantes negras do que nunca, parece que o mundo da beleza finalmente aceitou a diversidade, e a celebra. Ainda sim, se você perguntar a maquiadores, cabeleireiros e fotógrafos sobre isso, a resposta será provavelmente: é um começo.

Comparada com a moda, a beleza foi mais rápida em termos de inclusão. Movido pelas redes sociais, este universo, nos últimos cinco anos, se moldou para receber e representar consumidores de todos os tons de pele e identidades de gênero. Isso considerando o sucesso esmagador da Fenty Beauty, marca da Rihanna, que chamou atenção ao lançar 40 cores de base mostrando o quão míope as marcas estavam sendo.

Claramente o mercado de maquiagem para mulheres negras vai muito além de um nicho. O tempo em que Iman, uma supermodelo famosa dos anos 1970 e 1980, tinha que levar seus próprios cosméticos para as sessões de fotos parece arcaico. (Mais tarde ela abriu sua própria empresa, anos antes de Rihanna, para melhorar estes problemas.)

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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"Você não tem mais a desculpa de que o produto não está disponível", diz Nick Barose, maquiador que tem clientes como Lupita Nyong’o, Priyanka Chopra e Gugu Mbatha-Raw. "Jovens, velhos, escuros, claros, diferentes subtons - você tem que ser capaz de olhar para o rosto em sua frente e igualar."

Mudanças similares estão ocorrendo em termos de produtos para cabelo. Lideradas por estrelas como Yara Shahidi, Sasha Lane e Tracee Ellis Ross, que usam os seus cabelos naturais, "selvagem, rebelde, textura frisada" estão redefinindo o glamour hollywoodiano, como explica Nai’vasha Johnson, que penteia Yara e Sasha. Isso é "absolutamente ligado a raça", continua. "Quando você faz permanentes, alisamentos e todas essas coisas que alteram o que é naturalmente seu, sejamos honestos, é abraçar uma raça ou nacionalidade que não é sua."

O que estamos vendo agora - esta variedade de penteados e texturas no tapete vermelho - não veio sem esforço. Na estimativa de Nai’vasha, a mudança ocorreu durante os últimos cinco anos e está sendo uma batalha. "É preciso que mulheres fortes, como Wanda Sykes, que foi a minha primeira celebridade a usar os fios naturais, digam 'estou confortável com quem eu sou'", conta. "Fiz um penteado nela com o cabelo natural e ficou glorioso - realmente lindo. Depois disso, outras mulheres com cabelo cacheado entraram na onda, porque viram que poderiam fazer coisas lindas com suas texturas." 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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'Vamos levar isso a um lugar real' 

Cabelo natural e múltiplos tons de pele já estiveram "em alta" antes. (Relembre os anos 1960 de Diana Ross e os desfiles da Yves Saint Laurent nos anos 1970.) Então, isso é algo passageiro ou veio para ficar?

Sam Fine, maquiador conhecido por trabalhar com Naomi Campbell, Iman e Queen Latifah, é cético. Ele está na indústria desde 1991 e viu coleções para mulheres negras surgirem e desaparecerem. "Teve a Revlon, quando eles lançaram a ColorStyle, e também a Shades of You da Maybelline. Onde estão elas agora?", questiona Fine. "Essa relação das marcas com as negras é bem sazonal. Se eles assinarem um contrato com a Veronica Webb ou Tyra Banks, de repente farão uma coleção para elas."

Ele aponta que as mudanças mais permanentes ocorreram nos anos 1990 com o aumento das marcas profissionais - especialmente MAC, Nars e Bobbi Brown. "Eles realmente começaram a mudar o jogo", explica. "A MAC, particularmente, abraçou as pessoas negras com sua ampla gama de cores."

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Mesmo assim ele enxerga questões a serem melhoradas. "Estamos empacados no politicamente correto", diz. "Vamos levar para o lugar em que isso é real e durável. Por exemplo, todas as marcas estão lançando 40 tons de base porque está na moda. Mas elas estão realmente trabalhando as iniciativas e o alcance? Não é só colocar uma modelo negra ao lado da Gigi Hadid. Os produtos precisam estar perto das pessoas, e não somente na sua loja da Times Square e os vendedores precisam de treinamento."

Na verdade, a educação é frequentemente citada como um problema. Tym Buacharern, maquiador que trabalhou nos filmes Pantera Negra, Dreamgirls e Jogos Vorazes, crítica as escolas de maquiagem por não fazerem o bastante. Eles ensinam predominantemente como trabalhar em caucasianos, diz. Além disso, ele acredita que os maquiadores mais jovens estão confiando demais nos tutoriais do YouTube.

"YouTube é incrível para inspiração depois que você possui experiência, mas é um desserviço para os jovens porque você está aprendendo com alguém que é ótimo apenas em fazer maquiagem em si mesmo", explica. "Você precisa aprender os fundamentos antes."

Segundo Buacharern, estas habilidades incluem acertar no tom e na fórmula da base para determinados tipos de pele e saber trabalhar com quem está sentado em sua frente. Então não é surpreendente quando uma atriz negra aparece no set, que ela tenha problemas com o cabelo ou a maquiagem. "Quando eu tenho uma mulher não branca vindo - pode ser latina, asiática, negra, o que for - ela já teve algum problema do tipo antes", relata. "Não existe muita confiança aqui."

