A aposta nos tecidos biodegradáveis

Helena Tarozzo - O Estado de S.Paulo

Como uma das mais tradicionais tecelagens do Brasil entrou na era dos tecidos sustentáveis. Nossa repórter investiga o processo ao lado de Costanza Pascolato

Onde a mágica acontece: vindos dos carreteis, uma infinidade de fios se transforma em uma coisa só

Onde a mágica acontece: vindos dos carreteis, uma infinidade de fios se transforma em uma coisa só Foto: Divulgação

O dia começou cedo, eu e mais quatro jornalistas tínhamos como ponto de encontro o Café Cristallo, do Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo, onde fomos recebidos com um café da manhã. De lá, partiríamos para a fábrica da Santaconstancia, localizada a cerca de meia hora dali, no Jardim Novo Mundo, bairro industrial da cidade. Todos pareciam meio apreensivos, diante daquele que parecia ser um longo caminho pela frente -  mal sabíamos que ele seria rápido e indolor. Esperamos o fotógrafo chegar e rumamos para a van que nos aguardava.

 “Vamos primeiro ao prédio 7 e depois ao 9”, nos disse uma das assessoras, assim que chegamos lá - o que nos deu uma boa impressão do tamanho da empresa. Arborizada no térreo e com prédios de tijolos aparentes e concreto cinza, a fábrica passou uma sensação de calma que poucos lugares em São Paulo possuem.

Nunca tinha estado em uma tecelagem antes. E a ideia que eu tinha de uma era aquela de filmes de Hollywood, com chaminés e um monte de gente trabalhando, enlouquecida, e muitos, muitos, fios vindos de todos os lados, formando em seguida uma coisa só.  Mas lá as coisas não são bem assim. O maquinário é moderno, vários processos são automatizados. E a imagem mais romântica de uma tecelagem fica mesmo nos livros de história da moda.

Tradição e Modernidade: Costanza com os sobrinhos Luca e Gabriella e o irmão Alessandro - o clã dos Pascolato já na terceira geração à frente da fábrica

Tradição e Modernidade: Costanza com os sobrinhos Luca e Gabriella e o irmão Alessandro - o clã dos Pascolato já na terceira geração à frente da fábrica Foto: Divulgação

Aliás, quando se fala de modernidade, a empresa surpreendeu. Estávamos ali para conhecer a mais nova criação deles, os tecidos e malhas CO2control, que são sustentáveis, sendo alguns biodegradáveis, mas todos pioneiros no quesito ambiental têxtil. Coisa jamais imaginada há alguns anos atrás, os novos tecidos surgem de uma preocupação da empresa com o futuro desses tecidos quando descartados no meio-ambiente e também quanto à sua toxidade em contato com a pele. Entre os lançamentos, estão o Amni Soul Eco, que é uma poliamida biodegradável, o Apexa, que é compostável e o European Flax, que é um linho certificado. 

Em um auditório, onde estavam todos os diretores e ainda Costanza Pascolato, herdeira e uma das donas da confecção, fomos apresentados aos novos produtos. Vestida inteira de preto, elegante como sempre, cumprimentou a todos e ainda fez uma gracinha ao dizer que estávamos “muito tímidos”. Quem nos mostrou os tecidos foi Gabriella Pascolato, neta de Dona Gabriella Pascolato, atual diretora da Santaconstancia, que além de herdar o nome da avó, também guardou um ótimo ensinamento que repassa a todos funcionários: “Se for fazer, faça bem feito”. Simples e de impacto.

Após a palestra, tivemos um pequeno café, no qual aproveitamos para conversar um pouco mais com a “papisa” da moda. Costanza dirigiu a Santaconstacia por mais de 40 anos, após o falecimento de seu pai. Ali, fez o seu nome no meio da moda brasileira, paralelamente a sua carreira de jornalista e consultora. Superconectada, aos 75 anos, ela falou sobre a sua admiração pelo site inglês Business of Fashion, focado em negócio de moda, e sobre a tendência normcore, que prega um jeito mais normal de se vestir. “Acho que no Brasil as pessoas ainda não entenderam muito bem do que se trata essa tendência”.

Térreo arborizado e calmaria fazem da Santaconstancia um lugar à parte em São Paulo

Térreo arborizado e calmaria fazem da Santaconstancia um lugar à parte em São Paulo Foto: Divulgação

O acervo de estampas foi o próximo lugar que visitamos. Uma infinidade de tecidos, separados pelos temas florais, animal print, Pucci, gráficos, contava indiretamente um pouco mais da história da tecelagem. Logo depois fomos para o próximo bloco, onde nos foram mostradas as novas máquinas de estamparia digital. Mais rápidas, com menos uso de água (esta que é reutilizada em todo o processo e todas as máquinas da tecelagem) e totalmente automatizadas, são elas que permitem a criação de prints à la Peter Pilotto e Mary Katrantzou. Mas a estamparia clássica de silk ainda compartilha o espaço em fase de transição, com rolos enormes, jatos de tinta e um cheiro forte de corante.  

Seguindo, conhecemos a parte de onde outra mágica acontece, a tecelagem. Ali, fileiras com centenas de carreteis brancos provém inúmeros fios a máquinas giratórias que os juntam em uma coisa só, formando o tecido. Poliamida, algodão, nylon, entre outros. Foi fácil perceber que toda a produção é bem pensada para garantir eficiência e qualidade dos quilômetros de tecidos mensalmente feitos no local.

Logo após, nos foi servido um almoço que segue a tradição e as vontades de Dona Gabriella Pascolato. Ela ensinava os funcionários a irem na feira mais próxima e selecionar os ingredientes. O que mostra que até hoje seus ensinamentos foram muito bem aproveitados. Em tempos que a história passa a ser descartada pelos jovens rumo à modernidade, ali se vê outro tipo de pensamento: o que alia a tradição ao novo sem cair nos clichês do fast fashion.

Rolos e mais rolos de tecido no acervo guardam parte da história da tecelagem

Rolos e mais rolos de tecido no acervo guardam parte da história da tecelagem Foto: Divulgação