Com mais mulheres de cor em papéis de liderança, a dinâmica está mudando aos poucos. "Quanto maior a atriz, mais controle ela tem sobre quem trabalha nela", continua o maquiador. "E não tem nada a ver com vaidade. É sobre estar confortável e não ter que se preocupar com cabelo e maquiagem e conseguir focar na atuação."

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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'Fotógrafos têm um grande, grande papel'

Mesmo que a equipe de cabelo e maquiagem acerte a beleza de uma mulher de cor, ela ainda pode aparecer na câmera com um brilho acinzentado (ou pior, com a pele clareada) e cabelo opaco. "Fotógrafos têm um grande, grande papel, e muitos deles não têm nem ideia de como colocar luzes para uma negra ou como retocar alguém que não seja branco", diz Vernon François, cabeleireira de Lupita Nyong'o durante a tour do filme Doze Anos de Escravidão.

Alexi Lubomirski, que fotografa capas de revista, campanhas de beleza e recentemente clicou os retratos do casamento do príncipe Harry e Meghan Markle, percebe que problemas de iluminação viraram uma batalha estética. "Alguns diretores criativos estão com medo de iluminar peles escuras porque sentem que não representa a cor natural delas", fala. "Eu gosto dos pontos de luz e sombra para iluminar as peles", diz Lubomirski, que também é autor do livro Diverse Beauty. "Para mim, essa é uma parte da beleza das peles escuras, a profundidade da cor naturalmente mostra pontos mais claros e mais escuros."

E as coisas podem dar errado depois da sessão também. "A primeira vez que fotografei a Lupita Nyong'o, ela me pediu para não clarear a sua pele na pós-produção, pois ela já havia tido essa experiência." Me fez voltar aos meus arquivos e perceber que, em várias vezes, meu estúdio entregou para as revistas a versão final e, ainda assim, a pele estava mais clara quando foi publicada."

"Revistas e anunciantes podem hesitar em defender qualquer um que se afaste muito de um espectro de beleza padrão", acrescenta. 

Stylists apontam que ideais de aparência são criados, ou reforçados, pela imprensa e pelas celebridades, principalmente nos importantes tapetes vermelhos.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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"Quando Lupita está atravessando o red carpet, ela está sendo fotografada com um flash branco, pensado para alguém como Jennifer Aniston", explica François. "É desrespeitoso, porque é o que as pessoas estão vendo em casa, e talvez é por isso que alguém pensa 'quero parecer como a Jennifer Aniston' e não o mesmo de Lupita ou Viola Davis. É aí que começa a disputa pelas campanhas, e se fulana vende mais do que ciclana."

Barose nota que iluminação é um problema em todo o mundo das celebridades. "Se tenho uma cliente aparecendo no [talk show] The View, sei que ela vai estar incrível porque aquela galera sabe fazer luz para vários tons de pele", diz. "Mas existem programas em que a luz é só para os apresentadores brancos. É quando podem aparecer falhas na maquiagem, mesmo eu tendo deixado elas lindas." 

'Cabelo com textura não é difícil'

Lacy Redway, cabeleireira que trabalha com Ruth Negga e Tessa Thompson, diz que, nos bastidores de sessões de fotos e desfiles de moda, a opinião principal é a de que cabelo texturizado é difícil. Ela fala de um vídeo postado por Londone Myers, uma modelo iniciante que documentou sua experiência em um backstage, enquanto esperava e era ignorada pelos profissionais.

Ela escreveu no post: "Não preciso de tratamento especial. O que preciso é que cabelereiros aprendam a cuidar de fios afro. Estou tão cansada das pessoas evitarem fazer o meu cabelo em desfiles. Como você ousa tentar me mandar para a passarela desarrumada. Todos nós sabemos que, se você tentasse isso com uma modelo branca, estaria #demitido."

Ela conta que algumas modelos já chegam prontas nas sessões de fotos por medo de não conseguirem penteá-las. "Muitos ficam intimidados por cabelos com textura que eles não sabem nem como os fios tem que ficar, então eles também não sabem o que está errado", diz.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Mas Lacy está otimista com as mudanças que estão ocorrendo. Ela quer fazer com que esta discussão se torne mais aberta e menos intimidante. ("Pode ser um tópico que as pessoas têm medo de falar", explica.) E uma parte do movimento de apoio é adotar um vocabulário melhor. "Você pode fazer o que quiser com cabelo 'texturizado'", diz. "Pode alisar. Pode trançar. Ele segura mais penteados. Cabelo texturizado não é difícil. Eu o chamaria de versátil."

Mutuamente,  Nai’vasha está interessada em tirar o estereótipos tradicionais atribuídos a cabelos com textura. "Eu nem os chamo de dreadlocks - os chamo de lock", diz. "Quero mostrar que você não precisa de um visual Rastafári." Ela lembra de pentear Sasha Lane para o Met Gala deste ano, assim como no ano passado, com cristais Swarovski. "Estava lindo e glamuroso", recorda.

E, ao contrário do passado, quando a beleza diversa teve picos de popularidade, Johnson está confiante de que o que está acontecendo é mais do que apenas uma tendência. “Nos transformamos em um mundo onde as pessoas estão muito em contato com quem são”, explica. “Elas são firmes sobre isso e não querem mudar ou se pacificar por ninguém. É um mundo de 'Isso é quem eu sou'."